Monthly Archives: Fevereiro 2007

Continuidade


Cartas na mesa, copos vazios, fotografias no chão, páginas rasgadas: tudo são vestígios de ti. Aquela camisola que deixaste na minha cama, ainda hoje mantém o teu cheiro. Doce almíscar obtido da tua essência, numa noite de paixão. Bebemos dos nossos lábios a seiva do incompleto, do escasso, do infalível, do imperfeito. O calor e o frio fundiram-se na contiguidade de dois corpos.
Os teus discos continuam a tocar, sem interrupção. As tuas palavras ainda ecoam nas paredes da casa. As tuas impressões permanecem no relevo da minha pele. As moedas estão caídas pelo soalho e o tilintar continua a fazer-se ouvir. Canto cantigas e a voz ressoa no vazio de sempre. O vazio da tua falta, o oco da tua presença, a inanição de ti…

Amo-te

Hoje percebo, calma e serenamente, que os teus lábios, afinal, até são doces. Entendo que o teu olhar consegue viciar-me. O nosso amor cruza-se num eterno suspiro soprado pelo vento. As nossas mãos tocam-se, quentes, pedindo um abraço terno e amoroso. Os nossos corpos fundem-se, rasgados pela paixão.
É aí que tudo muda, que as cores se alteram, que os sons se modificam e os cheiros se intensificam.É nesse momento em que o fogo, a água e a terra se beijam e dizem “Amo-te”.

Felicidade

Dancei para te ver aqui.
Voei para te sentir por cá.
Abdiquei pelo canto das aves.
Corri pelo sentido da vida.
Fiquei para que não partisses.
Esperei para que não fosse preciso fugir.
Ignorei para que se deixasse.
Chorei para que amaciasse.
Mergulhei para depois emergir.
Escondi-me para ser encontrado.
Brinquei para que os olhos brilhassem.
Escrevi para largar tinta.
Dedilhei para que sentisses.
Tropecei para ser afagado.
Telefonei para que desligassem.
Fiz de tudo para ser feliz. Consegui. Por mim.

De Pedra

O meu mundo de conto-de-fadas vai-se desmoronando. O passado desaba, calma e lentamente, como que a dizer que já era tempo de reorganizar a minha mente.
Deixaste de ser a menina que todos conheciam e gostavam (afinal cresceste), mudaste toda a tua maneira de ser… Com que finalidade? Necessidade de afirmação? De reconhecimento? Também já passei por isso, mas os meus valores não mudam (pelo menos tão rapidamente)!
Provavelmente já não te lembrarás de mim, mas reconheço esses teus traços; dos quais agora alguns se queixa. Vejo nuances, nesse teu novo comportamento, do passado. Percebo que participei nessa tua mudança. Lamento.
Espero que não te magoes e não sofras. Não terás estrutura para aguentar.
Conhecia-te perfeitamente. Agora já não. És uma perfeita desconhecida.
De pedra. Assim é feito o meu novo mundo.