Monthly Archives: Junho 2007

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVI


(…)
Foram passos verdes em vegetação seca, que Marta ouviu. Olhou ao seu redor e apenas os sons naturais do mato e seus habitantes animais se distinguiam. Mais uns passos, crác, crác, passos secos em erva verde e a sua cabeça rodava à procura da origem. Olha para a sua roupa caída nos seixos, repara também em nuns pés, depois numas pernas, num tronco e nuns braços, repara que é um homem, olha nos seus olhos e sorri. Um rapaz, afinal. Bonito, de olhos castanhos, traço forte, barba aparada, bonitos dentes e ela sorria-lhe. Ele corou, «A menina desculpe, não reparei que estava alguém aqui. Costumava vir para este sítio há muitos anos» e escondeu a cara. Marta, divertida, saiu da água totalmente despida e os seus olhos faiscavam, enquanto se dirigia para junto dele. «Mmm, eu vou andando», dizia o rapaz e Marta estendia a mão, apresentando-se «Marta, prazer. Se pudesse sair de cima da minha roupa, eu evitaria um resfriado.». A vergonha não podia ser maior, mas Marta divertia-se e vestia-se naturalmente junto a ele, que por sua vez virava a cara para o lado contrário. «Podes virar-te que eu não mordo» e quando se virou, já ela estava vestida. Sorriram os dois e passaram a tarde à conversa. Ela descobriu que o seu nome era Nicolau e que ainda eram da família, primos em terceiro grau. Há três anos que não ia para aquelas bandas, «para lá do sol posto», como dizia. E Marta maravilhava-se ao ouvir histórias da cidade, cidade de luz, cidade de arte, cidade de pessoas, cidade de bem vestidos. Nicolau divertia-se com a sua cara e com a ingenuidade de menina que ainda possuía e até chegar a noite, nunca as palavras acabaram e menos ainda os sorrisos. Despediram-se com um beijo na face e Marta correu para casa, pois a noite era cerrada. E eis que quando chega perto, avista o vulto da sua mãe no alpendre. Temerosa, avança pé ante pé, até que a fúria da mãe lhe pergunta: «Onde estiveste a tarde toda? Cansei-me de trabalhar e nem apareceste para ajudar. Já te avisei tanta vez, tanta vez. Diz-me onde estiveste!» e o medo respondeu «Estive no ribeiro…», «Sozinha?», «… com o primo Nicolau». A mãe não se lembrava do primo Nicolau e mesmo se lembrasse, de nada serviria a Marta, pois antes de ter tempo de explicar, já havia levado um tabefe que lhe deixou a cara marcada por dois dias. Na profunda resignação, mas também revoltada, segura com firmeza uma cavilha ferrugenta e faz um enorme risco na parede do quarto. Mal sabia Marta que o seu desejo não tardaria a chegar e a mudança se daria finalmente no dia seguinte, com uma ajudinha do primo Nicolau.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XV


(…)
Rezas à parte, Marta nunca acreditou realmente em Deus, que para ela era apenas um deus pequeno. Era-lhe difícil perceber como Ele existia, como apareceu e como vivia lá naquele alto azul, no céu de ninguém e o padre Simão chamava-lhe herege, obrigava-a a confessar-se e afirmava «Se não te portas bem e não Lhe pedes perdão, não te deixo fazeres a primeira comunhão». Mas Marta pouco se incomodava com isso e, volvidas as costas, esticava a língua num ímpeto de menina rebelde. À medida que crescia, tornava-se mais mulher, mais bonita e sensual. Nunca se tornou católica, porque as pessoas a envergonhavam: «Tens um corpo capaz de virar a cabeça de muitos homens». Realmente tinha e os rapazes da aldeia já tinham reparado e estavam sempre ao redor da janela do seu quarto, mas Marta detestava-os. A sua mãe sempre que os via, corria com eles dali, ora com a vassoura, ora com a pá do pão. E Marta ria-se dessa caricata situação, mas depressa se calava quando a mãe lhe dava também com tais utensílios, dizendo «Tu é que tens a culpa! Muito fresca me saíste tu. Provocas a sede aos rapazes, porque és desavergonhada! Não tens cabeça nenhuma…». Continuava a bater-lhe e dizia «És uma calona. Mato-me eu a trabalhar e tu passas o tempo a mostrares-te, mas isto depressa vai mudar…». Marta nem se mexia, ouvia as humilhações e resignada, no fim de cada tareia, fazia um risco na parede velha do seu quarto, «Quando encher esta parede de riscos, isto vai mudar!». Mas os riscos iam aumentando e tudo se mantinha igual.
Houve um Verão quente em que Marta, já com quinze anos de vida, se banhava num pequeno ribeiro da aldeia e como tal, largava a roupa nos seixos cinzentos, pretos, amarelos, laranjas e rosa e molhava-se assim: livre. Não via mal nisso, mas se a mãe soubesse, depressa lhe chamaria cabeça oca ou até provocadora. Marta pouco se preocupava e persistia nesse quase ritual, até ao dia em que aquelas pedras onde largava as roupas foram pisadas por outro alguém. E Marta teve consciência que a partir desse dia, e apesar de a parede ainda não estar completamente cheia de riscos, a sua vida realmente mudaria.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIV


(…)
João ouvia atento. A mãe de Marta não havia comparecido ao casamento, talvez não tivesse sido sequer convidada e então pouco a conhecia. Tinha-a visto umas poucas vezes e acabou por ficar sem qualquer impressão dela, tão calada que havia estado. Era a primeira vez que Marta falava dela e os seus olhos lacrimejavam dores. Recordar a infância nem sempre é um exercício fácil, porque por vezes há muita mágoa para relembrar e o coração não aguenta. A João apetece-lhe chorar também, mas desta vez é ele que cerra os dentes, com medo de Marta se calar. Nunca a tinha visto assim tão sincera, a deitar palavras em jeito de desabafo, com a cara vermelha e uma madeixa ruiva a tapar-lhe os olhos. Enquanto João ouvia, Marta despejava tudo o que tinha guardado para si em anos de vida.
As palavras levam agora para a visão da mãe, junto ao forno de lenha, com a cara suada e os braços farruscos da pá com que levava o pão ao lume. Este era um dos rendimentos da família, vender pão, além da agricultura. Eram tempos duros e apesar de ser filha única (coisa incomum para aquelas bandas), carinho, comida e dinheiro eram coisas que escasseavam. Do pai, recorda-se do funeral. Poucas pessoas, apenas as da pequena aldeia, seguiam o cortejo. À cabeça, seguia a mãe, em passos rápidos, resoluta e sem pestanejar. Ao seu lado, esforçando-se por acompanhar os seus passos, movia-se a pequena Marta. Também não chorava, sempre fora pouco próxima daquele homem que ia ali deitado. As tareias que ambos levavam enquanto em vida não lhes deixavam saudades. Marta até ia aborrecida, nos seus dez anos, a tapar os ouvidos para não escutar os pai-nossos, as ave-marias e os terços que as velhas beatas da paróquia rezavam a favor dele.
«Se Deus o receber, bem parvo é ele. Nem sabe como o meu pai lhe fará a vida negra…» pensava Martita, lembrando-se que não raras vezes o tinha ouvido a praguejar contra Deus. «Acho melhor avisá-lo antes que seja tarde demais» e agarrou-se também ela ao crucifixo, rezando à sua maneira, na esperança que Ele a ouvisse e barrasse a entrada ao seu pai. A mãe, pelo canto do olho, via a filha nesta azáfama de rezas e pensando que pedia pela alma do pai, puxava-lhe o cabelo, também na esperança que a filha se calasse e Deus não o recebesse na sua presença.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIII


(…)
«Tenho de ser sincera contigo, há coisas que não posso mais esconder. Têm de ser reveladas, eu digo-te tudo…», diz Marta.
João, com os olhos incrédulos, fixa-a profundamente, toca-lhe no pescoço e pergunta:
«Juras?»
«Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não?«, suspira e afasta-lhe a mão.
O clima agora é seco e um vento quente invade a casa, movendo as cortinas. João, de joelhos, inclina a cabeça e encosta-a às paredes frias. Suspira e arrepia-se, um arrepio que lhe percorre a pele e o faz sentir-se incomodado, como se soubesse que as verdades que seriam ditas, iam mudar muita coisa. Marta não suspira, cerra o punho e os dentes e tenta expelir palavras, mas sente-se como quem cospe a sua própria língua. Em tamanha ansiedade, acaba por morder a bochecha. Leva os dedos à boca e sente o sabor do vermelho, sim, do sangue e sorri, num misto de nojo e loucura. E este sofrimento momentâneo leva-a a revelar tudo. João ouve com os olhos do coração e esses insistem em verter lágrimas finas, suaves e sentidas.
As palavras de Marta levam-na a uma pequena sala negra, suja do fumeiro de outrora. Vê uma menina sentada num pequeno banco de madeira, pensando em tudo o que não era permitido a uma criança. Pensa em beijos, pensa na Morte. Pensa que a Morte deve ser baça, míope, mas não má pessoa e os seus beijos devem ser frios, frios como a Morte. Pensamentos maus para uma menina. O Padre Simão já tinha alertado a mãe para a cabeça de vento da filha. Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão cantado. Pregou o padre de cima do altar, para ser ouvido com mais proveito, falando de castigos divinos e de pecados. A menina, a quem chamavam maria-rapaz, mas tinha Marta na certidão, estava sentada no banco corrido da igreja, com a «cabeça na lua», diziam e com as pernas penduradas, para cá, para lá, para lá, para cá, sem ouvir sequer o que se dizia. Sempre fora bonita e sabia-o. Usava o sorriso, sempre que queria um rebuçado do merceeiro e ele dizia «Tira um ou dois, mas não digas à tua mãe, minha cara bonita» e Marta menina tirava um, dois ou três, por vezes quatro. E calava-se, não o dizia à mãe, pois sabia que naquela mão calejada pelo trabalho do campo, pouca paciência e compreensão repousavam. Temendo um sermão pior que os do padre Simão, refugiava-se naquele banquinho de madeira, sabendo que quando a mãe chegasse, por alguma razão mesmo desconhecida, os humores não abundavam.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XII


(…)
Cada passo demorado e lento em direcção a casa, era uma fuga às questões que o atormentavam. Cada pedra era pontapeada como fazem os miúdos quando regressam da escola. Aliás, muitos passavam por João, pulando e rindo em conversas descaradas, próprias da idade, mas nem reparava na ingenuidade e pureza dessas mentes. Ia absorto em si mesmo, no seu interior, fechado sobre si próprio e na única convicção que as dúvidas, essas eram constantes e atropelavam-no, atropelavam-no vezes sem fim, para a frente e para trás, na natural rebelião dos pensamentos e palavras. Perdido na sua própria confusão, acaba por chegar tarde a casa. Com ar de quem está entorpecido pela fraqueza, roda a chave na porta da entrada e sete voltas depois e menos duas trancas, encontra a casa silenciosa. Tomara ele que as suas dúvidas estivessem tão bem trancadas quanto a porta e a sua mente tão silenciosa como a casa; um silêncio oco, mas que é perturbado por sons abafados e pontuais. Era Marta que, sentada a um canto daquela sala moderna, abafava-se a si mesma, numa tentativa de não chorar. Era como se fantasmas a rodeassem e rodopiando, enchiam-lhe o ouvido com memórias do passado. Marta punha as mãos nos ouvidos e balançando a cabeça, dava ares de louca. Quando João se depara com esta situação, sente uma dor imensa e profunda, a dor de não conseguir partilhar a dor de Marta, a mulher que, apesar de tudo, continuava a amar. Em jeitos doces, agacha-se junto a ela e abraça-a com tanta força, como se não a quisesse perder. Um abraço que perdura, no seu entender, longas horas e assim ficam agarrados, naquela solidão, naquele momento em que as palavras não fluem, não falam e apenas o coração grita mais alto que tudo.
Deu-lhe um beijo na face e enquanto sentia a pele da bochecha dela, escutava a sua boca dizer:
«Minha querida»
E cada vez que o dizia, Marta sentia-se mais feliz, mais completa, mais forte. Cada abraço, cada beijo na cara, cada «Minha querida», fazia com que a sua língua se soltasse:
«Tenho muito que te contar. Muito que não sabes, muito que não imaginas sequer, muito do qual me envergonho. Quero libertar-me do peso das palavras, do passado oculto e da tristeza diária. Quero falar-te…»
Ao ouvir isto, João sente novamente a pele da sua bochecha e escuta a boca dizer:
«Minha querida…»

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XI


(…)
O incómodo e a desconfiança pairavam sobre João. Ali estava ele, a escassos metros de Marta, qual voyeur e sem coragem de lhe exigir justificações e à sua misteriosa companheira. Não teria menos de sessenta anos, mas era uma mulher diferente, arrojada no mínimo. Pintava-se exageradamente com cores escuras e a roupa era bastante ousada, talvez até demais. Na mão direita ostentava uma cigarrilha e na contrária, uma luva de cabedal preto. Gesticulava muito e Marta ouvia, encolhendo os ombros ou baixando a cabeça. Do seu discurso apenas ouvia palavras soltas. «Passado», «Vergonha» e «Mentira» eram as mais ouvidas e perceptíveis.
«Chora, minha querida. Chora», pareceu-lhe ouvir. De facto, Marta tinha a cabeça quase no regaço, procurando esconder a fraqueza. E João, no seu silêncio, ao vê-la, perdeu toda a vontade de a questionar, pensando que afinal fosse uma amiga. Sentia vontade de dizer-lhe «Não fales, olha-me só com esses olhos. Só quero olhar para ti, olhos cansados, boca triste», mas nem para isso a coragem lhe chegava. A senhora levanta-se e parece ir embora; paga o café com duas moedas e toca na face de Marta. João teve quase a certeza de ouvir Marta chamar-lhe «Madre», mas a certeza também não lhe chegava. Pensa em todos os significados possíveis para a palavra Madre: a denotação espanhola, a freira, o ventre. Nenhum lhe chegava e por mais voltas que desse, não compreendia. Apetecia-lhe morrer, mas depois achava-se demasiado cobarde para o fazer. Em gestos quase mecanizados deixa uma moeda em cima da mesa, sem esperar o troco e dirige-se em direcção a casa pelo caminho mais longo. «Quanto mais tarde, melhor» pensa. De facto, o caminho mais longo é o do pensamento e a mente de João não o liberta das dúvidas e das incertezas. Tanto que enquanto caminha, nem olha por onde vai, já que para ele, os caminhos do coração, esses sim, são mais importantes.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – X


(…)
Muitos chás e bolachas nas semanas seguintes, permitiram que Marta e João se conhecessem melhor. O sorriso de um, era agora o sorriso do outro, um sorriso cúmplice e enamorado.
Não muito tempo depois, casaram-se entre muitos falatórios da família de João. E as conversas multiplicavam-se ora em que Marta era uma mulher estranha, ora em que não conheciam a sua família. Aliás, nenhum dos parentes de Marta compareceu ao seu casamento, nem pai, nem mãe, avô ou avó, irmão ou irmã, nem sequer um tio distante ou uma tia-avó. «Comportamento estranho», diriam muitos. «Talvez seja órfã», «Ou zangou-se com a família», «Talvez seja uma fugitiva», «Uma louca provavelmente», diriam outros. De Marta nunca obtiveram uma resposta, muito menos um sorriso. Nem do dia do casamento.
Marta não se vestiu de branco, «Uma afronta» dizia, já que não raras vezes se tinham encontrado em sua casa para consumir os desejos carnais, ora por vontade de um, ora por vontade de outro. Era uma Marta simples que se vestia naquele dia, sóbria e de ar discreto. Mas o João que se via era um homem renascido, de sorriso aberto e de olhos cintilantes. «Felicíssimo» diziam todos, mas de Marta nada afirmavam, achavam-na impenetrável, intocável.
O casamento de João não fora tão feliz como imaginara e o que obteve não foi amor, nem carinho, conversas ou passeios de fim-de-semana. «Uma tristeza», pensava.
Mas agora tinha-a nos braços outra vez e as palavras de Marta fizeram-no deixar para trás o flashback de há dez anos. Marta soltou-se do braço que a apertava e saiu da cama em passos descalços. Vestia-se agora à sua frente, deixara de lhe pertencer novamente, tornara-se novamente intocável, de rosto e mente fechados.
João precisou de esclarecer a sua cabeça, depois desta espécie de relação contratual. Vestiu-se e saiu também para andar, tomar um café e, nas suas borras, encontrar o sentido da vida. Ao longe, um menino de três anos ou de tal aparência, brincava, empurrando com o pé um carrinho verde de corda. João sentiu-se vazio enquanto o observava: deixou de ter mulher e filhos, esses nunca os teve. Cada vez que expressava esse desejo, o ar entediado que só Marta sabia fazer, logo o dissuadia. Os pensamentos de João são descontinuados quando numa outra esplanada vê (parece-lhe) Marta, chorando e falando com uma mulher, talvez de sessentas, de olhos fortemente pintados e decote provocante.
Não teve forças para se levantar, mas observa-as de longe, procurando ler nos lábios, as palavras que suspiravam em jeito de desabafo.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – IX


(…)
Com os olhos semicerrados, em habituação à luz que irrompia pela janela, João levantava a cabeça em direcção àquela porta. Da noite anterior (ou teriam passado dias?) pouco se recorda, mas as consequências estão bem visíveis. Sente-se febril, com água a escorrer-lhe pela testa em suores frios, alguns hematomas e escoriações na face, na cabeça e uma dor constante e repetida que o atormenta. No meio desta confusão, ali estava João, despido numa cama desconhecida, numa casa desconhecida e com “visões”, pensava. Quase que podia jurar que cabelos ruivos esvoaçaram, mais que uma vez até, para lá daquela porta. Enquanto confrontava a sua mente com as dúvidas e as incertezas, atentava no aspecto daquele quarto. Era uma divisão antiga, com um leve cheiro a mofo e o soalho de madeira com resto de cera cascada. Uma cadeira escura serve de suporte para um vestido curto preto e uma peça de lingerie da mesma cor e insinuante. A um canto, uma estante alta, repleta de prateleiras, gavetinhas e pequenos nichos, recheada de livros antigos, de lombadas grossas, amassadas e de toda a espécie de acessórios, desde anéis, pulseiras, colares, até elásticos e ganchos pretos para o cabelo. No chão, sapatos. Muitos, de todos os feitios (de plataforma, rasos, de salto alto, agulha, abertos, fechados) e várias cores. Tudo coisas que não condiziam com o aspecto humilde da casa. À medida que observava, já ele se tinha levantado muito a custo e pisava o chão frio; sente o soalho a ranger e num movimento brusco quebra uma jarra azul, que pousava, silenciosamente sobre uma mesinha. Ouvem-se passos em direcção ao quarto e João permanece imóvel, de pé, fitando a porta e sentindo um cheiro doce no ar. Num misto de medo e curiosidade, baixa-se e agarra uma chave grande, de ferro, de aspecto antigo, que estava caída. Mas quando levanta a cabeça, eis que uma figura familiar se lhe apresenta:
«Não seria melhor estares deitado?»
João não consegue acreditar no que vê e esfrega as pálpebras, vez após vez. Tantas semanas a imaginar um reencontro com Marta e num momento de desespero, em que julgava que isso não mais aconteceria, surge-lhe, quase por encantamento. João esfrega as pálpebras e Marta sorri; e Marta continua a sorrir, enquanto João continua a demonstrar a sua incredulidade.
«Não posso crer», era o que conseguia dizer-lhe. E Marta sorria. Estava mais bela que nunca: cabelo luminoso e mais curto, vestuário casual e um sorriso tranquilizador.
Assim se passam horas. João colocava as suas dúvidas, sabia mais pormenores acerca do acto bondoso para com ele e Marta, sorrindo, respondia e cada vez que molhava as bolachas de manteiga no chá, mais certezas tinha que a sua vida se cruzaria com a dela.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – VIII


(…)
O pensamento de João manteve-se o mesmo durante semanas completas. Não lhe saía da cabeça aquela mulher, jovem singela e tão misteriosa. Tudo era vivido de novo, em flashes instantâneos, em epilepsias de movimentos, palavras, sons e cheiros: o modo como o sapato lhe caíra do pé, a tez rosada, as mãos pequenas e pálidas, o vazio sonoro do vão de escada, o beijo roubado, o choque da mão na face e o cheiro a flor de laranjeira.
«Marta, Marta… por que não me sais da cabeça», pensava João enquanto lá fora chovia; mas não se interessava se tinha deixado as janelas do quarto abertas e se a água já lhe molhava as cortinas e o tapete. Mal nenhum, a seu ver, comparado com a presença daquela mulher, na sua mente. O pensamento ratava e consumia-o por dentro, em desejos adulterados, como alvíssaras de se ter tocado aqueles lábios.
Mais uns quantos jantares sociais, mais umas quantas conversas de biblioteca, charutos diminuídos e senhoras acompanhantes e nem sinal de Marta. João não percebia porque não mais a tinha visto, mas percebia menos porque uma desconhecida lhe dava voltas na cabeça. Bebidas a mais, dias a fio, e o desespero que o destrói. Passa a ser frequentador de espaços, ditos de alterne, e todo o género de ruelas imundas, ocupadas por vidas amarelecidas. E o desejo pela desconhecida é directamente proporcional à sensação de cair no fundo do poço. Num desses dias deprimentes, de chuva cinzenta, João percorre as ruas em movimentos bambos e palavras inusitadas para as mulheres de vida, até que cai na calçada desfeita pelo tempo e pelas pessoas. Já nem sente a chuva, já nem sente a dor e ali fica até perder os sentidos.
Abre os olhos mais tarde e da chuva nem sinal, do corpo molhado também não. Apenas o corpo nu em contacto com os lençóis brancos e uma casa quase vazia, de aspecto antigo. Não percebe onde se encontra; pontos de referência, nenhuns e somente na cabeceira da cama, um velho crucifixo negro. Uma porta aberta dá acesso a outra divisão e naquele momento, apesar da fraqueza, quase jura ver uma cabeleira ruiva.

(Continua)
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Marta e as Sabrinas Vermelhas – VII


(…)
Nunca antes João, no seu círculo social, tinha visto aquela menina-mulher. Estranho facto, pois era já hábito frequentar todas aquelas festas e nem sinal daquele cabelo ruivo vistoso e daquelas mãos pura seda. Tentou perceber quem era, qual o seu nome, quem acompanhava, mas a cada passo dado em sua direcção, havia um toque no casaco, no ombro ou em qualquer outro sítio que o impedia. Até que, a dado momento, pelo canto do olho, verificou que alguém, diga-se um conceituado juíz, a puxava pelo braço e tocava com o bigode nesse belo pescoço. O sentimento inicial foi de repulsa por aquele par improvável, logo seguido de um sentimento de dó. A cada toque do juíz, ela revirava os olhos, cerrava os dentes e murmurava sons que lhe pareciam nãos. E não se cansava de observar, ora aquela beleza, ora aquele companheiro de aspecto duvidoso.
É chegado o fim da noite e todos se dirigem para a saída, em passos cadenciados, por umas escadas antigas de estilo vitoriano. João também o faz, com um charuto na mão direita e a mão esquerda cerrada, ansiosa, numa curiosidade desesperada. E ali estava ela, escassos metros à sua frente, à distância de um toque, de um sussurro e eis que um sapato lhe cai do pé, qual Cinderela dos tempos modernos. João baixa-se e pega naquele sapato (de tamanho pequeno, quão singela era) envernizado, de salto alto e cor preta.
«Desculpe, ainda não me habituei a eles», diz uma voz melodiosa, suave e melodiosa, tal qual fora imaginada. «Não tem importância, afirma João num tom de voz semelhante ao que usaria se dissesse que a desejava. Os olhos cruzam-se, à média luz do vão de escada e cria-se uma cumplicidade imediata. João, impetuoso, surripia-lhe um beijo, como se sorvesse um doce. Um beijo que lhe soube a flor de laranjeira, um sabor igual ao cheiro. Um sabor que não dura muito, já que, ofendida pela ousadia, a mão suave dirige-se à face ruborizada de João e os pés singelos dirigem-se para a porta numa correria, como se tentassem alcançar algo.
«Espere! Não me disse o seu nome…», grita João, esperançoso.
E apenas um som se ouve:
«Marta…»
«Marta…», repete João para si mesmo, enquanto sente novamente o aroma de flores de laranjeira surripiadas.

(Continua)
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Marta e as Sabrinas Vermelhas – VI


(…)
João sentia-se impotente para dizer fosse o que fosse. Conhecia mal a sua esposa para poder adivinhar o que lhe ia na alma, mas conhecia-a suficientemente bem para saber que não lhe podia arrancar palavras da boca, como se arrancam processos dos tribunais. Aliás, apesar de ser advogado, João não era bom no que fazia, tendo, em 15 anos, perdido mais de metade das causas. Culpa do pai que, dada a sua influência e nome na sociedade, sempre desejara que o filho mais velho exercesse advocacia e seguisse o seu exemplo. Mas o talento de João sempre foi outro, um nobre sentimento artístico, o apelo dos pincéis, tintas d’óleo e telas. No entanto, nunca teve oportunidade de explorar essa sua aptidão; infelizmente, pois João sentia-se deslocado do meio em que se movia e isso reflectia-se na sua disposição. Nunca teve paciência para aqueles grandes jantares, ditos de negócios, mas havia sido num desses que conheceu Marta e lembrava-se ainda perfeitamente desse momento. Enquanto agarra Marta pela cintura desnuda e espera que ela lhe sopre a alma, João vê-se subitamente nesse jantar, nessa noite.
Outubro. Dez anos atrás. Um João mais fresco e impetuoso, vestido com um fato cinza-escuro, uma camisa branca comum a tantas outras e uma gravata de seda persa, vermelha, oferecida pelo seu pai, movia-se numa sala ampla, bebendo uísque escocês e soltando fumo de um charuto cubano. O meio social era o de sempre: jantares oferecidos pelo seu pai a promotores públicos, advogados, juizes, sócios, em que toda a nata da sociedade estava presente. Um leve soar da campainha convida todos a se sentarem para a refeição e enquanto se movimentam em direcção à sala de jantar, um dos botões de punho de João, caros e reluzentes, prendem-se num belo vestido negro, cintado.
«Desculpe, não a vi» ouvir-se-ia João dizer e uma mão suave e pálida quase brotaria para responder: «Não se incomode». Palavras banais e o olhar que nunca se chegou a cruzar, apenas umas notas de flor de laranjeira no ar. Findo o jantar, os homens reúnem-se na biblioteca de aspecto colonial para trocar ideias e as suas acompanhantes, muitas delas de ocasião, trocam olhares e cochichos entre vestidos de noite. João rapidamente se abstrai da conversa demasiado política, demasiado partidária e os seus olhos focam-se na porta entreaberta que lhe permite ver uma bela mulher (menina, poder-se-ia talvez dizer), de cabelos ruivos, sardas na face e olhos expressivos que miravam, entediados, todas aquelas mulheres engalanadas de maneira sugestiva.

(Continua)

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Dia nenhum, hora para esquecer


Se me visses agora, tinhas pena de mim. Não gosto de imaginar sequer que tens esses sentimentos por mim, mas a verdade é que não estou bem. O cansaço toma conta de mimPAN-PAN-PAN – e oiço a baterem-me de dentro para fora – PAN-PAN-PAN – e tento gritar, mas os músculos da garganta secam de tal maneira que os oiço a rasgarem – CREEE – CREEE – e o estômago revolta-se em palavras antigas, até que as veias dilatam e tudo o que tenho por dentro fica liquefeito em substâncias desnomenclaturadas. O passado volta em forma de vómito, eu a vomitar como se de barco fosse e as letras cuspidas a prenderem-se nos dentes. PAN-PAN-PAN – batem-me por dentro e eu cuspo, vomito e revolvo o que ingeri em horas de vida. Sinto nojo, nojo do que sai – percebo que a minha essência é negra – arranham-me o pulmão esquerdo e mais nojo sinto. O sangue não pára e jorra, jorra em cachão e quase que me afogo no meu interior – negro por sinal. E quanto mais grito, mais me batem – PAN-PAN-PAN – e mais negro vomito. E raspam-me como uma carcaça velha – CREE-CREE – com aquelas facas dos talhantes e que serviram já para cortar a vazia do novilho, no mesmo CREE-CREE – com que me cortam e com a mesma força – PAN-PAN-PAN – com que me batem.

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – V


(…)
Agora Marta encontrava-se nos braços do seu marido. Depois da primeira noite de amor dos últimos longos meses, imperava o silêncio. João, como qualquer homem, dormia e ela, com a cabeça deitada no peito quente, prendia o olhar na escuridão daquele quarto antigo. Sentia-se amada por fora, mas caída por dentro, como se lhe sugassem a vida. Aliás, ia-se dando conta que nunca teve vida, vida feliz e completa no mínimo. Fora forçada a crescer demasiado depressa. «Bastas tu a ti mesma», ouvia ela. «Bastas tu a ti mesma», «Bastas tu…» e estes dizeres repetiam-se continuamente, ecoando em vazios sonoros intermináveis. Entre cada eco, vem-lhe à mente a figura materna, rígida e seca, com o cabelo preso numa daquelas redes finas e o semblante, também preso, sem notas de um sorriso reconfortante. Pelo contrário, o olhar da mãe sempre a fez sentir infeliz e elevada num patamar em que o erro não era possível e em que esse direito não lhe era permitido. Da figura do pai, não tinha memória, apenas uma ausência na qual nem pensava. E nem aquele abraço quente de João a fazia sentir-se mais preenchida. Até mesmo esse a fazia sentir-se sufocada; não que a asma desse cabo de si, mas o coração sentia-se apertado, como se alguém, na mais pura maldade, lhe enrolasse uma corda grossa e desse um nó.
Inadvertidamente, solta um soluço que faz João acordar. Os pensamentos desvanecem-se quando ele a olha fixamente mais uma vez. O olhar penetrante tenta percebê-la, encontrar um motivo, uma ocasião, mas por mais que tente só encontra incertezas e um olhar baço e triste.
«Queres falar?»
«Por mais que falasse, por mais que me esforçasse, não entenderias. Toda a minha vida resumiu-se a uma mentira» e enquanto fala, Marta desvia o olhar para aquela sabrina que ainda tem calçada no pé esquerdo, aquele que sente como o coração.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – IV


(…)
Com o passar dos dias, Marta começou a mudar de semblante novamente. A apatia e os olhos pisados deram lugar a uma firmeza e aspereza incomuns mesmo para ela. No escritório todos se queixavam, desde a sua secretária pessoal até à senhora da limpeza, que pediu o dia para ir ver a mãe doente ao hospital e só obteve palavras duras e ameaças de despedimento. Cada vez mais implacável e com os olhos «quase a chisparem a labaredas«, como dizia a funcionária que servia os cafés, Marta disparava críticas sobre todos e nem o seu marido escapava.
Naquela manhã, João acordou e, ainda de olhos fechados, tacteou a cama, à procura de um corpo quente, que não o dele. Não encontrou. Apenas um espaço vazio e um abrir de olhos que transmitia estranheza de sentir tal ausência. Um rápido piscar de olhos dá-se conta do horário matutino: cinco horas. Apressado e intrigado, veste um robe turco, calça uns chinelos cinza de padrão axadrezado e num gesto impulsivo dirige-se em direcção ao corredor. Apenas dois candeeiros dão uma luz ténue àquela amplitude de espaço, o que confere um ambiente suave, mas ao mesmo tempo melancólico, conjugado com pequenos objectos decorativos de aspecto moderno e linhas simplistas. Os seus passos decididos levam-no àquele pequeno quarto, que não era nem de arrumos, nem de hóspedes, no qual parece que o tempo se negou a passar e que suporta uma áurea misteriosa. Marta encontrava-se lá. De semblante carregado e olhos vidrados, entregava-se ao choro, como se não houvesse solução para o seu futuro. Escondido e sentindo-se como um espião, João permanece perto da ombreira da porta, assistindo ao sofrimento alheio. Observa que as suas mãos carregam um sapato vermelho, aliás, uma visão mais atenta percebe que se trata de uma sabrina envernizada e que no pé esquerdo se encontra a outra que completa o par. No chão, fitas de cetim dão um ar de feira das vaidades, mas do outro lado, a caixa rasgada enraivece o ar. As mãos de Marta tremem, como se fossem embaladas pelo vento e as de João escondem-se nos bolsos do robe. Um suspiro solto sem querer, recompõe Marta da sua dor.
João surge e olha-a nos olhos. Nunca ela lhe pareceu tão bonita: olhos verdes amendoados e uma cabeleira ruiva e farta complementam as sardas que lhe pintalgam a face. Pela primeira vez em dez anos, ela revela-lhe a sua fraqueza e ele sente-se bem em sabê-lo. Na sua carência, Marta deixa que o seu marido lhe toque, lhe percorra o corpo desnudo e que os seus lábios se encontrem com os dele. E como já há muito não acontecia, as mãos percorrem corpos desejados naquela divisão solitária, por cima daquela colcha de cor sumida e no chão, a sabrina vermelha caída no tapete tom de violeta pálido.

(Continua)

*photo://hakanphotography

Marta e as Sabrinas Vermelhas – III


(…)
Os olhos de Marta denunciavam-na: vermelhos, cristalinos e as pálpebras negras e pisadas de tanto chorar. Já haviam passado três dias que encontrou a antiga caixa, mas continuava com um ar taciturno e se já quase não falava com ninguém da empresa, agora nem respondia à secretária e aos seus recados.
«Dona Marta, o director da multinacional pediu o envio urgente da tal nota de encomenda», dizia a secretária, enquanto Marta revirava os olhos com ar de tédio. E a secretária, conhecida pelo seu zelo, quase arrancava os cabelo enquanto corria atrás da sua chefe. Mas não valia de nada; Marta passava os dias fechada naquele escritório, no 3.º andar da empresa. O seu gabinete era uma sal grande, de ar austero e pouco personalizada. Nada no seu interior que denunciasse afecto: nem fotos da família, nem objectos pessoais. Apenas, ao centro, um tapete negro, enorme, comprado por João, por achar que dava mais aconchego ao local. As paredes brancas dispunham apenas de poucos quadro de aspecto caro e abstracto, em que até as molduras de metal escovado, davam um ar cinzento ao sítio. A sua mesa de trabalho igualmente cinzenta: um ecrã de computador preto e um post-it amarelo (o único sinal de cor) que dizia «22 de Novembro, 17 horas, fax urgente», apesar de já ser dia 25. Na superfície, duas canetas metodicamente arrumadas descansavam sobre uma pilha de papel branco com o logotipo da empresa e também alguns faxes e email’s antigos. Clipes metalizados estavam espalhados sobre uma peça de vidro, enquanto que um marcador amarelo fluorescente, sem tampa, jazia dentro de uma lata. Era nesta atmosfera que Marta, com os olhos presos em nada, se tornava cada dia mais apática, mesmo que o mundo à sua volta se multiplicasse em afazeres e movimentos apressados.
Enquanto isto se passava, João chegava do trabalho e encontrava a casa vazia e fria. Não conseguia perceber o motivo daquela reacção, mas, por causa da frieza da mulher, não tentava chegar junto dela e fazê-la desabafar. Temia a sua reacção. E nisto se passavam os dias. João deitava-se e passadas umas horas, chegava Marta, sentava-se na beira da cama e fitando as paredes azuis pálidas, procurava certezas numa daquelas manchas de bolor que insistem em brotar das paredes, em fins de Outono.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – II


(…)
O olhar transtornado e, ao mesmo tempo, maravilhado, não enganava. Havia qualquer coisa naquelas pequenas sabrinas e no seu tom vermelho intenso que modificava Marta. E agora ali estava ela, perante uma caixa de sapatos, imóvel qual estaca de jardim e os olhos inundados de lágrimas que teimavam em cair; mas chorava sem ruído, como se apagasse violentamente o que sentia. Os dedos tremiam agora e tocavam levemente nas pálpebras, secando e amparando as lágrimas.
O quarto dava um ar dramático à situação. Não era o quarto de casal, aquele em que não haviam demonstrações de carinho; mas era outro quarto mais pequeno, mais solitário, como se as divisões também padecessem desse mal. As cortinas eram velhas ou melhor, de aspecto vintage e de um tom violeta pálido e, na cama, a colcha de cor demasiado sumida para ser reconhecida. As paredes davam um ar de abandono à divisão diminuta e antiga, que destoava do aspecto geral da casa. E nisto Marta, de pé, com vontade de cair ou de sentar ou de qualquer outra acção que a impedisse de estacar, como se tivesse visto o sofrimento em pessoa. «Mexa-se», diria o Sofrimento. E Marta permaneceria imóvel, gritando e chorando sem ruído. Mas do sofrimento em pessoa não havia sinal, no entanto Marta sofria com o olhar daquelas sabrinas, não que isso a magoasse mesmo, mas angustiava o seu coração apertado, denotando nostalgia de algo muito querido.
João chega a casa, pára junto à porta e vê Marta calada, com os olhos a gritarem o que ninguém vê. Assustada, larga a caixa, as sabrinas e deixa cair o vermelho intenso no tapete da mesma cor das cortinas. Sai prontamente do quarto. João não sabe o que dizer, o que sentir, o que fazer para amainar o choro da sua esposa; aliás, a última vez que a viu chorar foi no dia do seu próprio casamento e nem quando a sua mãe morrera, há três anos, havia chorado. Marta já não era a mulher a quem um toque no ombro fizesse sentir-se melhor, mais reconfortada.
João senta-se no chão, encostado à cama antiga, de madeira escura, já com os pés parcialmente consumidos pelas térmitas e atenta na caixa caída. Cartão esbatido, amachucado, velho e roído e nele contidas, abraçadas por cetim, umas sabrinas (de tamanho 34, gritava a sola), vermelhas, vivas e intensas.
«De quem são? Por que teve aquela reacção?», era o que bichanava na mente de João. E a curiosidade aumentava a olhos vistos, enquanto sentado no chão, se lembrava da figura da esposa ausente.

(Continua)

*photo://x-horizon

Marta e as Sabrinas Vermelhas – I


Houve toda uma inevitabilidade no que aconteceu a seguir. Momentos espontâneos que se extinguiram num turbilhão de sensações e de emoções que conduziram por fim a uma penumbra de estado de alma. E tudo se desdobrava em múltiplas ambiguidades e contradições em redor da vida de Marta. Este era o seu mundo, permeado por uma eterna ilusão.
«Bastas tu a ti mesma», foi o que lhe ensinaram desde criança e como tal, Marta era conhecida como independente, decidida, mas também solitária e melancólica. A implacabilidade de Marta era notória em várias fases da sua vida, desde o emprego até à família.
João, marido afável e dedicado, atentava já num desgaste da relação de dez anos e a sua amargura aumentava em doses cada vez maiores. A destruição de um lar, o findar de uma relação e a solidão amedrontavam-no, sem que Marta se apercebesse. A vida resumia-se a deslocações diárias para o emprego e, ao fim do dia, um sono profundo, raras vezes perturbado por demonstrações de carinho. Essa eram quase nulas há já um ano.
E Marta continuava sem se aperceber de tal inexistência, aliás, nem sentia falta desses momentos de amor, beijos ou carícias. Havia-se tornado demasiado dependente do seu Eu e estava totalmente absorta na sua afirmação enquanto empresária de sucesso. Tudo porque deixou de sonhar como todas as pessoas, de imaginar que o céu podia ser o seu refúgio e que, numa corrida entre as nuvens, podia cair e ainda assim se sentir leve. Ainda hoje, por esquecer esse mundo, em vez de ver luz, via sombra, em vez de aventura, via acomodação, em vez de amor, habituação…
Até ao dia em que numa busca desesperada de uns documentos importantes, encontrou no fundo de um armário, uma velha caixa de cartão, já amachucada pelo tempo e nela umas pequenas sabrinas de cor vermelha.

(Continua)

*photo://midnight00