(…) João olha para o seu amor, estupefacto. Depois deste longo desabafo, em meio a um abraço, inesperado, que o fez aperceber-se que a vida é cruel, sarcástica e desumana para alguns, achava que nada mais o poderia surpreender. Pelos vistos, enganou-se. «Mas a tua mãe já morreu há alguns anos. O que há para [...]
(…) O seu nome era Xavier, Doutor Xavier, e quando conheceu Marta, exigiu logo à dona do bordel que ela fosse exclusivamente sua, a troco, claro, de um cheque com alguns zeros. A exclusividade paga-se, mas não se importava e assim a tornou sua, como uma mercadoria que recebe um selo. Foi também ele que [...]
(…) Mais que uma menina, Marta era, a partir deste momento, uma mulher; chorosa, angustiada e repugnada com e experiência que tinha tido. Umas horas antes, não parecia a mesma: Morandini havia cumprido o seu papel e ajudou-a a pintar-se e a vestir-se e no fim, entregando-lhe uma caixa de cartão, disse: «Toma, são para [...]
(…) «Desculpa, qual é o teu nome?» E a menina sofrida levanta-se, já mais calma e pronuncia um sumido som: «Marta» «Marta, Martita… pobrezinha» Assim, entre lamentos e confidências, sentam-se as duas na beira de um velho colchão. A sua nova amiga parecia-lhe de confiança e então, enquanto enxuga as lágrimas, ouve-a debitar um rol [...]
(…) O que se passou depois foi a aflição de uma menina perante a maldade dos seres humanos. Foi levada à força por aquele homem estranho, assistido à distância por aquela mulher, a quem sempre havia chamado mãe. Não sabia para onde a arrastava, tentou gritar, mas as cordas vocais paralisaram e então, já sem [...]
(…) Podia dizer-se que parecia que Nicolau e Marta sempre se tinham conhecido. Não lhe saía do pensamento aquele rapaz envergonhado, mas também o rapaz divertido, de sorriso aberto, que contava histórias da cidade grande. Eram primos sim, mas em terceiro grau, o que na sua cabeça era o mesmo que não ser nada. Um [...]
(…) Foram passos verdes em vegetação seca, que Marta ouviu. Olhou ao seu redor e apenas os sons naturais do mato e seus habitantes animais se distinguiam. Mais uns passos, crác, crác, passos secos em erva verde e a sua cabeça rodava à procura da origem. Olha para a sua roupa caída nos seixos, repara [...]
(…) Rezas à parte, Marta nunca acreditou realmente em Deus, que para ela era apenas um deus pequeno. Era-lhe difícil perceber como Ele existia, como apareceu e como vivia lá naquele alto azul, no céu de ninguém e o padre Simão chamava-lhe herege, obrigava-a a confessar-se e afirmava «Se não te portas bem e não [...]
(…) João ouvia atento. A mãe de Marta não havia comparecido ao casamento, talvez não tivesse sido sequer convidada e então pouco a conhecia. Tinha-a visto umas poucas vezes e acabou por ficar sem qualquer impressão dela, tão calada que havia estado. Era a primeira vez que Marta falava dela e os seus olhos lacrimejavam [...]
(…) «Tenho de ser sincera contigo, há coisas que não posso mais esconder. Têm de ser reveladas, eu digo-te tudo…», diz Marta. João, com os olhos incrédulos, fixa-a profundamente, toca-lhe no pescoço e pergunta: «Juras?» «Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não?«, suspira e afasta-lhe a mão. O clima agora [...]
(…) Cada passo demorado e lento em direcção a casa, era uma fuga às questões que o atormentavam. Cada pedra era pontapeada como fazem os miúdos quando regressam da escola. Aliás, muitos passavam por João, pulando e rindo em conversas descaradas, próprias da idade, mas nem reparava na ingenuidade e pureza dessas mentes. Ia absorto [...]
(…) O incómodo e a desconfiança pairavam sobre João. Ali estava ele, a escassos metros de Marta, qual voyeur e sem coragem de lhe exigir justificações e à sua misteriosa companheira. Não teria menos de sessenta anos, mas era uma mulher diferente, arrojada no mínimo. Pintava-se exageradamente com cores escuras e a roupa era bastante [...]
(…) Muitos chás e bolachas nas semanas seguintes, permitiram que Marta e João se conhecessem melhor. O sorriso de um, era agora o sorriso do outro, um sorriso cúmplice e enamorado. Não muito tempo depois, casaram-se entre muitos falatórios da família de João. E as conversas multiplicavam-se ora em que Marta era uma mulher estranha, [...]
(…) Com os olhos semicerrados, em habituação à luz que irrompia pela janela, João levantava a cabeça em direcção àquela porta. Da noite anterior (ou teriam passado dias?) pouco se recorda, mas as consequências estão bem visíveis. Sente-se febril, com água a escorrer-lhe pela testa em suores frios, alguns hematomas e escoriações na face, na [...]
(…) O pensamento de João manteve-se o mesmo durante semanas completas. Não lhe saía da cabeça aquela mulher, jovem singela e tão misteriosa. Tudo era vivido de novo, em flashes instantâneos, em epilepsias de movimentos, palavras, sons e cheiros: o modo como o sapato lhe caíra do pé, a tez rosada, as mãos pequenas e [...]
(…) Nunca antes João, no seu círculo social, tinha visto aquela menina-mulher. Estranho facto, pois era já hábito frequentar todas aquelas festas e nem sinal daquele cabelo ruivo vistoso e daquelas mãos pura seda. Tentou perceber quem era, qual o seu nome, quem acompanhava, mas a cada passo dado em sua direcção, havia um toque [...]
(…) João sentia-se impotente para dizer fosse o que fosse. Conhecia mal a sua esposa para poder adivinhar o que lhe ia na alma, mas conhecia-a suficientemente bem para saber que não lhe podia arrancar palavras da boca, como se arrancam processos dos tribunais. Aliás, apesar de ser advogado, João não era bom no que [...]