Monthly Archives: Abril 2007

‘Both Sides Of The Gun’


Alucinado, percorri o asfalto negro, numa das rectas mais extensas que possas imaginar. Por quê? Pouco me lembro, pouco te sei dizer. Recordo aquela viagem, a tal, a única que partilhámos. Recordo as ruas palmilhadas lentamente; não tínhamos o tempo atrás de nós, para quê nos apressarmos? Para nada, por nada, por motivo algum. Lembro a foto tirada na ponte, captada no momento exacto em que o teu sorriso espontâneo se assemelhava ao de uma criança. E é por estes motivos que te recordo, com a nostalgia de tempos antigos. É escusado falar dos outros momentos vividos a sós, das mãos, dos lábios e dos toques, pois sabes que essa recordação magoa, destrói e consome. Recordo a noite em que, estendidos na areia da praia, contámos as estrelas e eu prometi que iria dar o teu nome, não àquela que fosse mais brilhante, mas aquela que fosse mais vermelha. Com o corpo estendido, demos as mãos e desejámos que tudo parasse ali, na mais profunda solidão que duas almas podem sentir. Ao som de um velho disco de vinil pedimos para morar ali, para suportarmos o peso da vida. E pouco mais me lembro, além do beijo. O último, aquele que foi trazido pelo vento, do fundo das nossas vidas, forças e ‘quereres’.
Agora, acordo e vejo continuidade, não vejo fim, vejo asfalto, não vejo mar, sinto-me, não te sinto, desejo-te, não te tenho.

*photo//:iemai

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Como um bêbado


Não. Já estive mais bêbado do que estou agora, já me encontraste mais louco que hoje, já me deixaste mais perturbado que neste momento. Não duvido que me ames, isso não. Mas a distância distorce o realismo dos factos. No dia em que partiste, perdi tudo o que pensava ter. E mesmo que me tentes convencer do contrário, digo que o teu coração palpita por mim. Deixa-me ouvir o som. Profundo e absoluto. Ele bate com a intensidade de uma cor sangue, de uma cor tinta. É por isso que dizem que o teu amor por mim é cheio, pleno e completo. Sinceramente não sei o que fazer, não sei o que sentir, não sei o que esperar.
Não. Não estou no meu melhor momento, nem tenho o meu melhor fato. E mesmo estando caído nesta ruela, na calçada negra e fria, não me esqueço dos momentos que vivemos juntos. Espero apenas que me reconheças, que ainda te lembres do sabor dos meus lábios e da temperatura das minhas mãos. Será pedir-te muito? Pois, talvez seja. Cheiro a álcool? Sim, cheiro. Mas podíamos cheirar os dois, como se tivéssemos partilhado uma segunda vida. Essa é a parte mais difícil para ti: a partilha. Habituaste-te a ter tudo para ti e guardar tudo na tua caixa. Agora que te peço que guardes na nossa… esquece!
A garrafa já está vazia. Vou buscar outra e esperar que voltes.

A foto é dele.

O Vaso [Uma história irónica e fictícia]


Não é fácil corresponder aos padrões actuais da sociedade. Hoje percebo isso, mas melhor, aprendi a contorná-los.
Quando era bem criança, os meus pais raramente passavam muito tempo em casa e como tal, fui criado por uma ama velha e gorda. (Desculpem os atributos!). Sim, daquelas mal-dispostas, cujo passatempo é trancar criancinhas no quarto, ao mesmo tempo que se empanturram com coxas de frango gordurosas, enquanto vêem novelas mexicanas. Ok, tirando este desabafo, sempre vivi e cresci sem modelos sociais humanos.
O que fazia naquele quarto trancado? Além das necessidades básicas (sim, porque o quarto não tinha lavabos), entretinha-me… pois bem, a fazer absolutamente nada. Como podem imaginar, esta proeza fantástica produzia nenhum desenvolvimento físico, psicológico ou emocional, na minha pessoa. Mas como as necessidades emocionais são inatas (dizem ‘eles’), começou a surgir a necessidade de socializar e, acima de tudo, amar alguém.
Seguindo este argumento (nada)lógico, foi aí por volta dos meus 5 anos (fosse o que isso fosse em termos reais) que me apaixonei. Não pensem desde já que se tratava de uma paixoneta infantil. Não! Era mesmo um amor sólido. Portanto, continuando, foi com 5 anos que me apaixonei por um vaso de flores, porque nunca conheci uma criança. Até podia ‘hiperbolizar’ os seus atributos de vaso e dizer que no seu interior vivia uma bela orquídea cor-de-rosa, mas não. Era simplesmente um vaso, daqueles de barro, grandes e pesados. Faltava-lhe um pedaço, fruto de um confronto físico com o absoluto e temível… chão! Talvez tenha sido esse sinal de fragilidade que me fez apaixonar-me por ele. Sei que muitos rir-se-ão, mas eu sei que o nosso amor era puro.
Hoje, casado e sem filhos, admito que ninguém me podia amar tanto como este vaso.

O Cientista


Assumi ares de cientista e convidei-a para juntos mudarmos o mundo. Através de novas fórmulas e poções mágicas, misturámos ciência e fantasia, fantasia e ciência, tudo no mesmo lume. Brando, porque é assim que se intensificam sentimentos. Corremos os desertos na busca de algo puro que mudasse o mundo. No fundo do gelo, nada encontrámos. Nem no cume das montanhas ou na imensidão das grutas. Nada. Nada tão puro que transforme o que existe.
Pediste por tudo, que te deixasse tomar o rumo da experiência. Convencido da própria capacidade, não o permiti. E logo incluí mais sais, bases e ácidos. Mas a transformação não ocorria, a solução não reagia, o borbulhar não se sentia, o fumo azul não se via. Não soube continuar e na ruína, deixei-a inacabada na esperança que a sabedoria me transmitisse o cálculo matemático essencial.
Cansado de tentar e esperar, por fim te dei a oportunidade desejada. Assim ensinaste-me que não há nada tão puro como o amor e que juntos – unidos no mais puro sentimento – iríamos conseguir mudar o mundo.

A foto é dele.

‘Bichos’ do Ouvido


Já sei. Já sei. Parecem bichinhos ao ouvido: “Calma. Não penses. Descansa. Não inventes.” E tudo se resume a uma tentativa de fazer o que eles dizem. Estico-me, estico-me. Mas tanto, tanto… e não consigo. Por mais que me esforce, há coisas que reaparecem. Assemelha-se a um estigma que trago comigo. ‘Eles’ ouvem o que digo e logo me contrariam.
E tudo começa com simples mensagens, coisas que escrevi em plena euforia. Ontem senti-me uma criancinha, tudo em mim se ria, tudo tremia e cada resposta, a cada mensagem, tudo se encaixava na cabeça. Chego a pensar que estou louco, que é tudo da minha imaginação. Mas isto durante breves momentos, porque depois as coisas conjugam-se – na minha óptica (que por acaso, anda muito desfocada!). E tudo por causa da fantasia, das saudades, do isolamento, do devido valor, da compreensão, do feitio, do egoísmo e do sentido da rotação da Terra… Coisas a que atribuo grande importância, sem que nada valham.
Sinto-me patético, com vontade de rir. Para aqui estou eu, preocupado com isto. O pensamento não pára e continua, continua… E os ‘bichinhos’ no mesmo murmúrio, na lengalenga de sempre: “Não penses. Descansa. Não inventes.”

16-Abril-2007
20 horas, 57 minutos

A foto é dela.

Doce Vinho


Tudo nasceu a partir daí. Desde o momento em que as mãos se conhecem, o resto pede para privar com ele. Ele, o corpo, porque quando duas pessoas se embriagam juntas com uma única taça de vinho é prova que a confiança cedeu lugar à partilha. Doce vinho, ambrósia dos deuses que nos desinibe e nos convida ao amor! Entre uma dança e um golo de vinho, havia uma mão que se encostava ao ventre, como que pedindo que se conhecessem melhor. Mas havia sempre a mão contrária, que contrariava o efeito da direita. Por meio de um lamento íntimo, a que sempre cedeu, o cigarro surgiu entre os dedos. A partilha do mesmo, aconteceu quase tão comodamente como a da taça de vinho.
E a partir da segunda taça, do segundo cigarro e da segunda dança, a mão contrária limita-se à direita. A mão desce, ondulando em contornos nunca antes visitados. Bebemos dos lábios, gotas de vinho. Cada vez mais doce, escorre pelo peito e num momento expedito, a língua passa carinhosamente, sorvendo esse líquido doce. Convidando o desejo, os botões abrem-se entre cada passa do cigarro. O vinho desce suavemente, correndo delicadamente e confunde-se com a saliva.
Os lençóis, da mais pura inocência, partem para a mácula. Cor de vinho mancha o lençol, mancha a ponta do cigarro, mancha os lábios e mancha a pele. Desfazendo-se na imensidão de uma dança compassada entre dois corpos, a respiração torna-se mais ofegante, mais amada, mais desejada. As línguas beijam-se como se a despedida fosse a de ontem, mas desejam-se como se fossem de amanhã. Na última taça de vinho tudo desaba por cima de nós e dá-se o último suspiro de paixão.

A foto é dele.

Hiper-Realidade a Rosa-Negro


Tudo se espelha em contínuos reflexos variantes das cores. Tudo se integra e adquire uma riqueza assaz impressionante. É assim o mundo, assim o inventaram. Agora e se tudo se resumisse a duas cores? Que impactos se perderiam? Ou melhor, que visões se ganhariam?
Um belo dia, um reencontro e a descoberta de que ambos habitamos o mesmo mundo paralelo sem o saber. Os olhos, agraciados pelos estímulos, não aguentavam uma mudança. O céu resumia-se a um tom de rosas ou camélias rosadas, enquanto as nuvens se destacavam por uma escuridão, tão bela de quão negra era. Sim, porque o preto é bonito. Reduz-se à simplicidade que é, reduz tudo à sua essência, sem falsos fulgores. Cada um assume a sua identidade, sublimada apenas por uma profundidade intensa. E é assim esta aventura que exploro até aos limites, olhando para dentro e para os lados, numa verdade que não é fácil sentir. Mas é tão bom. O mundo onírico, uma hiper-realidade de sensações rosa. Não o rosa dos sonhos, mas o rosa dos céus, da terra, do mar.
E é nessa relatividade mais autêntica, numa divagação surrealista que decidi contar as paisagens deste mundo, em música, e o povo, agradecido, aplaudiu.

A foto é dela.

O Mar abandona a sua existência

Sei que gostas de agir como se me soubesses cuidar, mas a verdade é que me fazes doer, me fazes sentir o que não procurei, nem quis encontrar encontrar. A verdade é que o resto se resume a um dia de chuva, a um campo de tons vermelhos e o que supunhas que acontecesse não se deu. Mesmo que o mar se envolva naquelas rochas, podes convencer a ti e aos outros que ele não regressará. Tudo ficará seco. Voltas à praia, mas só há areia e beatas de cigarro escondidas. Cansou-se de te beijar o dorso e voltou à sua origem. O que te incomoda é que eu não sei onde está aquele que vigiava os teus pensamentos. Nessa tendência saudosista, que é a recordação, figuram contrastes de um corpo material com o ondular de um vazio. Algo que existia, mas que abandonou essa existência. E é esse espaço que sobeja do qual sentes falta.

Confissões – II

Confesso que me surpreendeste, não pelo que fizeste, mas simplesmente por o teres feito. Não me preocupei com o que pudesse ter acontecido, pois, na mais pura da inocência (a típica), isso não me passaria pela cabeça. Afinal estás mudada: mais estável e madura; e acredita que a opinião não mudou.

Naquela torre da muralha – em que nos refugiámos para passar a tarde – os teus olhos indicaram-me que havia algo que tentavas esconder (ou até esquecer), mas que o coração insistia em cuspir, como se de fogo se tratasse. Ouvi tudo até o fim. A tua cabeça enterrava-se no colo e as mãos transpiravam verdades incómodas, mas mesmo assim (tendo em conta o meu papel comum de cúmplice, ouvinte e conselheiro) revelaste. Tudo foi dito, pontuado com desculpas do teu estado e outras (aliás, muito plausíveis) e com momentos caricatos, os quais a situação não dispensou. O meu ar calmo e o silêncio desconcertante foram incomodativos, eu sei. Mas esse sentido de vazio que demonstrei, era apenas sinónimo de reflexão e compreensão. Não penses que alguma vez te julguei ou condenei. Compreendi todas as motivações e situações que levaram àquele momento.
Contudo, foste corajosa e mantiveste-te íntegra até perto do fim. mas o ser humano é complicado: vive de momentos, de desejos,de necessidades, de vícios.
Percebo-te. Já vivi isso. Momentos carregados de ambiente físico, ocasiões em que tentamos racionalizar e a mente funciona, mas o corpo não corresponde. Resistir é árduo e por vezes impossível. Todos nós temos um momento de fraqueza… e tu não és diferente de ninguém.

Escondo Segredos


Os segredos têm sido ocultos, mantidos afastados da correnteza das verdades. Esperavas que eles fossem revelados através de uma espécie de luz libertadora, que afastasse de ti os medos e inseguranças comuns. Mas não te contei, com medo que me conhecesses de uma maneira que nem eu conheço. Entre cada página dos livros empoeirados que tens na tua biblioteca, guardo um segredo. Daqueles bem negros e cabeludos que jamais alguém contou. E enquanto te entretens nesse frenesim e nessa procura, eu escondo mais outros naquelas caixas de sapatos, que insistes em guardar, como se algum valor tivessem. Vamos que te quero louca, desesperada, impaciente. Essa ansiedade consome-te. Já devias ter-te apercebido. Entre cada beijo e bofetada que me davas, eu ocultava mais segredos. Desta vez em algibeiras de sobretudos antiquados e de formas padronizadas. E aí, entre cada bola de naftalina, havias de encontrar alguns. Mas nessa altura, novamente eu te escandalizaria com os meus frequentes actos desconcertantes e chorarias amargamente por teres insistido em vasculhar cada canto à procura de um segredo.

Desarmado


Continua o silêncio. Ela continua sentada no divã. Gostava de lhe dizer muitas coisas, mas não sei quais. Tenho nos meus gestos possíveis o impulso para falar-lhe, mas, ao preparar-me, interrompo-me ao meio. Gostava que agora existíssemos apenas nós, um diante do outro, os olhos a única garantia sincera de verdade. Conseguiríamos entender tudo o que já não somos capazes de verbalizar, mas que sobrevive dentro de nós.
A nossa casa. Está repleta de vozes, as nossas. Cresceram os segredos, como papéis escondidos dentro dos livros, como pormenores dentro de caixas de porcelana. Vejo-te passar pelo corredor, vulto coberto de pensamentos. Conheço todos os que levas contigo. Sei também que conheces todos os que trago, quando te observo. Reduzo-me unicamente a mim. Se tento ser aquilo que sou, existo algemado a essa ideia que criaste de mim. Contigo acontece o mesmo.
Agora, desejo a tranquilidade com que sonhámos nas tardes de um doce Novembro. A chuva lá fora e tu no divã. Noutras ocasiões, era eu no divã e tu aqui, a dizer o mesmo que eu, para o teu interior. Essa é a verdade, mas se, nessa hora, me tivesses perguntado, era quase certo que teria negado estas palavras. Do mesmo modo, se agora te perguntasse, não dirias que pensas o mesmo que eu. E se agora me perguntasses, talvez não dissesse que penso o mesmo que tu. Esta é a contradição que somos.
No entanto, agora, estou desarmado e sinto que não envelheço. Pousei sobre a mesa da cozinha todas as certezas do futuro. Deixei o passado no parapeito da janela.
Olho-te, sem que te apercebas, apenas com o prazer, recuperado, de olhar-te e de tentar desvendar os teus mistérios. Antes, acreditar era uma forma de não acreditar. Agora, acreditar é acreditar mesmo. Para sempre, seremos eu, desarmado, a olhar-te, a querer-te, e tu, sentada no sofá, desarmada, envolta em mistérios que tentarei desvendar, certo de nunca os conhecer.
Juntos, pararemos de envelhecer, escondidos no interior do tempo. Juntos, encontraremos as soluções que já soubemos e quisemos esquecer. Juntos, eu, tu, apenas juntos.

Cumplicidade


Tenho saudades dos beijos cúmplices que traçavam a rota dos amantes. Nessas ocasiões, tudo se fundia e as nossas almas tornavam-se uma só. O desconforto natural de duas pessoas que pouco se conheciam, rapidamente se esfumava e condensava-se numa atmosfera carregada de erotismo. Tornava-se difícil esconder os sinais visíveis de dois corpos que se amam e se julgam pertencer. Era como se sucumbíssemos perante uma febre que assolava aquele espaço. O beijo, os beijos, os odores, os toques e carícias que se exploravam numa polivalência de sensações, uniam-se em locais recônditos. E era esta vontade de pertença que nos alimentava, na mais pura fusão de sempre.
Por entre os dedos, deixámos fugir tudo isto, mas na palma das mãos ainda permanecem vestígios da cumplicidade.

A Inocência e A Troca de Sinais


É por reconhecer a fatalidade do teu olhar que me agiganto perante ti. Agora. Porque antes tudo era diferente. Dos dias em que, sentada naquela cadeira antiga, me enternecias o coração com o teu jeito de menina, apenas me restam vagos episódios. Talvez a culpa seja desta minha mente enfraquecida pela já habitual ansiedade ou talvez culpa de quem se entrega totalmente a outra. Mas, sem ironias, a culpa é da inocência. Inocência esta que se julgava ausente ou adormecida, mas que, sem o saber, trabalhava afincadamente como o objectivo de esconder realidades, que apenas surgem para atenuar ou ameaçar a rara integridade emocional.
Quantos olhares se interpelaram com o mero intuito de juntar corpos que suavam sinais notórios de desejo. Inúmeros. Bastantes, imensos. E é através dessa troca de sinais que se alimenta algo que, porventura, nunca devia ter existido. Algo que se devia ter abafado (tal como uma manta faz a um monte de brasas), mas que devido à lentidão com que foi feito, esta surtiu o efeito contrário, inflamando e desenvolvendo um ímpeto flamejante que traga e consome corações.
E é hoje, depois de trocarmos papéis, que eu, sentado na mesma cadeira envelhecida pela memória, revejo os antigos sinais e torno perpétuos os últimos episódios. À média luz de um velho candeeiro relembro um olhar que intimidava gigantes…

Multiplicidade


Enquanto escrevo, os meus dedos tornam-se lápis que, ansiosamente, reflectem o que penso, o que sinto, o que amo, o que quero. Das suas pontas espraiam-se raios multicolores, como linhas de arco-íris depois de uma chuva de Verão. Daquelas que amenizam as ansiedades e amarguras. Dedo a dedo, lápis a lápis, cada um adquire a sua tonalidade, mais ou menos viva, mais ou menos alegre, consoante a disposição.
As aparas dos lápis coloridos envolvem-se numa dança de expressões, palavras, letras e pontos. Rodopiam, em espiral, com veios pintados de azul que se conjugam com os novelos verdes e amarelos, suavemente pintalgados. E é aí que a folha branca fica colorida, passando a ganhar cores intensas, saturadas e contrastantes com o meio envolvente. É aí que a escrita se intensifica em contornos nítidos, de uma mente ambígua: múltiplos sentidos desenvolvidos em múltiplas cores.

Pescadores de Primaveras


Flores… Ah, as flores! O sol, a ameaça de tempos mais quentes e o renascer de toda uma vida. Uma época de transformações… Assim se anuncia a Primavera, a estação do ano que mais publicitam e anunciam. É a Primavera melhor que as outras? A ela são atribuídas propriedades de despertar paixões, felicidade, harmonia, de mãe da vida, do renascer… Um bom «marketing» para um produto que não é assim tão bom. Há quem vislumbre poesia nesta época e a utilize como metáfora para as nossas disposições enquanto seres humanos. É este o puro engano. Nós não somos flores, nem somos prados, tão pouco daquelas coisas maravilhosas que renascem ciclicamente para nos afrontar. Sim, porque a Primavera é uma afronta para a nossa condições de mortais. Dela, gosto da cor. E gosto das trovoadas. A Primavera é um engano. E cruel, porque nos faz promessas que jamais poderemos retribuir.

(Adaptado)

Viagem À Volta do Tempo


Cada dia passa como mais um. O tempo não carece de aprovação para fazer girar os seus ponteiros, mas desejava que sim. Todos os dias construo uma nova parte de mim e pouco a pouco, peça a peça, transformo-me de forma a incorporar novas facetas inexistentes. Debaixo do braço, como um menino de escola, trago um caderninho preto, digno de uma austeridade incomum. Qual é o seu conteúdo? Páginas brancas, de um vazio tal que pedem para ser escritas, preenchidas com momentos quotidianos, fotografias, postais e tudo o mais que possa ter marcado. São efeitos que constroem, fortalecem e estruturam. Identidades que se (re)afirmam e se espelham com o que as rodeia. É o que se chama começar de novo, do zero, inventar novos espaços para guardar algo que ainda não aconteceu, mas que ansiamos. Digam lá se não parecemos crianças? Sedentas, ansiosas e curiosas… Desejamos tudo o que não temos, correndo e olhando em frente, para o futuro. Assim nos construímos. À espera que o relógio conclua a sua viagem…