Arquivos Mensais: Dezembro 2007

Telefonema

Liga-me amanhã, por favor liga mesmo, liga-me quando estiveres melhor e a fúria te tiver passado. Liga-me logo pela manhã, mal te levantes, fala-me com a voz ainda ensonada e conta-me o que quiseres: que te custou a adormecer, que os lençóis são pequenos demais para a cama, que a noite estava fria (para a [...]

Separação

Deixa as chaves aí em cima, larga isso na cómoda já te disse, dá-me essa merda por favor (que acima de tudo sou bem educada) não voltes mais, não me apetece olhar-te para a cara, não quero ver-te, nem a ti nem a esses olhinhos verdes a rirem-se para mim, de mim às vezes, a [...]

Vinte e Cinco de Dezembro

Diz-me que passas este dia comigo, que os outros dias não interessam nem ao diabo, que o ontem já lá vai, que águas passadas não movem moinhos. Peço-te que esqueças o que de mau se passou todo o ano, que não evoques as crises surgidas entre nós, as discussões em tom alto ouvidas por todos [...]

Trigésimo Sétimo Natal

É Natal outra vez, é Natal outra vez. Sucedem-se os Natais, todos os anos mais um, cada um chega mais rápido que o outro e eu aqui, sozinha, à média luz de um candeeiro. Todos os anos se sucede o mesmo, em catadupa, como se fosse costume natalício: apaixono-me. E a paixão não é fácil, [...]

E Tudo Muda Com Um Talvez

Era uma mulher como tantas outras, mas aquela tinha algo de especial. Talvez fosse o vestido preto justo ou a maquilhagem simples, mas que realçava a beleza natural; não sabia bem o porquê de tanto fascínio e do desejo de passar ao balcão e oferecer-lhe uma marguerita. Não sabia também porque a língua me parecia [...]

Solstício de Inverno

Está frio lá fora e estás comigo na cama quente, aquecida por nós. Tanto que passámos juntos, por nevões e tempestades, de mãos e nariz frios, com pernas entorpecidas e agora aquecemo-nos mutuamente. Tocas-me com o pé na perna, em jeito de aviso, à espera que eu corresponda ansiosamente, pondo a minha perna direita sobre [...]

Sete, Sete – XII

(…) O chefe da polícia científica chega ao laboratório, vindo da morgue. Encontra o estagiário num autêntico estado de êxtase, com a respiração sôfrega.- Chefe! Analisei o fio de cabelo louro e sabe a que conclusão cheguei?O chefe, habituado a uma já longa carreira de serviço, não se entusiasma muito, afinal já lhe passaram pelas [...]

Sete, Sete – XI

(…)O ambiente parecia calmo e seguro, mas ao mesmo tempo, havia uma sensação que lhe percorria a coluna num arrepio. Talvez fosse o aspecto frio e cinzento da sala, talvez fosse a responsabilidade ou o medo de se trocar entre palavras, mas a verdade é que Carmen sentia-se pouco confiante e amedrontada perante aqueles dois [...]

Mudanças

Olho ao redor da nossa nova casa, vejo os caixotes agrupados a monte, numa espécie de organização ligeiramente desorganizada, de encontro a uma parede de cor quase branca, quase, não totalmente, porque para pálida já basta a minha cara em dias de mau humor. Retornando ao assunto, olho ao redor da nossa nova casa, vejo [...]

Esta noite esquece que me viste nascer – III

Enquanto as lágrimas silenciosas teimavam em afagar o ar, aproximava-me dela. O coração batia ritmado, ao mesmo ritmo do esfregão e a respiração era cada vez mais ofegante, à medida que me aproximava do seu pescoço. Eu aproximo-me, ela esfrega a panela. Ela esfrega a panela e eu aproximo-me, tudo isto numa cadência contínua, aproximação, [...]

Toma Conta de Mim

Toma conta de mim. É só o que te peço. Protege-me todas as noites, quando tenho medo do papão e do escuro e diz-me que estás aqui ao pé de mim. Aperta-me, aconchega-me, abraça-me e guarda-me dos medos. Acorda-me numa manhã enevoada e pede-me para ficar na cama à tua espera. Pedes e eu fico. [...]

Esta noite esquece que me viste nascer – II

Não me recordo bem a primeira vez que pensei que era ela a tal, uma mulher bonita e interessante, que a queria comigo sempre. Recordo-me dela frequentemente em nossa casa, a melhor amiga da minha mãe, a minha madrinha. Ria-se muito, a bandeiras despregadas, com as minhas brincadeiras de criança e despenteava-me os cabelos em [...]

Esta noite esquece que me viste nascer – I

- És um miúdo como poucosdisse-me. E, ao ouvi-la, caiu-me uma lágrima no silêncio, de tal modo que ressoou como se o vácuo fosse aqui. Olhei-a, como poucos, e senti que era esta a mulher que queria para me acompanhar durante toda a vida. Observava-lhe os traços perfeitos, digno de um projecto artístico, e o [...]

O Sifão do Coração

Magoaste-me Carlos, não precisavas de mentir, de me enganar, de vires com falinhas mansas a dizer- Foi sem quererfalinhas mansas não, por favor, mas selvagens de tão falsas que são. Escusavas de fazer de conta que não me vias quando entrava na livraria, de te esconderes por detrás dos livros de economia, daqueles calhamaços de [...]

Ausência

Não suporto estar aqui, longe de ti e não sentir o teu abraço em cada fresta de luz que atravessa os estores da nossa janela rabiscada. Custa-me tentar sentir o nosso cheiro por entre os lençóis, só obter frieza e o calor a sumir-se por entre os dedos. Gostava que o tempo se repetisse em [...]

Agarrar

Quero agarrar-me a ti. Agarrar-me a ti e não me sentar mais. Fincar-me a cada puxão, a cada contratempo, fazer birra como um miúdo mimado, berrar e não te largar. Quero tornar-me raiz, firmar-me em ti e beber das tuas certezas, curando as dúvidas que nunca existiram. Quero garantir-te a segurança, quero prender-te aqui, a [...]

O Amor

Então é isto também, o Amor: a complacência no olhar como conforto numa manhã mais fria, num medo mais profundo ou num desvio da vida. Não há descanso aqui, ao pé de ti, há mais que isso: há plenitude e tranquilidade. Circulamo-nos nas veias e artérias, complementamo-nos no nosso ser, fundimo-nos num só. Amor, amor. [...]

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