(…) O chefe da polícia científica chega ao laboratório, vindo da morgue. Encontra o estagiário num autêntico estado de êxtase, com a respiração sôfrega.- Chefe! Analisei o fio de cabelo louro e sabe a que conclusão cheguei?O chefe, habituado a uma já longa carreira de serviço, não se entusiasma muito, afinal já lhe passaram pelas [...]
(…)O ambiente parecia calmo e seguro, mas ao mesmo tempo, havia uma sensação que lhe percorria a coluna num arrepio. Talvez fosse o aspecto frio e cinzento da sala, talvez fosse a responsabilidade ou o medo de se trocar entre palavras, mas a verdade é que Carmen sentia-se pouco confiante e amedrontada perante aqueles dois [...]
(…) Os interrogatórios haviam começado e no bairro toda a gente participava em burburinhos. As mulheres passavam o dia à janela do prédio cochichando umas com as outras sobre quem seria o culpado pela morte de tão bela moça. Falava-se num caso amoroso com o rapaz da embaixada lomográfica e num crime passional. Havia também [...]
(…) O laboratório da Polícia Científica vivia um rebuliço agora. Volvidas algumas horas, o jovem estagiário tremia com a responsabilidade de ser ele a revelar ao chefe os resultados das análises bioquímicas ao fio de cabelo. – Chefe? – chamou em ligeira dúvida. Não obteve resposta. «Talvez ainda esteja no departamento de medicina legal», medita. [...]
(…) A vida de Vitória na faculdade não foi fácil. Pela sua atitude introspectiva e calada, praticamente todos a olhavam de lado. Achavam-na uma pessoa estranha, tendo se identificado como anti-praxe e não fez vida de caloira. Ia a todas as aulas, mesmo que mais ninguém fosse. Tirava apontamentos excelentes e parecia que nada a [...]
(…) A Polícia Técnica estava encarregue de examinar as pistas cuidadosamente recolhidas no apartamento da vítima. Tudo foi acomodado e identificado como as normas o exigiam. O laboratório da polícia ficava bem no centro de uma movimentada avenida. Todos os dias esta era palmilhada por centenas de pessoas, centenas de vidas que ali se cruzavam [...]
(…) As dores são naturais a todos. O tempo para a cura é que varia consoante a pessoa. Para Vitória essa cura tardou. Continuou a fotografar e a colocar o fruto desse trabalho online, mas os comentários desejados nunca mais chegaram, o e-mail não continha o remetente pretendido e nem o telemóvel recebia a mensagem [...]
(…) Era um dia igual a tantos outros. Vitória vivia ainda com os pais. Prestes a terminar o secundário, ansiava atingir o seu objectivo: ter uma nota suficientemente alta para se candidatar a medicina. Ia conseguindo, à custa de muito esforço e uma vida social quase nula. A cabeça embrenhava-se completamente em livros e espairecia [...]
(…) Todos estão chocados. Nada faria prever tal desfecho. Afirmam que Vitória era uma moça que nunca dera problemas no prédio. Levantava-se cedo todos os dias, mas chegava sempre tarde a casa. Não era muito afável com os vizinhos e poucos lhe conheciam a voz. Já haviam convocado uma reunião de condomínio, mas Vitória não [...]
(…) Carmen relembra tudo isto ao inspector da Polícia Judiciária que está ali de pé. «A senhora está intimida a prestar declarações no nosso posto.» Enquanto Carmen titubeia tentando dizer que não sabe mais nada, passam dois médicos legais conversando entre si: «Um crime passional, certamente.» «Viste bem a forma como cravaram a tesoura? Ciúmes, [...]
(…) Depois de meia hora no trânsito intenso, a placa ao cimo grita Rua das Tílias. Vitória pede para que Carmen estacione o táxi junto ao banco, esta última franze o sobrolho, mas nada comenta. Seria exagero demais perguntar-lhe para onde ia, pensou. Vitória não sai logo, fica dentro da viatura a olhar o prédio [...]
O corpo jazia exangue no chão de mosaico branco, frio de casa de banho. A sua posição era a de olhos fixos no nada, parecia brutalmente assassinada, uma tesourada fora o seu fim. Quando a encontraram não podiam crer, ela parecia um ser angelical, de imaculada concepção, corpo perfeito, lábios definidos, mãos de dondoca. Foi [...]