Monthly Archives: Setembro 2007

My Lovely Mirror – Part Two

Ela sentia a sua presença e desejava-o com todas as forças. Sussurrou: «Tens-me» e ele surgiu a medo, do fundo das incertezas e apresentava o Amor na íris, como expressão profunda. Deitou-se a seu lado, ela inclinou-se sobre ele e sentiram o respirar e o cheiro. Não era perfume, não. Era a certeza que se queriam e se desejavam. Inebriado pelo aroma, entreabriu os lábios e beijou-a suavemente de uma forma única e íntima. Ela mordeu-lhe o lábio, ele sorveu-lhe o mesmo e brincaram com as línguas. Os corpos tremiam em êxtase delirante e estavam seguros de nunca terem sentido o mesmo por outro alguém. Até o desejo era mais intenso e diferente, isto sim era estar apaixonado verdadeiramente. Beijou-lhe o pescoço, sugou-lhe o lóbulo da orelha e arrepiavam-se de prazer. A mão descia-lhe pelas costas e sentia-se incontrolável. Ela pegou na dele e levou-o à descoberta. Juntos amaram-se e cada vez conseguiam se controlar menos.

Os beijos esgotaram-se num abraço (im)perfeito.

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My Lovely Mirror – Part One

Todas as manhãs ele acordava mais cedo que os outros. Saía do conforto dos lençóis quentes da noite e em passos suaves e surdos, abeirava-se da cama dela e ficava a admirar-lhe os traços, na esperança que um deles lhe falasse em línguas sepultadas e lhe explicasse a razão de sentir tanto amor. Passava horas nisto, no observar, no explorar com os olhos, no beijar com a mente, até que um dia não resiste e, com as pontas dos dedos, lhe toca na face. Sentiu pela primeira vez a textura do Amor: suave, imperfeita, relevante. Os dedos passeiam pelo seu corpo desnudo e mesmo no sono, ela apresenta um sorriso doce. Tem um ar querido, uma suavidade perceptível na voz meiga e carinhosa.

Toca-lhe ao de leve no nariz, aquele que tanto carinho lhe desperta. Pousa-lhe as mãos no rosto como quem segura o tesouro mais precioso de toda a Terra e sonha com tudo o que viveriam juntos. Repara que ela é tudo o que ele sempre desejou: a imperfeição perfeita.

Ela começa a despertar do sono e ele esconde-se. Esconde-se ao fundo da cama e ouve-lhe o espreguiçar, o sussurrar, o respirar e cada vez mais tem a certeza que a deseja.

[Continua à medida que se vive o sonho]

Butterfly

Voa intermitente

À procura de certezas

Na busca contínua

Do sentido da vida.

 

Voa agora comigo

Procura respostas em mim

Bebe-me as palavras

Num bater de asas.

 

Voa imponente

No sentido exponencial

Esperando que me una a ti

Voa borboleta, voa.

Estrangeirismos

Eu em on, tu em off. Eu em off, tu em on e o nosso amor em standby continuamente. Todos os sentimentos bons se foram – game over – fim do nosso jogo do gato e rato, fim do desejo que nos unia. As palavras que dizias, eram como uma cover de sentimentos vividos com outros que não eu. Vangloriavas-te do nosso amor de t-shirt ao peito, contudo era tudo fogo de um artifício teu, daqueles que só tu sabias montar.

Todas as manhãs encontro as tuas mentiras no meio do croissant, no Ice Tea, durante a vérnissage e o coffee break. Ouço-as em repeat mode para não em esquecer de não cair mais nas ciladas do amor. O que vivemos foi característico, de um design único, incomparável, com SMS trocadas. O nosso amor foi um self-service, um serviço de entregas express, contudo sem nunca ser standard, igual a nada. Escolher um momento do menu das sensações que me tivesse tocado é impossível.

Agora passeio no shopping e vejo-te na pizza e na sandwich do almoço. És a minha essência, o meu ser, a minha motherboard, contudo chego à conclusão que não foste mais que um download ilegal.

Sete, Sete – IX

(…)

O laboratório da Polícia Científica vivia um rebuliço agora. Volvidas algumas horas, o jovem estagiário tremia com a responsabilidade de ser ele a revelar ao chefe os resultados das análises bioquímicas ao fio de cabelo.

– Chefe? – chamou em ligeira dúvida.

Não obteve resposta. «Talvez ainda esteja no departamento de medicina legal», medita.

Olha agora para o papel que o computador lhe devolveu. Análise Bioquímica – Prova 1A/Processo 33870. Tenta observar a lista dos constituintes que poderiam ter provocado a despigmentação do cabelo, em busca de algo específico. Passa com o dedo pela lista. De repente, estaca: 75%. Uma dose elevada.

Desabafa em alta voz:

– É mesmo isto! – Bate com a mão na cabeça – Como é que não pensei nisto antes? Só podia ser. Que estúpido…

Insulta-se por não se ter lembrado do óbvio. Ri-se pelo facto de não se lembrarem de algo simples. Espera agora a chegada do chefe, enquanto analisa a segunda prova. Dentro do saquinho identificado como prova 1B, está contido um frasco de plástico branco. Analisa-o e vê o nome do paciente a que era destinado: Vitória Lima. Médico que prescreveu o medicamento: Paulo Meireles. «Mirtazapina», lê no rótulo. Imediatamente percebe para que foi prescrito: Vitória estava numa situação de depressão profunda. O curso de medicina forense também havia ensinado a este estagiário que mirtazapina é o princípio activo do Prozac, um dos antidepressivos mais vendidos em todo o mundo.

O chefe da Polícia Científica e responsável por este processo-crime está, ao mesmo tempo que isto acontece, na morgue. Fala com o médico legal, observa a vítima e ouve as declarações acerca do óbito e a única certeza que tem é que este caso está longe de ter um fim à vista.

(Continua)

O Outro Lado do Branco

Há um prado, tipo pasto, perto da cidade. É incomum, mas ele lá está. Não é verde, que verde já pouco existe desde a seca, mas é amarelado, um montão de cardos, tufos de ervas, abrolhos e tocas crivadas de sardões e afins. Não é bonito, é a parte marginal da cidade, a que ninguém conta, a que não se revela.

Os pretos lá chegam por meio de cargueiros que passam pelo rio. Vêm da Somália, Etiópia, São Tomé, com esperança pela frente, miséria por trás. Chegam sem pertences, sem forças, mas com maleitas, hematomas, eczemas e escorbuto. Pobres de espírito, fracos de corpo. No terreno baldio, montam barracas e convivem com os ciganos. Junto ao espaço ouve-se o de sempre, os gritos das crianças que com a cara e tudo o resto por lavar, correm descalços. Os seus maiores companheiros são o tétano e a insalubridade, os pregos com as pontas voltadas para cima e os esgotos dos curtumes a olhos vistos, derramando doenças.

Não são maus os ciganos, são de costumes e tradições. Vivem ali porque gostam. Convivem entre antenas de televisão e canos de esgotos que vêm da parte rica da cidade, mas vive-se também entre os cantares, o flamenco espanhol e o folclore romeno, entre as violas, as guitarras e as pandeiretas. São alegres, mais que os pretos, mas vivem ambos na parte reles da cidade. As barracas aparentam ser brancas também, mas a única cal que as acompanha está a cair em pedaços de velha e a parte mais branca é ilusória, a do sol reflectido nas chapas de zinco.

In Repeat

Sinto a batida digital, o som electrónico que me faz vibrar. Do phone direito atravessa-me pelo corpo um choque eléctrico até ao braço esquerdo. Arrepia-me a sonoridade. Nunca foi antes inventada e é esta novidade que transmite o delírio dos sentidos. Uma invenção de sons cósmicos, únicos, com uma voz ímpar temperada com sussurros, com segundos planos de vozes, cintilares digitais. É o som que move multidões e que as faz ouvir e cantar in repeat. Sente-se a batida nos dedos e em todas as terminações nervosas. Sinto-me electrónico, computorizado. Sinto-me in repeat.

*photo://katibear

Fingimento a Dois

Não durou muito até se colarem novamente os fragmentos. A força que os unia era intensa demais para conseguirem suportar sozinhos. Tinham-se apaixonado por dentro e isso intensificava a paixão.

– Fica comigo, meu amor.

– Por ti sinto-me capaz de cometer as maiores loucuras.

Suspiraram em uníssono e libertam uns ais de paixão. Avizinham-se tempos difíceis, períodos turbulentos, longas distâncias e mais fingimentos, mas tudo isso lhes parecia superável. Decidiram esperar para ver se os olhos correspondiam ao coração. Continuaram com as palavras de amor por longos períodos.

– Adoro-te.

– Diz-me qual é o teu segredo. Explica-me. Vá lá. O que me faz estar tão vidrado em ti? O que me faz querer-te intensamente, querer tocar esses lábios, saboreá-los, poder beijar a tua pele, amar-te? Tanto, tanto…

– Qual é o teu, que me faz querer cometer loucuras contigo e arriscar tudo?

– O meu segredo é desejar-te.

– O meu é querer-te assim tanto.

Suspiram os dois novamente. O que os une dificilmente poderá ser escondido, porque a expressão os denuncia. Um sorriso estúpido está-lhe estampado no rosto, daqueles tolos de tão embevecido que está. Já não dormem, já não pensam senão um no outro. Poder-se-á estar perdido de amores? Só eles o sabem, só eles o sentem. Durante momentos sentem-se inseguros, incapacitados para conduzirem esta paixão a bom porto, mas no minuto seguinte sentem-se tão seguros e convictos de que o amor vence barreiras.

Esperam o leve tocar de lábios, um beijo de raspão, o beijo profundo, o beijo trapalhão. Ele finge agora com ela, mas não fingirão por muito tempo. Finge-se perante uns, apregoa-se a sete ventos a outros. Vivem ambiguidades, vivem incertezas, contradições, obstáculos, mas vivem também a vibração, o desejo, o anseio. Vivem um dia de cada vez, deixam-se levar pelo sentimento bonito, sem pressas ou precipitações.

E cada noite que passa, o sentimento cresce como que encantado pelo amor da Lua.