Monthly Archives: Agosto 2007

Fingimento

Ele entrou na sala, viu-a e ao mesmo tempo sentiu que não a podia ter. Cumprimentaram-se quase a medo, medo que o coração os denunciasse. Um beijo na face, um abraço emocionado e contudo, era mais do que isso, eram palavras contidas em amassos de folhas, guardadas a sete chaves, escondidas de todos. Pediam que tomasse o papel de actor e ao mesmo tempo de fingidor, como o poeta. Não era capaz de o fazer, nunca fora bom a fingir daquilo que o coração está cheio.

O abraço serviu para num relance sonoro poder sussurrar:

– Quero-te.

As palavras ficaram contidas mal os braços se largaram: era um segredo demasiado doloroso para os outros, mas pior ainda para eles. Ficaram limitados a mãos no bolsos enquanto os olhares se descobriam. Ver os lábios e eles não se encontrarem, querer tê-la nos braços e não poder. A impossibilidade matava-os de vontade, desejo de se tocarem. Lembravam-se dos jogos que fizeram até se envolverem emocionalmente. Brincavam com o fogo, como se ele lhes fosse essencial. O desejo era o mesmo e nunca o tinham revelado por pudor ou vergonha. As palavras atropelavam-se como se cuspissem o que lhes havia enchido o coração. Estava tão cheio, tão completo e belo que o sentiam na boca. O coração a mil, o cérebro também.

Novamente a mil, agora frente a frente. O coração nas mãos, as mãos no coração. Os lábios que se mordiam, as palavras que fingiam. O desejo que crescia, o sorriso que se inventava. O quererem tocar-se, os corpos que se riam. As palavras ficaram escondidas para sempre, pedia-se que se conseguisse, que não se tentasse. O medo de tentar fora demasiado, talvez se tivesse deitado um bocadinho de Felicidade fora. Felicidade temporária, se calhar. Mas tinha o mesmo nome e cheirava ao mesmo: Felicidade. Tinha uns travos a paixão também. E canela. A vontade de arriscar era muita, porque o Amor também o era. «Não podemos», dizia. E não podiam. Talvez um dia se pensassem que também eles tinham direito a alguma coisa e pensassem também em si. Sonhava-se com o beijo trapalhão e todos os outros que se esgotariam num abraço.

Não chorou nunca. Nem mais. O que sentia era demasiado forte. Cerrou os dentes.

– O nosso problema sempre foram as palavras.

E partiu. Partiram. Quebraram-se os dois.

Actress – Parte Dois

Contudo, não passou de um fogo-fátuo, de um artifício da carne, uma passagem temporal por terras de ninguém e no dia seguinte nem sequer ligaste. Esperava um telefonema teu, sabias? Qualquer coisa do género:

– Obrigado por me descobrires.

Ou um simples:

– Beijos, meu Indiana.

 Não o fizeste. Talvez compreenda. Não gostas que te prendam, muito menos que digam que és uma boneca pincelada. A verdade é que nunca mais consegui mexer em toalhetes desmaquilhantes, nem desmaquilhante daqueles em frasco, nem acetonas – fujo da secção de cosmética nos supermercados. Escondo-me de vestidos com fecho éclair, um zipper qualquer incomoda-me. Gostavas que as memórias se pudessem desmaquilhar, ocultar aquelas cores brilhantes ou fechá-las dentro de algo, sem fecho éclair.

Contudo, passas todos os dias de manhã cedo, ao largo do meu apartamento. Julgo que já me viste há uns dias, mas continuas a correr como se nada fosse, de headphones na cabeça. Não és nova, mas és moderna – quem diria que alguém como tu usaria desses aparelhos e faria jogging? Gostas do novo. Corres por aqui, mas não acenas. Ouvi dizer que encontraste um homem que gosta de ti maquilhada. Mais novo que tu também, não tanto como eu, com vinte e cinco, tu com cinquenta. Gostas deles bem novos, não? E por quê? Fazem-te sentir feliz, mais capacitada, mais realizada? Preenchem-te as falhas, esclarecem-te as dúvidas?

Não és nova, não o esqueço. Continuas a correr ao longo da estrada, sempre ao largo do meu apartamento, por baixo da minha varanda. Vou envelhecendo, ganho rugas e anseio o dia em que me naveguem pela pele novamente.

[Concluído em palavras em aberto]

Actress – Parte Um

Quando saías à noite transformavas-te. Abusavas da maquilhagem e dos acessórios. Disse-te um dia que parecias uma boneca de porcelana, cheia de pinturas. Aborreceste-te, ficaste triste, pensavas que eu adorava. Emudeceste durante uns minutos, fixaste o olhar em mim, pegaste num toalhete desmaquilhante e sussurraste:

– Descobre-me.

E eu parti à descoberta de ti, da tua outra beleza, da natural, daquela com que nasceste, que a genética permitiu que tivesses. Eu e o toalhete desmaquilhante.

Não és nova e fui descobrindo isso à medida que te limpava a base e a sombra do rosto. Toquei-te com a ponta dos dedos em cada ruga, em cada imperfeição e descobri novas rotas, novos caminhos nunca antes navegados. Aborrecem-me peles demasiado novas, sem nada para desvendar, sem marcas de outras passagens, de outras recordações ou toques. E tu não és isso, és tudo. Tens vida na pele, tens mapas de viagens, cicatrizes, pontos: tens um manual da tua história na pele. Escondias tudo com a maquilhagem e não era o mesmo. Tornas-te mais natural assim.

Começaste a despir-te. Viraste-te e pediste que te abrisse o fecho do vestido, como se quisesses que descobrisse outras partes que ninguém desvendou ainda. Prendeste o cabelo num rabo de cavalo e com as mãos frias tacteei o pescoço, baixaste as alças e abri o fecho. Beijo as orelhas. Fetiche talvez. As tuas são perfeitas, singelas, quentes. Saboreio-te os lóbulos e ficas em êxtase. Beijamo-nos de olhos abertos, já reparaste? Gosto de te ver as reacções, as expressões, ver-te as pregas da pele moverem-se em diferentes direcções. Partimos à descoberta de nós, dos interiores escondidos, sentimos o dentro, a profundidade sem precisar de um guia. Afinal, a descoberta aventureira, típica de um Indiana Jones, é a ideal. Caminha-se por rotas não definidas e o prazer, esse é o do desconhecido.

[Continua em palavras de conclusão]

*photo://whywhat

O dia em que a Internet acabou

Clique. Clique. A efectuar ligação. Longos minutos. Efectuar ligação novamente? Clique. Ligação não efectuada.

Filipe, irritado, insistia. Não conseguia ligar-se à Internet. Batia com os nós dos dedos no teclado e a janela insistia também em dizer ligação não efectuada. Tinha-se levantado cedo, com um relatório importante para concluir. Sabia que lhe havia também de ser enviado um e-mail dos clientes espanhóis a marcar a reunião e agora o raio da Internet não funcionava. Malditas redes móveis! Talvez fosse do cabo USB, lia no manual. Mesmo assim nada. Ligação não efectuada. Correu a abrir a gaveta da secretária. On no Blackberry. Consultar mensagens electrónicas. Nada. Tentou novamente já a ficar com azia. Ligação não efectuada. Ligou para o serviço de apoio a clientes e ninguém atendeu do outro lado.

– Foda-se! – grita.

Desesperado, dá murros na mesa. Maldita a hora em que decidiu trabalhar por conta própria! Maldito teletrabalho! O que faria sem Internet? Quando lhe começassem a chover telefonemas de todo o lado, a exigir memorandos, comunicados, esclarecimentos, relatórios e marcações, como faria?

Clique. Clique. Ligação não efectuada. Merda da Internet! Filipe liga a televisão e vê uma notícia de última hora: “Os principais governantes mundiais reunidos em Copenhaga terminaram com as redes informáticas”. Fala-se de um caos tremendo, pessoas gritam pelas ruas, suicídios em massa, hospitais e empresas em declínio. Milhões afectados.

Filipe encolhe os ombros, desliga a televisão, o computador e o PDA, e pela primeira vez em vinte anos adormece sem se preocupar com o futuro.

Sete, Sete – VIII

(…)

A vida de Vitória na faculdade não foi fácil. Pela sua atitude introspectiva e calada, praticamente todos a olhavam de lado. Achavam-na uma pessoa estranha, tendo se identificado como anti-praxe e não fez vida de caloira. Ia a todas as aulas, mesmo que mais ninguém fosse. Tirava apontamentos excelentes e parecia que nada a distraía. Contudo, por dentro vivia isolada: do mundo e de si própria. Tinha poucos amigos, porque poucos se aproximavam dela, porque também ela nunca permitia.

Carlos era um dos poucos que se aproximava. Conhecido como o génio do curso, também sabia o que era ser posto de lado, ser olhado como o esquisitinho, o anormal. Carlos era o estereótipo do geek da faculdade: cabelo bem penteado, mocassins, camisa por dentro das calças, óculos graduados. Mas era bonito: de olhos verdes, levemente moreno. A primeira vez que tentou estabelecer contacto com Vitória foi quando a viu passar de novo os apontamentos de biologia humana:

– Precisas de ajuda? Vejo-te com problemas nessa legenda…

Vitória levantou a cabeça, surpreendida. Em seis meses ninguém lhe havia dirigido a palavra e eis que naquele dia aquele rapaz lhe oferece ajuda. Também nunca tinha sequer reparado nele, mas Vitória sorri como que retribuindo a atenção e aceita o esclarecimento. Até o achou simpático e sociável, acabando por ali ficar, descobrindo pontos em comum, químicas latentes, brilhozinhos nos olhos. A verdade é que nasceu daí uma bela amizade, improvável sim, mas pura.

E mesmo não tendo uma vida fácil na cidade, Vitória ganhou um pouco de mundo, um mundo amigo chamado Carlos.

(Continua)

Tens lume?

Assumo-me um errante, um desses seres que candidamente caminham pelo mundo sem dever a quem, sem destino a percorrer. E assumo errâncias por essas ruas fora, esperando a quem desejar, que me deseje também. A noite é a ideal, cigarros no bolso, mas sem isqueiro que lhe dê lume. E esse é o pretexto de conhecer, de conversar entre copos e baforadas anasaladas:

«Tens lume?»

É incrível como essa forma interrogativa assume ainda mais que isso. Todos lhe percebem o significado, mas não se incomoda. «Tens lume?» é o mesmo que perguntar se quer conversar, se quer divertir-se. É a típica canção do bandido, mas ninguém recusa o lume. Pelo contrário, depressa se passa para o copo, para o quase toque, para o quase beijo. A expressão corporal revela o desejo de se conhecerem mais intimamente e mesmo que a situação não se proporcione fica a vontade de conversar mais, de conhecer melhor.

Na próxima noite tudo recomeçará: a mesma errância, os mesmos cigarros no bolso, o não-isqueiro e a pergunta intencional continua a mesma:

«Tens lume?»

*photo:// Smoke Vortexmandragora-ao-cubo

Can I freeze this moment with you?

Tranco-me em casa como sempre. Perco a alegria no olhar, o sorriso nos lábios. Valem-me os meus discos, o contacto com o som na sua vertente digital, como caixinhas de barulhos, sopros, toques batucados. Não atendo o telemóvel, não festejo os teus anos, não me sinto feliz. E em que espécime egoísta me fui eu tornar? Alterado, imperceptível nos seus actos, niilista, mergulhado na fantasia que nunca antes tive. Navega-me pelos olhos o sorriso perfeito, o que moveu o meu mundo na perfeição de simples poucos dias e nada mais. Estou cego, ofuscado pela dor estúpida que ninguém sente, que ninguém percebe. Obsessão, entendes? Só vejo num sentido, o do fundo e deixo-me lá ficar. Estar em pleno mar alto é assustador e lembra-me o sufoco de ter medo de perder, de ficar ainda mais longe da terra e então não avanço nem nado. Estou perdido entre noites, entre dunas de areia, entre carris. Construo idealizações, castelos de vento, sonhos, esperanças. Nunca fui feito do material dos sonhos, sinto-me louco por o sentir agora. Sou um louco à vista de todos.

Sinto-me viciado em cheiros, sabias? Cabelos também. Sou louco, sim. Compreendo agora a diferença dos pequenos pormenores, da simplicidade de um beijo dado no canto da boca, da melodia das estrelas. Nem são os beijos, os toques quentes ou os gemidos de prazer sussurrado, o sentir que é nosso o interior. Não, nem é isso. É o sorriso, a espontaneidade de uma química envolta num simples cigarro, é o barulho das palavras, do mover de lábios.

Sozinho. Sozinho. Sozinho. Silêncio. Vento. Amor, paixão, miragem?

Angustio-me, sufoco com a dor estúpida que traz o coração até à garganta. Nunca imaginei que fizesse sofrer tanto, doer mais ainda. E que o arrependimento batesse mais acelerado que o coração. Pensas comigo, como eu, com os mesmos anseios, com semelhante voz embargada?

Não quero perder quem me quer bem. Desculpa as palavras ditas, a arrogância, os impropérios que ofendem uma amizade. E és tudo e dói-me porque o Mundo gira ao contrário dos meus sonhos. As rajadas de pensamentos tornados voz chocam tanto, congelam a individualidade, teme-se a perda, pela sinceridade fria do que se ouve. Tens razão.

Mas dói.

Tu também tens razão. E tu.

E contudo esvoaças, mentes-me em sonhos e ilusões.

Dói sim.

I will try. Eu prometo. Mas como se esquece de outra forma, sem fazer o luto, sem criar paranóia doentia, sem me sentir obcecado, sem doer? Diz-me como se mata um sorriso.

Não quero compreensão. Quero silêncio.

E o cheiro do mar fica envolto no beijo. The Last One.

Carruagem 22. Lugar 93.

Sinto-me agora o viajante solitário que tanto anseio. Viajo de comboio, sereno e alheio à paisagem que se multiplica em diferentes tons de verde e ocres. Passam casas, estradas, pontes, túneis e o céu tão pouco azul, tão dúbio, em que não posso depositar confianças, nem certezas. Viajo sozinho e gosto disso. O banco de tecido verde ao meu lado está vazio e com ele viaja também a sensação de não pertencer a nada, a lugar nenhum.

Ouve-se o compasso acertado do comboio (passo agora pela negritude absoluta de um túnel) e conversas, vidas e aroma a naftalina passeiam juntos por estas bandas (luz novamente). Os passageiros não são como eu. Vejo-me unicamente a mim como passageiro da vida. Não tenho pressas, a vida passa-me ao lado, o meu destino é o da paz.

Ouço dois brasileiros a falar no banco ao lado. Irrita-me o açúcar que têm na voz, a forma como lambuzam em mel as palavras que proferem. Têm uma enorme mala preta no meio do corredor e isso incomoda-me. Não tento perceber o que dizem, tudo se assemelha a sons sibilantes e acentuações de vogais. Um deles parece-me homossexual. Não sou homófobo, não sou de estereótipos, contudo é a eles que a minha mente se entrega. Relego para a censura o preconceito e abstraio-me.

Reparo agora que quase todos trazem óculos de sol. Não tem muita luz aqui e até me irrito por não conseguir abrir a cortina verde-couve. Acho que se o fizesse, todos gritariam quais morcegos. (A simples ideia delicia-me).

E observo as vidas que jazem em bancos de napa verde.

Quantas memórias preencherão estes espaços? Quantas vidas não terão passado por aqui? Quantos amores aqui se revelaram? O que pensarão? Que ansiedades os afligirão? De quantos martírios e saudades serão portadores? Quais serão as histórias que contam? Qual será a sua origem, o seu destino? Férias? Trabalho? Simples vida solitária? Muitas perguntas, poucas respostas.

Uns bancos à frente, dorme um jovem, masculino, cabelos longos pretos, piercing no lábio inferior e óculos escuros. Qual a distância que terá percorrido, o que teria para contar?

À medida que acumulo quilómetros e minutos de viagem, o céu torna-se mais cinzento, pouco se importando com os dias possíveis de ócio dos seres que por aqui passam.

Amor – Emoção Cliché

Dizer que te amo seria mais fácil se não caísse em desuso. Nunca fui de modas e tu sabe-lo bem, mas custa-me dizê-lo.

«Amo-te» sabe-me a café da Colômbia, contudo sabe-me a pouco. Não digo que te amo com medo que me olhasses surpreendida. Já não vivemos no mundo do amor, passamos pela era do adoro-te, do gosto-te, do amoro-te. Amor tornou-se cliché. Escreve-se sobre o amor com muito mais frequência, mas confundem-no com paixão.

Oh, saudades dos lenços de namorados, das cartas de amor da época colonial e no entanto tudo se perdeu. Dizer hoje que te amo é invocar uma marca comercial com direitos de autor e o amor tornou-se banal. Dizem que «amo-te» não lhes soa bem, que o português não tem música, que não ressoam sininhos. Proliferam «I love you» e «Je t’aime» sob o mote da caça à musicalidade do amor. E a Língua Portuguesa tem afinal tanto som, tanto paleio, cujo «amo-te» torna-se belamente pronunciado, requerendo movimentos de lábios fortemente entrincheirados e ouve-se então a intensidade do amor, palavra saboreada em português. O amor não precisa que inventem novas palavras, novos pseudónimos, nem que soe a notas musicais. O amor está cansado de ser a emoção cliché. Amar precisa de ser invocado, de ser sentido, de ser entoado com a alma e soar a um «amo-te» tão querido, tão intenso, tão português.

Perto de Ser Tudo

Chega aqui, junta-te a mim. Vem, faz-me adormecer no sono dos justos. Leva-me a conhecer o teu mundo através do perfume que usas. A sério, encosta-te e dá-me a provar as tuas lágrimas, entre beijos e carinhos. Sopra-me amor ao ouvido, sente-me a paixão. És-me luar de agosto, chuva de abril, neve de janeiro. Aconchega-te, o lençol chega para nós. Temos a verdade pousada nas mãos, fala-lhe baixinho para que não voe. Toco-te os contornos da alma e tornamo-nos um só. Chora comigo, se quiseres. Aqueço-te o espírito num só sussurro, daqueles que ambos conhecemos. És-me fogo, és-me gelo. És-me tudo. Ou pelo menos estás perto de o ser.

Sete, Sete – VII

(…)

A Polícia Técnica estava encarregue de examinar as pistas cuidadosamente recolhidas no apartamento da vítima. Tudo foi acomodado e identificado como as normas o exigiam.

O laboratório da polícia ficava bem no centro de uma movimentada avenida. Todos os dias esta era palmilhada por centenas de pessoas, centenas de vidas que ali se cruzavam em velozes corridas para o trabalho. Eram vidas de azáfama, mas ao olharem para aquele edifício moderno, branco e envidraçado, estavam longe de perceber a azáfama vivida pelos que afincadamente tentam trazer resposta às dúvidas de muitos.

Os sacos das provas, numerados, estão em cima da bancada de trabalho. A etiqueta 1A dá-lhe conta de ter sido a primeira a ser recolhida. Olha-a atentamente: uma madeixa de cabelo. Louro, parece-lhe. Retira-a cuidadosamente com pinças.

«Podes analisá-la ao microscópio» diz ao seu ajudante. «Procura vestígios de algum produto estranho e faz a recolha do ADN, se possível. Depois faremos o cruzamento com os dados da base».

«Não acha que poderia pertencer à vítima?»

«Não a vi ainda. Não fui eu a recolher o corpo. Daqui a pouco passo pela sala de medicina legal para pedir mais informações. Trata mas é de verificar o que te pedi.»

O ajudante, apesar de estagiário, era um rapaz capaz e consciente da responsabilidade do seu trabalho. Da madeixa retirou um pequeno fio de cabelo e colocou-o entre uma lâmina e uma lamela. Colocou-a no microscópio, ajustou o parafuso macrométrico e à medida que tentava focar a preparação, movimentava também o micrométrico. A visão microscópica não enganava: o fio de cabelo era fino e pela estrutura revelava-se pertencente a uma cabeleira encaracolada. Olhou novamente, mudou a objectiva para uma de 15x e notou uma ligeira despigmentação. Chamou o chefe:

«Há aqui algo que talvez lhe interesse».

«Interessante. Faz uma análise bioquímica para percebermos a origem da despigmentação».

Um borrifo com um produto e colocar o cabelo numa espécie de estufa, foi o suficiente para que se obtivesse, pelo vapor, a identificação da substância. Bastava agora esperar umas horas para a máquina proceder à sua discriminação em constituintes.

«Analisa as outras provas. Vou ver o que me dizem acerca do cadáver».

(Continua)

Esquecimento

Esquece que te entregaste outrora a um corpo estranho, daqueles sedutores, num fim de tarde ameno, numa qualquer esplanada. Esquece também que o desejaste num piscar de olhos, entre sumos de fruta e saladas de Verão. Esquece os olhos que brilharam quando o viram e que suaste intensamente. Esquece que as mãos se tocaram e que o sorriso cresceu exponencialmente em felicidade flamejante. Esquece a maciez do toque dos lábios e a suavidade do corpo que amaste. Esquece que te perdeste em orgasmos mentais, em prazeres descomedidos e carnais. Esquece que se desejaram abruptamente em lençóis de seda. Esquece que sentiste pela primeira vez o calor de uma alma e um ardor intenso que te subia pelo corpo. Esquece que sucumbiste à carne, que a tiveste tua por ocasiões gloriosas. Esquece o tal corpo, esquece a história, daquelas que contêm amor e ódio.

Sete, Sete – VI

(…)

As dores são naturais a todos. O tempo para a cura é que varia consoante a pessoa. Para Vitória essa cura tardou. Continuou a fotografar e a colocar o fruto desse trabalho online, mas os comentários desejados nunca mais chegaram, o e-mail não continha o remetente pretendido e nem o telemóvel recebia a mensagem ansiada. Vitória continuou a estudar e obteve os louros: a entrada na faculdade de medicina.

Mas Vitória mudou também. Já com dezanove anos, tornou-se amargurada. Sempre fora educada para ser a melhor, mesmo que isso fosse contra a sua vontade. E foi ficando distante e apática, pouco se importando com o mundo à volta.

Fez as malas, levou praticamente tudo. Não tencionava voltar nem aos fins-de-semana. Partiu de comboio e não olhou para trás nem para o que deixara. A cidade parecia-lhe grande demais e isso agradava-lhe.

«Talvez aí me deixem sossegada» repetia para si própria.

Deixou de ser LomoLover e de ter contacto com o Lomo-Shopper. Visitava a sua conta de fotografia e reparava nos comentários simpáticos trocados com uma tal de MissingYou. Foi uma paixoneta virtual que havia desenvolvido e Vitória achou que era a altura certa de esquecer tudo isso. O ruído constante do comboio inebriava-a nesses pensamentos. Um sinal sonoro quebrou-os: havia chegado.

Escolhera aquele apartamento longe da faculdade, por isso mesmo: pela longa distância. Não gostava de ambientes académicos e muito menos tinha o espírito. O facto de ser junto à embaixada lomográfica fora uma benesse, mas era esse mesmo local que acabaria por mudar a sua vida.

Vitória estava agora morta, a cura para a dor finalmente havia chegado. Cabia agora aos inspectores da Polícia saberem quem lha tinha dado.

(Continua)

Carta

A dor grita-me. Dizias que me darias outro ânimo, mas não chegas. Fico sentado no chão térreo, de mãos nos joelhos esfolados e espero-te. Sobrevoo o quente de outros corações e todos me parecem sãos. Tento zelar pela saúde deles, enquanto o meu se despedaça. Está bem, eu espero. As folhas não caem, aquela luz do fim de tarde não chega, nem vejo os tons ocres e dourados.

O que é feito de ti? Espero-te de cachecol ao pescoço. Disseste que virias e cá te espero. Quando chegares, beija-me sussurradamente. Espero acordar no meio de folhas caídas.

Boa noite, Novembro.

Sete, Sete – V

(…)

Era um dia igual a tantos outros. Vitória vivia ainda com os pais. Prestes a terminar o secundário, ansiava atingir o seu objectivo: ter uma nota suficientemente alta para se candidatar a medicina. Ia conseguindo, à custa de muito esforço e uma vida social quase nula. A cabeça embrenhava-se completamente em livros e espairecia na fotografia.

Naquele dia, ligara rapidamente o computador e com a ansiedade evidente nas mãos, leu «Lomo-Shopper está online».

«É hoje» pensou. De facto, o encontro estava marcado para aquele mesmo dia. Estava nervosa. Não o conhecia, mas inspirava-lhe confiança, era divertido, diferente dos outros da sua idade e principalmente era também amante de lomografia.

Vestiu-se num compasso ansioso e trémulo. Esteve horas em frente ao armário, a fazer combinações de estilos e cores. Acabou por optar pelo simples vestido verde. Umas gotas de perfume e tudo perfeito. Olhou-se ao espelho e mirou embatucada o seu aspecto. Achava-se bonita. E enquanto o fazia, o tempo galopava até à hora marcada. Aliás, 25 minutos antes, lá estava ela, na esplanada da Baixa. Normalmente, pelas normas sociais, seriam os cavalheiros a esperar, mas Vitória negava-as, Ali estava, Holga pousada na mesa junto com o café e as pernas cruzadas.

15 horas. Vitória olhou para o relógio e pensou que ele estaria prestes a chegar.

15 horas e 15 minutos. Segundo café e uma água com gás e nem vestígio do amigo virtual.

15 horas e meia. Ouve um sinal sonoro, abre a mala e «Mensagem recebida». A medo, lê-a «Desculpa. Surgiu um imprevisto. Fica para a próxima. Lomo-Shopper». Não tem coragem para responder, mas o coração rasteja pela Baixa. Gostaria de o ter conhecido, aliás tantas conversas tiveram já, entre impressões acerca de lentes e rolos, fotografias enviadas e só faltava mesmo um tête-à-tête. Ficou desiludida.

16 horas. Liga o computador: «Lomo-Shopper está offline». Vê também a sua conta  de fotografia: «Zero comentários». E o que a afligia era saber por quanto tempo duraria esta ausência incerta, se até às dezassete, dezoito horas ou por longos meses de dor.

(Continua)

Ser-me

E é poder ver-te assim como palavras soltas em folhas brancas virgens e respirar o sabor do imaculado. Tactear em vazios sonoros de paixões recicladas e ordenar o simples até ao seu ponto de fusão. E basta seres-me única, número subtraído à razão de mim sobre nós. Como tintas d’água escorrem-me sentimentos pelo nada de alguém. Em caminhos de amplas bifurcações teres-me teu é sentir segurança e que tudo se desenha em contornos de papel pardo.

E é unicamente viveres-me na ponta dos dedos e sermos luz na penumbra de nós.

O Homem que vendia silêncio

Não sou um homem como os outros que conheceste e tu sabe-lo bem. Sou solitário, gosto de o ser. Percebeste que não sou dado a muitos afectos, mas que a privacidade revela-me, desvenda-me o silêncio e leva-me a amar-te como nunca outro o fez. Sei cada local do teu corpo que te provoca arrepios e tu ris, satisfeita por me teres ali, simplesmente junto a ti.

Afago-te os cabelos com a suavidade própria de umas mãos apaixonadas. Os teus cabelos passeiam-me o corpo. Somos um só, construímos juntos o mais digno sentimento de pertença, de um ser uno. Respiramos num só fôlego e vamos absorvendo possessões, sabores e sons. Gosto de te ouvir. Gosto de estar juntinho enquanto dormes, perceber-te as motivações, pressentir a tua pureza.

Toco-te melodias ao piano, de cigarro no canto da boca e coração na ponta dos dedos. Chamas-me “bichinho”. Sussurro-te canções ao ouvido e sorris-me com todo aquele facilitismo natural. Perguntas-me se não o sei fazer por menos, deixo os dedos deslizarem em notas salteadas e entendes que o mundo é o dos tudos e dos muitos. Tudo me gira na ponta das mãos, faço melodias ao olhar-te e enquanto toca, ouço chamares-me “bichinho” no profundo silêncio.