Monthly Archives: Março 2007

Ser Selvagem


Despertar o espírito selvagem que há em nós, não tem de ser mau. Não estou aqui a falar de hábitos delinquentes ou motivações destrutivas, mas algo mais profundo como desenvolver criatividade, originalidade e um espírito aventureiro (estilo Indiana Jones, mas a um nível contemporâneo). Somos, por vezes, criaturas demasiado sedentárias, passivas e alheias ao que o mundo nos reserva (em potencial). O medo constante de que sejamos “rotulados” incompetentes ou irresponsáveis, limita-nos a um papel secundário numa sociedade em que tudo parece uma linha de montagem em que temos de ser necessariamente cinzentos, iguais, austeros…
O estádio (temporário ou não) da felicidade depende muito da nossa capacidade de inovar. Por quê viver todos os dias iguais ao anterior, se podemos ter a experiência única de quebrar aquilo que é um palavrão feio, porco e mau, que dá pelo nome de… rotina? Por que temos de seguir o padrão de todos os outros, uniformizar o nosso estilo e opinião de acordo com normas estandardizadas?
Não seria melhor acordar, – não de manhã cedo, pois isso já é comum – mas acordar numa tarde amena de Outono e não nos preocuparmos com o que vamos fazer a seguir, mas reinventar o que vamos fazer? Partir para a rua sem olhar para o espelho, com uma meia verde e outra laranja e poder bradar aos vizinhos que somos selvagens, que somos únicos, singulares!
Ser selvagem não envolve desobediência ou desrespeito, mas sim uma forma despreocupada de ver o mundo. Sermos diferentes é uma forma de mudar mentalidades limitadas e cegas pelo brilho do metal.
Para ser selvagem basta sermos nós próprios, sem filtros, sem tabus… Todos nascemos selvagens… por que não manter essa condição?
Anúncios

Por Mais Desculpas Que Invoque


Por mais desculpas que invoque, não posso desconsiderar o efeito que os teus olhos têm sobre mim. A expressividade evidente torna-se o sinal caracterizador de uma mente evoluída. Mesmo que quisesses, não conseguias evitar o brilho latente nesse olhar próprio de quem já muito viveu e através do qual pode deitar abaixo barreiras de ódios e preconceitos. Podia esconder-me, fugir para locais recônditos do globo terrestre ou evadir-me de um quarto seguro, mas nunca conseguiria omitir o efeito que me provocas. Talvez não creias, mas não há ninguém que te queira mais que eu. Dos tempos em que molhávamos os pés no mar tranquilo e imenso, apenas restam sensações libertadoras. Os erros cometidos foram esquecidos, afinal fomos nascidos um para o outro. E por mais razões que invoque e diga que nada merece as nossas lágrimas, abro a porta da loucura e solto todas as mágoas que nos rasgaram. Por mais desculpas que invoque, tenho de admitir que, no dia em que saíste por aquela porta, todo o meu reino caiu e toda a corte se riu.

Guardar O Que Já Foi


Enquanto lês este texto, o meu coração desintegra-se. Sabes o que é sentir que há uma parte de nós a desfazer-se? Provavelmente nunca imaginarias que isso fosse possível, mas é. Os dedos tornam-se rígidos e é por isso que a escrita se torna tremida. A pele começa a ficar translúcida e vês o sangue a escorrer pelas veias. Estou agora a suar, sim, os pensamentos insistem em atropelar a língua e os lábios, à mínima brisa, desfazem-se como brasas.
Afinal sabes como é? Lembras-te como nos sentíamos juntos? Julgo que a situação é semelhante. A sensação de paixão não tem necessariamente de ser boa. Para mim é antes um desconforto, umas tremuras, um suor constante e um rol de consequências invulgares. Afinal até é bom. É diferente e o que é original é sempre bom. Vês como explica tudo? A rigidez dos dedos deve-se à ansiedade com que nos tocamos e ao desgaste contínuo dos nossos extremos, até que elas se tornam transparentes, como se soubéssemos o que nos vai na alma, como sentimos e o que sentimos. Os atropelos frequentes devem-se à volúpia com que consumimos o néctar que alimenta uma relação. Uma lascívia tal, que desintegra todo o nosso ser. As mãos tocam a terra húmida e a boca suaviza com o orvalho matinal. Em vez de um, tornamos-nos mil. Mil fragmentos, mil pedaços que recolhemos e guardamos na caixa dos afectos, para mais tarde, enquanto nos amamos novamente, voltarmos a juntar o que já foi único.

Metamorfose


Plim, plim. Caem pingos dourados sobre a nuca. Enquanto me dobro sobre mim próprio como um novelo de lã, os dedos entrelaçam-se numa união sem fim. Tento proporcionar um encontro espiritual entre o meu eu cinzento e o outro, mais colorido, mas como o posso fazer? Possuído pela loucura, num ápice me torno uma bola de sabão que reflecte todos os tons da luminosidade constante da qual me escondia. Os períodos em que vivi naquele baú cinzento, de madeira de sândalo, já lá vão. Tempos em que impedia que a fresta de luz revelasse o traço profundo do meu ser, fazem parte do passado. Agora permiti que, ao som de velhas canções índias, me ajudassem a entender que mudar é bom. É uma passagem gradual que não custa tanto quanto parece. O tempo concedeu-me mais alguns minutos para que a partir da bola de sabão pudesse construir uma teia de aranha, com desenho geométrico, através da qual posso seguir caminho. Trago comigo o mundo no bolso, pois quero que todos assistam à mudança. Construo um casulo de texturas diferentes, feito de flores lunares (aquelas que plantava no meu baú). Plim… A transformação ocorre. Por trás das costas erguem-se duas asas. Não são asas de borboleta, tampouco de anjo. São extensões de alma impregnadas de cera (sim, daquelas velas com que me iluminava na caixa de sândalo). Através delas, pretendo chegar ao outro lado do campo. Ao lado em que caem pingos dourados, oriundos da metamorfose de outros seres coloridos.

O Meu Cigarro


Os momentos vividos junto a quem se ama são períodos em que o tempo não corresponde à realidade. Ocasiões em que o espírito se distancia do quotidiano e passamos a acreditar em tudo, mesmo no fútil, no vão. Nas fadas, até. Nos cogumelos mágicos, talvez. São tempos em que olhamos o (e para o) espelho e pensamos no que estará do outro lado. Acreditamos só porque nos dizem para acreditar, acreditamos porque possuímos certezas no acreditar. São bons tempos, em que a ingenuidade se perfaz no indivíduo, mas que nos fazem sentir diferentes, fora de um corpo ou dentro de um, que não é o nosso. Olhamos para as mãos, vemo-las como nossas, mas não as temos como nossas. É complicado perceber, eu sei. É mais fácil senti-lo, mas ainda mais difícil discernir que o sentimos.
Pronto, compreendo que as divagações (as próprias) de alguém como eu, não estão a fazer sentido, mas elas também não saem ordenadas. Ora, posso eu, de bom juízo, afirmar que as divagações saem (ou não) de algum lado? Saem por onde? Pois. Mais vale calar-me, antes que a resposta se reduza a contornos anatómicos ou fisiológicos. Agora compreendo. O copo de vinho a meu lado está quase vazio. O que digo são reflexos do mesmo. Sinto o álcool a correr agora nas veias. Acho que já troco as palavras e resta-me, então, pegar no cigarro. O meu cigarro. (Sim, já sei. Faz mal. A quê? À alma? Não. Então pouco importa!) E acendê-lo. Ver o fumo sair da minha boca e acreditar (novamente as crenças) que são reflexões intemporais (ou serão condicionadas pelo tempo?). Manuseá-lo entre os dedos como um canudo de papel. Esgotá-lo até às terminações nervosas (minhas e do cigarro) e dizer que este era meu. O meu cigarro. O meu fumo. As minhas ideias esfumadas…

Eu, Rosa. Ele, Zacarias.


Conhecia-o desde criança. Tinha eu seis anos de idade e ele, mais velho, possuía já oito dos mesmos. Na altura, era apenas um companheiro de brincadeiras, com as fraldas da camisa de fora e com o nariz por assoar. Recordo-me das horas passadas juntos no jardim da Tia Beatriz. Ainda hoje vejo o baloiço de madeira que o senhor Ezequiel da padaria havia feito, a cova em costumávamos jogar ao berlinde e a sebe em que nos refugiávamos, quando o sol impiedoso nos afligia.
Belos tempos em que a ingenuidade e a simplicidade de cada um se conjugavam na perfeição. Sendo ambos de famílias pobres, os nossos pais trabalhavam no campo, enquanto as mães, laboriosas, ocupavam o tempo a fazer pequenos naperons em renda de bilros, para ajudar ao fraco rendimento doméstico.

Juntos corríamos as searas de milho. Juntos subíamos às árvores. Juntos tomávamos banho no leito, quase seco, de um velho ribeiro. Tudo como amigos, quase irmãos. É verdade que, à medida que íamos crescendo, a curiosidade em relação ao nosso corpo aumentava. Quase uma década e meia depois do meu nascimento o corpo mudava, ansioso por se tornar mulher. O cabelo, negro como o basalto, de dimensões consideráveis, dava-me um aspecto mestiço. Os olhos, negros e amendoados, davam-me uma expressividade tal, que quase era impossível não reparar. Tez morena, pernas longas, formas redondas e seios generosos eram os meus atributos. Ele, por sua vez, tornara-se um homem já com quase dezassete anos. Devido ao calor que se fazia sentir, era comum andar com o peito descoberto. Era bem delineado, com uns braços fortes e mãos vigorosas. Na sua face existiam já uns pêlos negros, vislumbre da sua maturidade.
Apesar das mudanças físicas, pouco tinha mudado. O trabalho do campo continuava e a renda de bilros igualmente.
Ao entardecer, eu baloiçava no quintal da Tia Beatriz, para a frente e para trás, ansiosa por alcançar o infinito. Ele, como de costume, deitava-se junto à sebe, cansado da jornada.
– Queres banhar-te no ribeiro, como fazíamos nos tempos de meninos?
Juntos corremos a clareira de onde se espraiava o leito do ribeiro. O calor tórrido, semelhante ao de um forno, deu lugar a uma frescura temperada. Rajadas de vento sopravam de sul. Num ápice e de uma forma muito natural, despimo-nos completamente. Era comum fazê-lo. Rindo, saltávamos para dentro de água e salpicávamo-nos até ficarmos totalmente molhados. Mas nesse dia foi diferente. Enquanto eu me despia, ele admirava-me, com olhos de nervosismo. O vento soltou-me o cabelo e os raios de sol destacaram-me o corpo, tendo como apanágio o peito brilhante e húmido. Eu, quase como uma espia, também o vigiava com o olhar. Pernas vigorosas suportavam um corpo escultural, digno de Adónis. Um membro desenvolvido, conhecido desde crianças, parecia-me, nesse dia, extraordinariamente apetecível, enquanto pendia ao sabor do vento. As gargalhadas infantis foram substituídas por olhares rendidos aos encantos mútuos. A água rodeava-nos pela cintura e já os lábios se exploravam. As mãos e braços percorriam os corpos, tantas outra vezes tocados, sem malícia. As pernas entrançavam-se numa dança de almas e ao mesmo tempo, sentíamos o sabor, íntimo e profundo, de cada um.
Já em terra, continuámos despidos perante o céu, enquanto as mãos me acariciavam o peito e lhe tocavam o que me tinha invadido uns longos minutos antes.
De regresso a casa, o céu parecia uma cortina cinzenta. Quase não tocámos no jantar, envergonhados pelo que tinha acontecido, mas invadidos por uma súbita sensação, de contornos indefinidos até então. Mais tarde, caída a noite, fui acordada por um trovão, seguido de uma rajada de vento. As faíscas riscavam o céu. Numa dessas, observei um vulto. Vulto esse que invadiu o meu quarto, me tapou a boca com uma mão suada e me desejou, enquanto eu, desesperada, me limitava a resistir com todas as forças que tinha. Numa outra faísca percebi as suas feições: a barba mal aparada, um cheiro horrível, um corpo peludo e uns traços que nunca conseguiria esquecer. O Tio Alberto. Homem maduro, cinquentas. Desde pequena que me observava, tomado por um desejo imoral, obsceno, enquanto a Tia Beatriz sofria. Um animal autêntico. E eu ali, sem forças para o afastar. Impelida pela raiva e repulsa, peguei um velho candeeiro de petróleo junto à cama e rachei-lhe a cabeça. Sem arrependimento.
Corri do quarto em direcção à rua. Um pingo de água tombou-me no peito nu. Procurei o meu amado Zacarias na eira em que dormia. Apenas umas mantas vazias. Fugi em direcção ao ribeiro. Um corpo imóvel estava junto à água. Cadáver. Zacarias. O sangue escorrera-lhe do peito, formando uma poça vermelha viva, orlada de insectos. Calculei que tivesse sido atingido a frio, com uma faca de mato ali caída, claudicando e morrendo da hemorragia. Junto a ele estava o fio de ouro do Tio Alberto, oferecido há vinte anos pela Tia Beatriz. Num rasgo de tristeza e fúria, lancei-o à água. Beijei os lábios do meu querido e fiz com que a faca coberta do seu sangue, me invadisse o coração e derramasse o meu.
Mais pingos e remoinhos de vento. Grossos pingos de chuva desenharam círculos sobre a superfície do ribeiro. Então a água começou a cair a potes. Uma torrente portadora de vida correu sobre a terra, fazendo esquecer o vermelho vivo que nela jazia. Ali ficámos os dois. Juntos. Eu, Rosa. Ele, Zacarias.

O Tal Sorriso


O Desejo. Não o mesmo, não o desejo ardente e carnal. Mas o desejo de, pelo menos, voltarmos a falar como antes. Ninguém me entende. Ninguém te entende. Ninguém entende esta ligação, esta necessidade de obter um sorriso teu, por mais ténue que seja, um esgar de lábios, apenas. É um sentimento (penso eu) quase indelével.
Estavas junto ao portão. Disse-te “Bom Dia”, como faço sempre que te vejo, não esperando mais que uma resposta insignificante ou uma interjeição. Surpreendeste-me desta vez. Bastou-me o teu sorriso. Bonito. Ternurento até.
Algo me disse que estavas sozinha, no sítio do costume. Pensei mil e uma coisas. Sentar-me ao pé de ti. Pedir-te um cigarro. Beber um café. Fazer-te perguntas e afirmações. Cheguei e sim, estavas só. Tu e o teu cigarro.
Talvez não seja a melhor altura. Permaneço ali. De pé. À espera do momento certo. O momento em que surgirá o tal sorriso, outra vez.

Chuva de Aromas


Respiro-te como quem absorve aromas da terra, cheiros exóticos repletos de especiarias. O meu nariz toca na tua pele de veludo. O cheiro a jasmim invade-me o espírito e o corpo inebria-se com o licor da tua alma. Ah! Essência perfeita. Mistura do cheiro do Amor com o aroma da tua espontaneidade.
Continuas estendida no leito das sensações. Aprecio os teus contornos, definições de um violino que toca ao som da Paixão. Aproximo-me serenamente, com os passos de sempre. Sei que reconheces a minha presença, tal como eu identifico o teu ventre pelo tacto.
Sussurro ao ouvido palavras recheadas, palavras que podem fazer-te sentir Mulher. Ficas extasiada com o toque húmido da minha língua, no teu pescoço, enquanto os dedos passeiam nas costas. Suspiro por poder recordar os cheiros e texturas do costume. Os teus braços rodeiam-me, com a ânsia de abraçar o corpo, enquanto aprisionas a alma.
Lábios aproximam-se, guiados pelos murmúrios e gemidos de prazer. Sussuram evidências.
Fatigados, rendemo-nos à chuva dos aromas. Revigorante. Estimulante.

À Procura da Inspiração


Permaneço monotonamente igual.
Fico embaraçado quando me dizem que nunca mais escrevi nada de novo ou que têm saudades da altura em que escrevia vários textos por dia. Longe vão os tempos em que os laivos de inspiração me inquietavam a mente e exigiam a escrita dos seus pensamentos. Quem escrevia? A mão. Só que não juro que a mão me pertence. De que outro modo poderia explicar a dificuldade que tenho, agora, de exprimir o que quer que seja?
As ideias, essas surgem, mas a incapacidade de as expor, aumenta. Horas perdidas à roda de um papel branco, de um papel riscado, de um papel rasgado e amarrotado… O arranque das palavras tem sido um sarilho cheio de desânimos, de falta de confiança, de medo e a dúvida: “Terei secado?”. Os bloqueios são constantes e não se avizinha a sua solição, mesmo marrando contra o papel.
Artista? Não me assumo. Sou um simples divagante à procura da sua inspiração. E estes que nasceram com a mesma sina, compreenderão que não se acham sozinhos: anda por aí uma criatura com as perplexidades, os entusiasmos e desesperos que lhes pertencem. E esta partilha de um fado alivia.
Todos procuram, às vezes, a sua inspiração, a faísca que acenderá uma espécie de luzinha que (esperemos) não se extinga jamais.