Monthly Archives: Julho 2007

Olhos Vendados

Podia esquecer-me de abrir os olhos e ver o mundo. Afinal, bastas-me tu. Olho para os arcos, as escadas, as ruas, o metro e o rio e são os teus olhos que vejo. As crianças riem nos jardins e é o teu sorriso que vislumbro. Cegaste-me, viciaste-me o olhos. Vejo o teu amor reflectido na água que bebo, deixaste-me saudades e um coração apertado. Uma forte recordação prevaleceu, a partir dela consigo ver o teu cabelo ondulado pelo vento, a tua pele morena matizada pelo sol, os teus olhos francos, a tua boca fina e delicada. Mas acima de tudo, vejo o rasto que deixaste. Ainda me dói, mesmo de olhos vendados.

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Sete, Sete – III

(…)

Carmen relembra tudo isto ao inspector da Polícia Judiciária que está ali de pé.

«A senhora está intimida a prestar declarações no nosso posto.»

Enquanto Carmen titubeia tentando dizer que não sabe mais nada, passam dois médicos legais conversando entre si:

«Um crime passional, certamente.»

«Viste bem a forma como cravaram a tesoura? Ciúmes, de certeza.»

Da casa de banho ouvem-se flashes de máquinas fotográficas, passos miúdos e um burburinho de fundo. Lá dentro vêem-se técnicos com os materiais em riste, procurando pistas e rastos deixados por descuido. E abrem-se saquinhos de plástico, com fechos herméticos, nos quais se colocam individualmente e com o auxílio de pinças, uma madeixa loira de cabelo, um frasco de um medicamento qualquer com um princípio activo de mirtazapina, um rolo fotográfico, um anel de prata e a tesoura. Tudo elementos aparentemente estranhos à cena do crime. Ouve-se um fecho de correr, pegam no corpo lívido e esvaído em sangue e colocam-no num saco. Azul-celeste, ironicamente. Ouve-se novamente o fecho de correr.

A perícia revista o apartamento. Era um T1 simples, numa zona boa da cidade, longe da universidade. Estranho facto, pois como estudante universitária era de todo mais fácil morar perto da faculdade. As divisões eram dotadas de uma organização incomum, poucos tarecos, linhas direitas, cores berrantes. A sala era uma divisão ampla, bastante luminosa, com um laranja forte na parede ao fundo. Duas estantes minimalistas estavam cobertas de pó, detalhe que não correspondia à total arrumação da divisão. Um candeeiro de inox, arrojado, convivia amigavelmente numa mesinha de apoio, instalada junto à poltrona. Os bens eram de luxo, notava-se.

O quarto era um local mais intimista, de chão alcatifado e de cortinas vermelhas translúcidas que davam uma áurea quente ao espaço. Um livro repousa na cama ainda desfeita. Os técnicos quais alienígenas invadem o quarto à procura de indícios. Com luvas de borracha sintética remexem os lençóis, uma gotinha ínfima de sangue detém a sua atenção. Uma espécie de cotonete serve para retirar o fluido, que é colocado num frasquinho, também hermético como os sacos. Mais um flash, o técnico dispara a máquina sobre umas marcas feitas na cabeceira da cama. De unhas, talvez. Na mesinha ao lado encontra-se um pó branco, já meio sumido, um cartão de crédito e um papel de prata. Tudo é recolhido.

Lá em baixo, na rua, já todos se aperceberam que algo se havia passado. Os boatos e os murmúrios aumentam e os cochichos próprios de bairro ressoam. As senhoras bem arrumadas e as donas de casa, domésticas convivem agora em tal coscuvilhice.

O saco desce. Dois homens carregam-no. Mãos tapam as bocas das mulheres sensíveis e muitas viram a cara com medo de serem surpreendidas pela face da falecida.

Um rapaz de mota aproxima-se do local. O capacete tapa-lhe a expressão e a identidade. Parece atento ao que se passa, mas nada pergunta. Apeia-se do veículo, tira o capacete e entre uma melena de caracóis loiros, quase que se vêem os olhos vidrados de tal misteriosa presença.

(Continua)

Sete, Sete – II

 (…)

Depois de meia hora no trânsito intenso, a placa ao cimo grita Rua das Tílias.

Vitória pede para que Carmen estacione o táxi junto ao banco, esta última franze o sobrolho, mas nada comenta. Seria exagero demais perguntar-lhe para onde ia, pensou. Vitória não sai logo, fica dentro da viatura a olhar o prédio que se lhe apresenta imediatamente à esquerda. Mira os prédios vizinhos e casca no verniz; o banco e a embaixada lomográfica são mesmo ali ao lado e mais uma raspadela no verniz. Olha para a entrada e os quatro andares acima e casca no verniz. Um papelinho mal embrulhado, sacado da mala, diz-lhe «3.º direito» e a chave numa mão serve para raspar o verniz que ainda lhe sobra.

«Quanto é a corrida, minha senhora?»

«Carmen, trate-me por Carmen. São doze euros e meio.»

«Mas o taxímetro marca quinze…»

«Ora essa, Vitória. Aqui os vizinhos ajudam-se mutuamente.»

Vitória abre os olhos e fica surpresa. Mas Carmen, na sua desenvoltura conhecida por todos, dispara:

«Não pude deixar de reparar que vem viver para o terceiro direito deste prédio…»

E antes que Vitória proferisse um som monossilábico que lhe daria a resposta, já Carmen continua:

«Eu moro no terceiro esquerdo. Sabe, precisamos de sangue novo por estas bandas. É tudo velho aqui, a vida social resume-se a novelas e reposições de programas antigos e os poucos jovens que aqui moram ressentem-se. Sim, porque no quarto andar vive um rapaz, um pintor, muito bom partido, não lhe conheço nenhuma namorada, se calhar fazia-lhe bem conhecê-la…»

Enquanto Carmen prosseguia neste rol de histórias e descrevia as personagens que ali moravam, já Vitória havia fechado o semblante e antes que a sua nova vizinha continuasse a abrir a boca, já esta lhe havia deixado uma nota de dez e outra de cinco no banco do táxi.

«Não preciso de ajudas» e subiu apressadamente, sem sequer desejar uma boa tarde.

(Continua)

Sete, Sete – I

O corpo jazia exangue no chão de mosaico branco, frio de casa de banho. A sua posição era a de olhos fixos no nada, parecia brutalmente assassinada, uma tesourada fora o seu fim. Quando a encontraram não podiam crer, ela parecia um ser angelical, de imaculada concepção, corpo perfeito, lábios definidos, mãos de dondoca. Foi a vizinha que deu o alarme, a dona Carmen do terceiro esquerdo que estranhou a porta aberta àquela hora da noite. Era taxista, profissão incomum para uma mulher, mas a necessidade o havia determinado. Aventurou-se a entrar na casa, bateu duas vezes na madeira de cerejeira, ninguém respondeu e entre com licenças e vou entrar, passava de divisão em divisão, curiosa e preocupada ao mesmo tempo.

«Vitória, estás aí?», gritava.

Era nova a Vitória, estudava Medicina, mudara-se para a cidade este ano. Era pacata, parecia-lhe e pouco falava com os outros inquilinos do prédio. Carmen conhecera-a em serviço. Chamaram um táxi à estação de comboios e eis que uma mulher com cara de menina lhe aparece.

«Rua das Tílias, por favor.»

O seu longo cabelo preto não passa despercebido, nem a sua pele perfeita, de cor morena uniforme, levemente dourada. Ainda menos lhe passa despercebido o destino «Rua das Tílias», o mesmo onde vive há vinte anos. Enquanto sintoniza o rádio em meio a chuviscos de ruído digital, no centro do trânsito infernal, Carmen mete conversa:

«Alguma preferência?», sorri.

«Diga?»

«Alguma estação de rádio que goste mais?»

A sua mão pára quando ouve uma música pop ao estilo que lhe parecia ser o da cliente. Esta encolhe os ombros como se não lhe interessasse muito a música e a conversa.

«Carmen, prazer.», insiste.

«Vitória Lima»

E assim se cala Carmen, mas acha-a distante. Na sua mente paira a curiosidade de lhe conhecer as origens e o porquê do seu destino, mas não queria parecer coscuvilheira.

Nos setenta à hora a que aquele troço da estrada lhe permite, a rapariga mexia os dedos constantemente, como se afligida pela ansiedade. As unhas eram compridas, de formato rectangular, cor de sangue de boi e com o indicador esquerdo raspava o verniz à medida que o respirar aumentava de frequência.

(Continua)

Ruptura

Chama-me impotente, diz-me que sou mau na cama, que é pequeno demais, grosso de menos. Atira-me com coisas à cara, histórias do passado menos refulgente e mais obscuro, com panos deslavados, com cuecas sujas, com meias por lavar. Diz-me que sou porco, que te meto nojo, que te provoco náuseas constantes. Grita a sete ventos, a sete chaves, a sete volts, a sete watts, a sete decibéis que sou vigarista, que tenho off-shores na Suíça, que não faço o IRS há anos e que fujo ao fisco. Conta-me que não sei nada de ti, que fizeste um aborto há três anos, que tens um amante rico e que finges os orgasmos.

Revela-me tudo isso e eu contraponho que estás gorda, que as tuas estrias agoniam-me e que cada vez tens mais celulite. Digo-te que perdi tudo no jogo, que hipotequei a casa e as tuas jóias. Vou clamar que a minha secretária não tem dores de cabeça e faz todas as posições e que a oral que fazes não presta. Vou falar aos teus pais que foste puta, snifavas cocaína e que comias putos.

Fecha a janela, desliga os interruptores, tranca as portas, entrega as chaves. Acabou. Sente o ponto de ruptura.

Branco Caiado

A cidade é branca, as paredes das casas caiadas e as gentes sentadas num qualquer banco daqueles de jardim, trocando vidas em palavras cuspidas, como cospem cascas de tremoços. É uma cidade como outra qualquer, mas daquelas pequenas e amistosas dos tempos de antigamente.

O senhor da mercearia ainda é o mesmo, o senhor Joaquim, o que ainda vende o arroz e o grão a granel e que me dava rebuçados. Tira um ou dois, dizia. A mercearia é a de sempre, empoeirada talvez, mas as frutas são frescas de aroma doce, frutado. As maçãs são apanhadas pelo cunhado no quintal. São sãs, as pobrezinhas. Têm uma mossa ali, ligeiramente pisado do outro lado, um bicho acolá, a lagarta da terra, mas são doces e sumarentas. O melão é o de casca verde, não é perfeito, caiu e tem um golpe, mas não deixa de ser açucarado, aquele do qual se comem duas talhadas à entrada de casa e se deitam as sementes para o solo. O senhor Joaquim esse que ainda agarra uma vara para pescar os produtos que estão na prateleira de cima, o mesmo que recebe a correspondência do vizinho, do amigo, da rua.

E do outro lado, a barbearia. O cheiro ainda é o mesmo, o dos pincéis, do sabão amarelo, da espuma com que o Manel apara os bigodes do clientes. O som também é familiar, o das tesouras e das navalhas, a telefonia que toca os últimos êxitos da Amália, as notícias das colónias e por trás, o burburinho dos homens que comentam o jogo ou que entre charutos, de cheiro a cravinho, folheiam o jornal regional ou o Borda d’Água, procurando festas, feiras móveis ou o melhor mês para o feijão verde.

As mulheres ainda são as mesmas, as de avental, que trocam açúcar pela casa da vizinha e que deixam queimar o feijão do almoço. O cheiro que passa pelas ruas é o do refogado, o do bom vinho tinto, encorpado, grosso, o cheiro da alheira a rebentar de sabor e o das couves cozidas com bicarbonato.

Nas bicicletas montam os mesmos putos, dos suspensórios, dos calções verde-seco e que jogam com sacos cheios de berlindes e bestas, nas poças secas pelo calor. O pó que lhe suja a camisa branca, curtida ao sol nas pedras, depois de lavada, ainda é o da terra vermelha e barrenta.

Os badalos continuam iguais, apregoando os mortos, as missas, os noivos. E o padre é o de barbas, o do costume, da batina preta e do pouco sorriso.

No mercado ainda se ouvem os pregões, os vendedores de flores, as varinas e os clientes, os que gritam, os que pechincham, os que pedem fiado e pagam no fim do mês. O vento sopra à mesma, aquele que gela a cantelheira e a faz arrepiar e dar um gritinho oco.

O rio ainda lá está, a entrar para o mar e os pescadores de lá partem, sete meses no alto-mar e as mulheres cá, de coração nas mãos e mãos no regaço, cujos filhos lhes puxam a saia e lhes pedem pão. E elas continuam a ser as mães e os pais, as que penam para lhe dar de comer e que choram lágrimas das viagens além.

A cidade lá continua, à beira-rio, caiada pelo sol e pela cal branca translúcida que timidamente dá colorido às vidas que nela habitam.

(Nada) Fácil

Não imaginas como me dói, como sofro, como sinto a ausência do alguém, a falta de me sentir preenchido, completo. Há dias destes em que nos sentimos feridos.

Sabes? Acordei angustiado hoje, com falta de ar e vontade de me alhear de todos, do mundo por inteiro. Perdi o meu mundo, a sério. Ou se o tenho, tem uma enorme fenda a meio e eu permaneço lá sentado, cansado, farto de lutar pelo nada, pelo tudo, pelo alguém e espero que ele me engula e me leve para as profundezas.

Não sabes, não calculas como me sinto podre, como neste momento estou a perder a força na caneta com que escrevo e como choro. Sim, eu choro e muito. Uso a desculpa de sempre, a de que os homens também choram, mas se ao menos eu ganhasse forças, se as pessoas não me magoassem tanto, se eu não fosse tão crédulo, tão ingénuo… se esta depressão não me matasse lentamente. «Faz algo por ti, pela tua felicidade» é o que ouço, mas se eu fosse simples, cumpria com isso. Não o sou; voltei a ser fraco, a ser O fraco, o maior, o pior… o de sempre.

Se pudesses alcançar como o telefone me dói, como as palavras ainda mais, certamente entenderias o complexo que sou. Sou o quebra-cabeças, o puzzle das dez mil peças, o objecto quebrado e as forças não vêm do nada. Há quem me ajude, eu sei. Ajudas-me, eu sinto-o. Mas se ao menos eu pudesse abraçar esses, se o meu braço esticasse, se fosse grande, seria m ais fácil. Mas não o é, eu também não o sou, a vida muito menos. Se as letras não me magoassem, se as cantigas não ferissem e os sons não perturbassem… Oh, ao menos se pudesse amar como gostaria, desejar como precisaria, ser como sou… tudo seria mais fácil.

Objecto de Valor

Desejava-te só para mim, guardar-te para não te estragares, riscares ou apanhares pó. Queria manter-te no invólucro original para que não perdesses valor.

Mas por fim acabaste por ser um postal de um sítio barato, mal afamado, um envelope  sem selo, um telemóvel sem rede. E eu levava-te na minha mala barata made in China, à espera que a viagem corresse suficientemente bem para eu me sentir feliz.

Paladares

Querias estar a sós comigo e eu fugia em direcção oposta. Tentava afugentar o que sentia, esquecer as tremuras que me davas e o paladar que me deixavas.

E depois fazias tudo por mim, perguntavas que vestido havias de usar, se o verde te ficava bem, se queria o bife mal-passado, se gostava da música, se a sopa estava boa.

Querias-me seco, como se de uma condição se tratasse, enxugavas-me, enrolavas-me e punhas-me na corda como uma toalha turca. Amaciavas-me a incumbência de amar-te, de sorver-te doce de amora, de lambuzar compota da avó e comer-te com pão, com tosta, contigo.

E querias que marinássemos no mesmo tabuleiro, que absorvêssemos o cheiro do poejo  e dos coentros, que perdêssemos suco em conjunto.

Desejavas-me no prato, fora dele, na travessa, à beira dela e molhavas-me com batatas doces, com amido, fritas ou cruas.

E saboreavas-me, connosco, contigo, comigo.

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XXII

 (…)

João olha para o seu amor, estupefacto. Depois deste longo desabafo, em meio a um abraço, inesperado, que o fez aperceber-se que a vida é cruel, sarcástica e desumana para alguns, achava que nada mais o poderia surpreender. Pelos vistos, enganou-se.

«Mas a tua mãe já morreu há alguns anos. O que há para contar ainda?»

«Muita coisa. A morte dela deveu-se a mim…»

A mente dos dois embrenha-se rapidamente no dia 15 de novembro de há nove anos atrás, fazia pouco mais de um ano de casamento. Nunca João tinha estado muitos minutos com a sogra, mas notava um chispar de olhos entre ela e Marta, um rancor enorme que nem o silêncio calava e ao mesmo tempo, um sorriso maldoso, irónico e sarcástico fixo no rosto da mãe.

«Lembro-me que nos ligaram para dizer que a tua mãe foi encontrada morta em casa. Um ataque cardíaca fulminante, dizem…»

«Sim, eu sei. Eu estive lá, assisti a tudo», revelou Marta.

«Mas como, se nunca visitavas a tua mãe? Para que te encontraste com ela?»

As palavras de Marta novamente saíram em catadupa, interpoladas por ocasionais paragens de sossego da alma e João visualizava através delas o que havia se passado.

Marta saíra cedo de casa nesse dia. Deixou o marido abnegado, exausto de tanto trabalho, na cama, num profundo sono. Levava um sobretudo castanho, comprado por catálogo, que lhe tapava quase todo o corpo. O dia era chuvoso, negro, daqueles em que ninguém sai à rua, mas Marta caminhava até ao carro. O seu espírito estava ainda mais chuvoso que o dia e não conseguia conceber como a sua mãe lhe tinha feito aquilo e que durante tantos anos de clausura, nunca havia perguntado pela filha.

As mãos conduziam o carro topo de gama e o motor gritava-lhe em sons suspirados: «Não o faças!». Mas ela punha o volume do rádio mais alto e não dava ouvidos ao motor.

Aproximava-se agora da casa de sua mãe, a casa em que havia vivido (ou sobrevivido) durante a sua infância. Olhou para o calendário do telemóvel: Novembro. Dia quinze. Em passos cadentes aproximou-se do vão de escada e vem-lhe à memória o fatídico dia. Não precisou de bater à porta, estava entreaberta. Encontrou-a sozinha, sentada num velho banco; não era a mãe de sempre: era a mãe envelhecida, decaía, com a face marcada pelas rugas do tempo e as mãos trémulas que procuram conforto. Os olhos de Marta procuram os da mãe, questionando-os, buscando respostas e encontrou o mesmo olhar frio e sarcástico.

Ela sentou-se ao seu lado, sem esperar justificações porque o ódio era demasiado grande. A mãe, por seu lado, levantou-se e colocou chá, que ainda fumegava, em duas chávenas pequenas. Vira a cara para o lado, para pôr mais água na cafeteira e Marta, com as mãos a tremer, julga que é o momento ideal. Então tira do bolso da gabardina, um frasco e do seu interior derrama um pó miúdo, de cor rosada, no chá da mãe. Esta, ao voltar-se, sorve o chá em goles curtos e Marta sorve-lhe o olhar em jeitos odiosos.

Naqueles curtos minutos, não chegaram sequer a falar e mal terminado o chá, Marta levantou-se e sem nada dizer, partiu não sem antes ver, pelo canto do olho, a sua mãe com a mão no peito. Tranquilamente, como se o tempo voltasse atrás, fez o caminho de regresso a casa, com a mesma chuva e o barulho do motor, que no seu compasso cadenciado, gritava «Consumado, consumado». Já em casa, despiu a gabardina castanha e deitou-se ao lado de João. Horas mais tarde o telefone tocou e Marta apercebeu-se, mas não se incomodou.

Ouvido isto, João ficou sem palavras e com um olhar compreensivo, apertou Marta, sem julgamentos. O abraço era o sonho de um futuro juntos, o futuro de felicidade que sempre desejara. Olhou-lhe para os pés e viu as sabrinas, as que usou no primeiro dia no bordel, oferecidas por Morandini. E João pôde ter a certeza que, enfrentando o passado, Marta olharia com firmeza para os dias à frente. Os seus olhos reflectiam agora o vermelho, o mesmo intenso e vivo das sabrinas, o mesmo que os unia e num suspiro em uníssono, viveram o seu amor, enquanto as fitas de cetim gritavam: «Consumado, consumado».

[O Fim]

(Para ler a história completa, ver aqui.)

Leva-me Contigo

A cada leve pousar da alma, o teu cabelo perfumava o ar e fazia-me sentir mais desejado e mais amado. Bastava o toque dos teus dedos para que os arrepios se apoderassem de mim e a minha boca começasse a desejar-te louca e incessantemente. Vem! Abraça-me, deseja-me, quero sentir o teu corpo num abraço único, sentir-me dentro de ti, sentir-me quente, sentir-me confortado. Os teus lábios percorriam o pescoço e os pés massajavam o vento. Tu sussurravas: «Ama-me, corrói-me, intensifica-me» e enquanto me soavam a pedidos impregnados de aromas, libertava-me e implorava: «Leva-me contigo».

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XXI


(…)
O seu nome era Xavier, Doutor Xavier, e quando conheceu Marta, exigiu logo à dona do bordel que ela fosse exclusivamente sua, a troco, claro, de um cheque com alguns zeros. A exclusividade paga-se, mas não se importava e assim a tornou sua, como uma mercadoria que recebe um selo. Foi também ele que a levou ao jantar organizado pelo pai do João, no dia em que os dois se conheceram.
Xavier achava-a adorável, mas também infeliz, com os olhos marcados pela dor e pelo rancor. O ódio de Marta pela mãe foi alimentado durante todos aqueles anos de subserviência aos homens e àquela mulher mal afamada. O seu protector, com os anos, passou a encará-la como filha e a ter repugnância do seu passado; como recompensa libertou-a do bordel e comprou-lhe uma pequena casa, modesta ao jeito de Marta, na qual ela pôde endireitar a estrada da vida.
Ainda se lembra claramente do dia do primeiro beijo com João. Para si, o seu único primeiro beijo, dado com sentimento, mesmo tendo apenas trocado uns olhares com ele. Mas para Marta, de todos os homens que se vangloriavam naquele jantar, João era o único que permanecia calada e que se revelava um verdadeiro senhor. Ainda se recorda do dia em que ao passar por aquela rua em que definhou tantos anos, encontrou o mesmo homem com quem tanto sonhara, caído na rua, à chuva, inconsciente. Depois de pedir a um transeunte que a ajudasse, levou-o para casa e, sozinha, secou-o e tratou-lhe das feridas do corpo, como se lhe tratasse o hematoma do coração.
João chorava agora. Marta já tinha secado. Nunca João tinha imaginado que dez anos de um casamento amargo e silencioso se devessem a um passado tão tenebroso, tão infeliz e à vida sovada que desde criança, Marta tinha tido. João sentia-se egoísta, sempre pensando que as atitudes dela se deviam a caprichos. Depois de casarem, Marta conseguiu a pulso liderar uma empresa e ganhar reputação inquebrantável, «Talvez fosse uma forma de vencer a vida, de compensar o que ela se recusou a dar-lhe», pensou.
«Quem era aquela mulher com quem conversavas na esplanada?»
Marta olhou-o estupefacta, pois não percebia como ele o sabia, mas limitou-se a responder:
«Morandini. A minha incansável Morandini. O bordel foi encerrado, finalmente a cidade abriu os olhos. Diz-se que foi Xavier quem tomou as providências. Morandini vai regressar a Buenos Aires e as outras mulheres ais seus países. Todas perceberam que nesta cidade, infame e carrasca, não conseguem ser felizes.»
Parecia que um peso lhe tinha saído das costas. Sentia-se mais livre, sem mentiras e sem vergonha do passado, do qual não tivera culpa. João surpreendeu-a: ouviu toda a sua história de infância e não pestanejara, nem sequer franzira o sobrolho; apenas o amor brilhava nos seus olhos e senti-o na ponta dos dedos.
Marta diz-lhe por fim:
«Há uma coisa sobre a minha mãe que não te contei ainda…»

(Continua)

*photo://Squeeba

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XX


(…)
Mais que uma menina, Marta era, a partir deste momento, uma mulher; chorosa, angustiada e repugnada com e experiência que tinha tido. Umas horas antes, não parecia a mesma: Morandini havia cumprido o seu papel e ajudou-a a pintar-se e a vestir-se e no fim, entregando-lhe uma caixa de cartão, disse:
«Toma, são para ti. Para calçares.»
Marta abriu e dentro da caixa, além de fitas de cetim, encontravam-se umas pequenas sabrinas de um vermelho intenso, vermelho de mágoa.
Foi assim que Marta se arranjou do modo que os homens, se é que se lhes podia chamar isso, endinheirados gostavam. Não todos, claro está, mas aqueles que eram clientes do bordel, apesar de serem cheirosos por fora, eram porcos e imundos nas entranhas das suas almas.
As gravatas de seda não escondiam a sua origem e os que chegavam, tinham à espera um quarto privado e recatado, numa qualquer ruela amarelecida pela ausência de esperança. Era lamentável que alguns tinham família, esposa, filhos e reputação, mas tinham também a maldade e o vil metal, que os julgava superiores aos outros. Já naqueles quartos privados demonstravam os seus desejos ardentes, serviam-se e iam embora, deixando-as ali, preparando-se para o próximo. E isto acontecia quatro ou cinco vezes por dia. Com Marta não foi diferente. Pela sua ainda meninice, a gorda do bordel, cobrara mais a um famoso juíz da praça. Tinha mulher, mas enquanto a mantinha controlada com um ou mais vestidos por semana, ela calava-se.
Marta não se esquece de o ver fechar a porta do quarto e ficar trancada no quarto. Sem falar, observava aquela pele jovem, aqueles longos cabelos ruivos e aquelas peças íntimas provocantes. Aproximava-se e ela resistia, debatendo-se contra a promiscuidade. Mas ele tinha mais força e dominava-a, enquanto ela via um animal a saciar-se. As lágrimas caíam-lhe e resistia com todas as suas forças morais àquele homem e ao que ela chamou «de horrível monstro».
E pela primeira vez depois do funeral do seu pai, pedia ao deus menor, que passasse a ser o seu Deus. Rezava e resistia, chorava e debatia-se, até que por fim, já satisfeito, ele a largou em cima da maldita cama. Vestiu-se e deixou a porta aberta atrás de si.
Depois desta ocasião, muitas outras se seguiram e, Marta-menina, Martita recebia homens diariamente, enquanto rezava àquele que se acabou por tornar o seu Deus.
Meses mais tarde, tornou-se também acompanhante de luxo e começou a poder sair do bordel, noites esporádicas, para fazer figuras em jantares e festas sociais. Era a preferida de um cliente rico da cidade, um juíz de bigode, que a tornou exclusiva e foi ele que numa noite, a levou a mudar de vida.

(Continua)

*photo://Angel-Soul

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIX


(…)
«Desculpa, qual é o teu nome?»
E a menina sofrida levanta-se, já mais calma e pronuncia um sumido som:
«Marta»
«Marta, Martita… pobrezinha»
Assim, entre lamentos e confidências, sentam-se as duas na beira de um velho colchão. A sua nova amiga parecia-lhe de confiança e então, enquanto enxuga as lágrimas, ouve-a debitar um rol de palavras e de histórias. Percebe assim que está num bordel, casa afamada entre banqueiros e novos ricos, mas que não passa de um local de prostituição forçada, a troco de comida, simplesmente. E todas elas foram vendidas desumanamente como se de objectos se tratassem. Parecia-lhe estranho, mesmo para os seus 15 anos, que alguém pudesse vender mulheres, como se vendem bifes de novilho e afinal, havia sido, também ela, vítima do mesmo. A imagem da mãe, que realmente nunca lhe demonstrara carinho, surgia-lhe intermitente: sentada no vão de escada, a contar notas, passivamente.
Marta sempre desejara viver na cidade, mas agora, daquela janela com frades ferrugentas, não via a cidade luminosa, artística, nem revolucionária. Via, sim, a cidade manhosa, puta e alcoviteira; a cidade dos salamaleques, gravatas e maneirismos, emproada, contada por aquela mulher vinda da Argentina em busca de uma vida melhor, mas encurralada naquela pequena divisão, pequena demais para conter o sofrimento. Morandini, apelido pelo qual a chamavam, estava há já sete anos ali, mas a revolta continuava. E agora não podia crer que estivessem a utilizar aquela criança, como isco para homens casados: os intocáveis da sociedade.
Repentinamente a porta abre-se e entra uma outra mulher, desleixada, notava-se balofa nos seus excessos e desnutrida de vaidade e orgulho. A sua expressão é francamente intolerável. Com o pescoço cheio de carnes gordas admira atenta e pausadamente aquela miúda a quem trouxeram, enquanto Morandini balbucia, descrevendo-a como «a dona deste antro», «a quem mais ordena, força e condena».
Essa mulher aproxima-se de Marta:
«Levanta-te»
Estica a mão, agarra-lhe o queixo e movimenta-lhe o rosto, ora para cima, para baixo, ora para os lados. Nas suas poucas palavras, vira-se para Morandini e ordena:
«O teu trabalho é ensiná-la a comportar-se e arranjar-se. Os outros encarregar-se-ão do resto.»
Morandini estarrece, mas não contrapõe e a mulher sai do quarto, não sem antes exclamar:
«Dentro de duas horas terás o teu primeiro cliente»
E Marta principia a chorar tão baixinho que o mundo inteiro ouviu.

(Continua)

*photo://Razorbed

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVIII


(…)
O que se passou depois foi a aflição de uma menina perante a maldade dos seres humanos. Foi levada à força por aquele homem estranho, assistido à distância por aquela mulher, a quem sempre havia chamado mãe. Não sabia para onde a arrastava, tentou gritar, mas as cordas vocais paralisaram e então, já sem forças, deixou-se levar. A última coisa que se lembra foi um estalo na cara, que a fez bater com a cabeça na parede de pedra escura. Perante tal dor ainda viu a mãe sentada no vão de escada a contar dinheiro, muito mais do que ela teria visto na sua vida inteira. Nada mais se lembra.
Horas mais tarde acorda e sendo o calor tanto, levanta-se com a boca feita cortiça. Olha ao seu redor e vê uma longa, mas estreita divisão, de aspecto tenebroso. Sete camas, ou melhor, sete colchões ocupam aquele espaço; estão por fazer, com os lençóis puxados para baixo e as mantas remexidas. Roupas íntimas estão espalhadas pelo quarto, mais espartilhos, mais sapatos altos e bases, unhas de gel, batons, escovas e ganchos, junto com objectos de cariz desconhecido, mas assustador. Havia um grande desamparo naquele quarto, por isso começou a chorar como desafogo. E o espaço em que estava encheu-se de ruídos, passos e, se não era perdição dos ouvidos, para aquele lado soara uma voz anasalada, mas feminina, parecia-lhe. Não aguentou mais. Com medo que fosse aquele homem horrendo que a arrastara, encolheu-se num canto, como se levasse atrás de si todos os diabos do inferno e todos os monstros que povoam a terra, os viventes e os imaginados.
Uma voz parece-lhe ansiosamente perto e diz-lhe:
«Então querida, não tenhas medo.»
Marta encolhe-se ainda mais, olha para cima e vê uma senhora madura, vestida com uma saia reduzida e um espartilho preto, fortemente apertado. A sua face era tranquila, mas o semblante era franzido.
«Onde estou? Quem é você?»
«Foste vítima da ganância, como todas nós. São pessoas vis e más que julgam ter controlo sobre a alma humana…», responde-lhe e rapidamente os seus olhos brilham, prontos a lacrimejar. «E tu és tão nova… mas a beleza prejudicou-te. Oh, como foram capazes? Como eu gostaria de te ajudar…»
Marta cada vez entendia menos deste discurso emotivo. Restou-lhe confiar naquele rosto, que, apesar da desconfiança inicial, sabia que teria as respostas para muitas das suas perguntas.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVII


(…)
Podia dizer-se que parecia que Nicolau e Marta sempre se tinham conhecido. Não lhe saía do pensamento aquele rapaz envergonhado, mas também o rapaz divertido, de sorriso aberto, que contava histórias da cidade grande. Eram primos sim, mas em terceiro grau, o que na sua cabeça era o mesmo que não ser nada. Um estalido na janela desperta-a da vigília de sonhos que vivia; novamente um estalido, mais outro e outro. Rapidamente se levanta, pensando que se tratava de algum «maldito rapaz da aldeia» e com a língua pronta a entrar em desafio, abre de par em par a janela e dá de caras com um sorriso familiar.
«Tu?»
«Não consegui resistir. Pensei que eras dada a aventuras.»
«Eu sou, mas a minha mãe não é. Espera aí um bocadinho.», mas esse bocadinho foi num ápice, pois desceu com agilidade de gazela e coração de menina. Passa pela mãe e desvia-se como quem contorna um obstáculo a mais. Esqueceu-se de comer o pão e beber o café, de se lavar também, mas qual a importância disso se tinha um enorme sorriso à porta, à sua espera? Desgrenhada e com a cara por lavar, pendura-se no seu pescoço, dando-lhe beijinhos na cara. Nicolau cora «Por quê esse entusiasmo todo?»
«Porque gostei da tarde de ontem. Gostava que me contasses mais coisas da cidade».
«Foi por causa disso que vim ter contigo…»
Marta criou esperanças de toda a espécie e à medida que ouvia, o seu coração insuflava, insuflava até que lhe subia à boca e a fazia falar. Estavam agora junto ao ribeiro, com os pés dentro de água e conversavam em silêncio. As expressões, gestos e movimentos eram suficientes: havia uma troca de sorrisos constante, uns trejeitos de boca inconscientes, uns leves balançares de pernas. De repente o silêncio invadiu o ar, qual enxame de sentimentos e Marta diz de um fôlego só:
«Eu vejo que és especial. Quero-te».
Nicolau cora, finge que não percebe e inclina a cabeça para baixo. Os lábios de Marta aproximam-se, os olhos beijam-se, o resto esquece-se. E ali ficam horas, de mãos dadas na ingenuidade daquele amor.
O tempo voa naquele amor, «Prometes que voltas amanhã?»
«O amor não se promete. Sente-se.», diz Nicolau. Nem se chegam a despedir, convictos que se veriam no dia seguinte, mas mal sabiam que quando Marta chegasse a casa, a mudança se daria de um modo sem retorno.
Marta correu até casa, sabia que não se livraria de um sermão, de uma sova talvez; mas curiosamente, não foi isso que encontrou. A mãe estava à porta, sorriu sem que Marta se apercebesse do ar malicioso e avista, na escuridão do corredor, um cigarro aceso e a mão que o segurava. O aspecto era de um homem de meia idade, com barba, olhos negros, ar implacável. Marta assusta-se, olha para trás, perguntando com os olhos quem era aquele homem de mau aspecto.
Os olhos da mãe faíscavam:
«Sim, a tua vida vai mudar. Nem imaginas como…»

(Continua)

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