Amor – Emoção Cliché

Dizer que te amo seria mais fácil se não caísse em desuso. Nunca fui de modas e tu sabe-lo bem, mas custa-me dizê-lo.

«Amo-te» sabe-me a café da Colômbia, contudo sabe-me a pouco. Não digo que te amo com medo que me olhasses surpreendida. Já não vivemos no mundo do amor, passamos pela era do adoro-te, do gosto-te, do amoro-te. Amor tornou-se cliché. Escreve-se sobre o amor com muito mais frequência, mas confundem-no com paixão.

Oh, saudades dos lenços de namorados, das cartas de amor da época colonial e no entanto tudo se perdeu. Dizer hoje que te amo é invocar uma marca comercial com direitos de autor e o amor tornou-se banal. Dizem que «amo-te» não lhes soa bem, que o português não tem música, que não ressoam sininhos. Proliferam «I love you» e «Je t’aime» sob o mote da caça à musicalidade do amor. E a Língua Portuguesa tem afinal tanto som, tanto paleio, cujo «amo-te» torna-se belamente pronunciado, requerendo movimentos de lábios fortemente entrincheirados e ouve-se então a intensidade do amor, palavra saboreada em português. O amor não precisa que inventem novas palavras, novos pseudónimos, nem que soe a notas musicais. O amor está cansado de ser a emoção cliché. Amar precisa de ser invocado, de ser sentido, de ser entoado com a alma e soar a um «amo-te» tão querido, tão intenso, tão português.

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Comentários

  • Rita  On Agosto 11, 2007 at 10:24 pm

    Concordo plenamente com tudo o que escreveste, mas sabes que muitas vezes o «amo-te» chega mesmo a ser confundido com o «adoro-te», sim, tornou-se banal, e jamais direi que o Português não tem aquela magia envolvente… Porque, afinal, o ‘I love You’ aparece em qualquer música estrangeira, mas o «amo-te» não… O próprio Português arrasta consigo a alma necessáriaao momento ^^

    E o que importa é mesmo o que sentes ao pronunciares… O «amo-te» pode fazer estremecer alguém quando há aquelas emoções inexplicáveis, calando tudo, ou então, fazer surgir a expressão “Oh, tão querido! Eu também te amo”… -.-

    Beijo*

  • Tigui  On Agosto 12, 2007 at 8:03 am

    Rita O português tem muita música. O nosso aparelho vocal, em termos evolutivos, é dos mais completos, porque é o único que consegue pronunciar diversos timbres, ao contrário das outras línguas. No entanto o português tem vindo a perder a musicalidade, já que se tem vindo a perder o sotaque e cada pronunciamos mais as ditongos de forma aberta. Há muitos locais do país em que já não existe essa musicalidade. Mas o amo-te precisa de uma “ginástica” muscular para ser proferido. Tenta proferir calmamente “amo-te”, articulando bem os sons e vê bem a quantidade de movimentos que fazes.

    Exacto, por isso é que concluo com isso. O amor, o “amo-te” precisam de ser sentidos.

    Beijos. (Vou de férias uma semana para a Figueira da Foz.)
    Até breve*

  • Rita  On Agosto 12, 2007 at 9:30 am

    Tá bem, querido 😀
    Mas volta logo ^^

    Está-me a custar a crer que aguentas uma semanita sem vir ver o maravilhoso blog :$

  • um alguém  On Agosto 12, 2007 at 2:47 pm

    “o amor tornou-se banal”, como eu concordo contigo. já ninguém vê o amor em lado nenhum mas usa essa palavra por tudo e por nada.
    um beijinho,

  • Luisa Oliveira  On Agosto 13, 2007 at 9:59 pm

    E se a pessoa fechar os ouvidos e a musicalidade se perder no ar?

    Voltei ^^

    Vou precisar de tempo para ler e sentir tudo o que aqui está. Mas prometo que o faço, tu sabes que sim =)

  • Tigui  On Agosto 15, 2007 at 11:24 am

    Um alguém:Tens razão. Há coisas que vão perdendo o significado.

    Luísa: A musicalidade da palavra “amo-te” nunca se perde no ar, quanto muito ressoa nos montes e faz eco, repetindo.se eternamente.
    Sim, sei que sim. Muito obrigada. Bem vinda de volta. Mas agora sou eu que estou de férias. Regresso para a semana com novos textos.:)

  • Minhocas na Maçã  On Agosto 17, 2007 at 2:30 am

    uau… indiscritível!

  • Minhocas na Maçã  On Agosto 26, 2007 at 4:41 pm

    Este teu texto fez-me lembrar o filme Prestige. Não sei já o viste ou não, mas havia uma mulher que sabia distinguir perfeitamente quando o amo-te era sincero e nao era. Se já o viste já sabes porquê. Gostei particularmente da altura em que ela perguntou: «Do you love me?» E ele respondeu: «Not today.» Porque não valia a pena dize-lo, ela saberia que era falso.

  • Tigui  On Agosto 26, 2007 at 6:00 pm

    Minhocas na Maçã: Confesso-te que nunca vi o filme, mas achei a ideia lindíssima. Fico agradecido e feliz por gostares tanto e comparares com um filme que gostas.

  • clique aqui  On Julho 9, 2014 at 11:04 am

    When someone writes an post he/she keeps the image of a user in his/her mind that how
    a user can understand it. Therefore that’s why this paragraph is outstdanding.
    Thanks!

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