Monthly Archives: Outubro 2007

Filme

Pergunto-me todos os dias como é possível amar tanto e com tanta intensidade alguém. Julgava eu que percebia de sentimentos e afinal era tão desconhecedor e leigo no assunto. Há coisas que só se conhecem quando se sentem e quando se vivem. O Amor é uma delas. O Amor não é Paixão, o Amor não é Desejo, o Amor não é só Carne; o Amor é Alma, o Amor é Sentimento, o Amor é Maduro, o Amor é Completo, o Amor és Tu, o Amor somos Nós.
Nunca ninguém te amou como eu, disso tenho a certeza. Posso dizer que sou o teu Homem em tudo e isso deixa-me feliz, faz-me sentir seguro e convicto, como nunca antes estive. Gosto de ser o teu menino, de ser o (im)perfeito, de ser só teu, de sermos um só. Poucos podem se orgulhar de ter uma relação como a nossa, sem pudores, de mente aberta, madura. Falamos de tudo, porque antes de sermos namorados somos acima de tudo amigos. Os nossos problemas, os nossos segredos, dúvidas e passado não estão escondidos, pelo contrário, são continuamente confessados e admitidos. Não somos perfeitos, é verdade. Mas dentro das nossas (im)perfeições, somos absolutamente ideais um para o outro. Temos sorte, muita sorte. Tudo porque maus caminhos e experiências menos boas conduziram-nos um ao outro na altura certa, no momento ideal, em que temos experiência e madureza suficiente para vivermos e experienciarmos este nosso Amor. Orgulho-me de nós. Apetece-me ser egoísta ao ponto de pensar que mais ninguém viveu aquilo pelo qual nós estamos a passar. Quando alguém nos pergunta que tipo de relação gostávamos de ter, as pessoas comentam que isso só existe nos filmes. A verdade é que vivemos num filme: o nosso filme.
Comovo-me quando penso nisto tudo. Conhecemo-nos da forma mais estranha possível, passámos pela fase da negação, dos telefonemas suspirados, das reacções impossíveis, do cruzar de braços, do choro, da apatia, do desprezo, do desmoronar de relações mais antigas e no fim disto tudo, quando a poeira assentou, olhámos ao redor e estava tudo destruído pelo chão, permanecemos nós, intactos, em lados opostos da estrada. Custou tomar uma decisão e lamento termos sofrido tanto. Existe uma áurea de dor em redor daquilo que foi escrito por nós durante essa fase, transmite agonia e desespero num ponto extremo como nunca antes senti. Arrepio-me quando me recordo, mas gosto de ler, gosto de me lembrar. Quando revejo aquilo por que passámos, ganho cada vez mais certezas de não te querer perder, de nunca mais ter medo de arriscar, de sempre me ir esforçar por lutar pelo mais importante, de nunca desistir.
Tive medo, muito medo. Abdicámos dos nossos ideais e das nossas teorias um pelo outro e isso não foi fácil. Mudámos o mundo um do outro por completa, deitando por terra todas as convicções anteriores. Deleguei todas minhas responsabilidades para outro, mas tu não querias isso. Querias-me a mim, querias a pessoa que te disse que o tinhas e a quem disseste que te tinha, querias aquele que estava disposto a fazer o impensável por ti, querias aquele que te prometeu tudo. E aí eu arrisquei, aí larguei os medos e parti. Parti numa daquelas viagens longas que não são fáceis, daquelas que nos consomem de ansiedade durante duas horas e meia e, no fim, quando finalmente te vi, tive a certeza que eras a mulher que queria para sempre.
A distância é grande, mas diferentemente do que tínhamos julgado, não é assim tão impossível. Custa, sim. Um dia equivale a uma semana e temos dias de desespero, dias em que nos sentimos sôfregos pela voz um do outro. Dias em que somos capazes de desesperar ao telefone, de bater com a cabeça nas paredes, de gritar. Temos outros em que nos limitamos a ouvir o silêncio e a respiração ao telefone. E temos ainda outros em que tentamos ser positivos.
Pensamos muito no Futuro. Talvez demasiado. Mas a verdade é que parece inevitável não amar-te o resto dos meus dias. Nunca julguei em tão pouco tempo, amar tanto assim alguém como tu.
Os nossos amigos ficam fascinados com a nossa relação. Mesmo os mais velhos não conseguem ter tantas certezas, nem nunca se sentem tão seguros como nós. O nosso Amor é diferente, todos o notam. Baseamos todo a nossa relação no Amor, na Confiança, na Compreensão e com isso tudo se consegue, tudo se suporta. Palpito que estejas já a chorar. Até eu estou comovido, meu amor. Comovido por tudo o que este nosso Amor conseguiu fazer, por tudo o que nós passámos.
Que podemos nós chamar a isto? Química? É o mais plausível; no entanto é uma química sem reagentes, sem produtos de reacção, sem equações complicadas: somos simplesmente Eu e Tu. Sempre te disse que não gostava de perfeição e que procurava pequenas imperfeições que dessem personalidade à pessoa e tu tens muito carácter. A partir do momento em que nos apercebemos que a paixão era demasiado grande para se conter começaram as dificuldades, os desafios e convenhamos que não foi fácil. Contudo, julgo que deu chama ao nosso Amor: não esperámos que as coisas nos caíssem no colo, tivemos de lutar, correr atrás daquilo que realmente dava sentido à nossa vida.
O nosso primeiro encontro não foi simples também: é difícil esconder aquilo que se sente, das pessoas de quem gostamos. Mais difícil ainda é não olhar nos olhos, não falar, não comentar com medo que as palavras nos denunciem. O elevador sempre foi o nosso melhor amigo e aquele primeiro beijo à socapa, foi menos trapalhão que imaginámos.
Perdemos a amizade de outras pessoas, talvez. Mas se as coisas forem realmente fortes, elas hão de tornar a reacender, a reviver, a firmar-se. A amizade compreende e ultrapassa tudo, mas nunca vamos deixar de viver o nosso Amor por ninguém. Simplesmente porque penso que se não estivesse contigo, não poderia estar com mais ninguém, já que és tu a razão do meu viver. Já caímos em clichés, já não sabemos o que dizer, mas temos a certeza que as palavras não comportam o nosso sentimento, logo que nós que sempre fomos bons palavras.
Muita coisa poderia afirmar, a partir do momento em que ouço alguém dizer que amores como estes só acontecem nos contos de fadas. Mas eu posso-me orgulhar de dizer: “Sim, eu vivo num conto de fadas. Um conto de fadas real. Um filme. O nosso filme”.
Já perdi as palavras porque não consigo fazer entender aos outros como nos amamos e tudo o que já passámos e vivemos. Acima de tudo, basta-lhes o nosso olhar e esse olhar transmite-lhes a magia da película de um filme, do mais belo filme de Amor.

O amor morava na porta ao lado

Moravas na porta ao lado da minha, neste prédio sarrento e decaído, mas acho que nunca te tinha visto. Não, a vizinhança aqui não é muito amistosa e convenhamos que eu também não saio muito do sofá, além do frigorífico e quarto de banho. Fazia isso porque pouco mais me agradava lá fora, farto da avareza, ganância e ódio. Não mudaria de hábitos se não encontrasse sentido fora deste espaço, não enquanto não encontrasse alguém com quem partilhar a vida.
Moravas na porta ao lado e nunca tinha falado contigo, nunca a campainha tinha tocado, nunca me pediste açúcar num dia de aperto. E eu nunca procurei conhecer o que não tinha visto, nem pensei alargar-me nos contactos ou saber se eras vizinho ou vizinha. Não pensei sequer que podias ser tu quando te vi pela primeira vez subir estas escadas abatidas pelas vidas que as pisaram. Dificilmente imaginei que alguém assim pudesse morar na solidão de um estúdio, sem espaço para compartilhar a vida com um dos muitos admiradores que deves ter. Tampouco pensei que uma mulher tão bonita carregasse sacos de compras, de supermercados baratos, com pacotes de batatas fritas e caixas de gelado de caramelo. Não suspeitei sequer que na porta ao lado morasse alguém que via as mesmas reposições de britcom que eu ou que partilhasse a mesma afeição pelo divã. Num prédio sarrento e decaído não julguei que existissem mulheres bem parecidas, que me dessem os bons dias e me fizessem abrir a janela para sentir o luar todas as noites.
Nunca imaginei que pudesse encontrar alguém com quem compartilhar a vida e o sofá, muito menos aqui.
(Queres mais gelado?)
Não, nunca pensei em desligar a televisão e mudar a disposição do sofá. Sempre pensei que nunca fosse encontrar o verdadeiro amor, nunca pensei em partilhar batatas fritas com a vizinha.
(Beija-me)
Afinal senti o amor, afinal ele morava já aqui na porta ao lado.

Pós-taquicardia

Sinto-me a fraquejar de novo, com a mão trémula pela ansiedade que ataca de mansinho e destrói a construção da serenidade que necessito. Sempre a mesma maldição: a fraqueza. Faço-me fraco por consequência do mundo que me rodeia, de todo o peso que suporto nos ombros, de tudo o que carrego sem me poder desfazer facilmente. Porque há um dilema do qual sou portador e é sabido que esses tais carregam, que esses tais doem. E é a estupidez que me faz verter as lágrimas de ansiedade, de necessidade, dependência e saudade. Ainda não consigo vencer essa barreira que existe entre nós, a distância que se impõe e que nos faz perder dias de vivências, rotinas e hábitos. Fraquejo porque não tenho alcance de vencer os obstáculos e as saudades aumentam cada dia à media que o sentimento cresce de rompante. Estou assim porque não consigo suportar esta ausência, porque não dá mais para passar uma hora sem ti, sem te sentir e te tocar. Fraquejo porque nunca amei tanto assim alguém e porque deve ser doença querer tanto. Ponho a mão no peito porque ele exagera no batimento, porque é cá dentro que te guardo, porque a falta de ti também o aperta. Sufoco pela falta da tua presença, da tua cabeça no meu peito, dos teus braços no meu corpo e dos teus beijos. Sinto a tua falta em dilatações de vasos sanguíneos, em exagerados batimentos cardíacos porque te quero sempre junto a mim.

Sexo

Vi-te de novo passados tantos anos, sentado numa cadeira metálica, numa esplanada de segunda categoria. Pegavas a chávena com delicadeza demais para um homem e contudo nunca perdias o charme. Sorvias o café em golos pequenos e olhavas para o relógio em intervalos de dez minutos, parecia-me que esperavas alguém. Uma mulher talvez. Passaram-se já dez anos. Terminou tudo de uma forma abrupta, mas já não me recordo porquê. Talvez seja esquecimento selectivo de quem sobreviveu estes dez anos em solidões frequentes e esporádicas escapadelas nocturnas. Pareces-me bem, agora vestes fato, não o fazias antes. Bebeste o café e partiste, afoito, em direcção à movimentada urbe.
Vejo-te agora de novo. Estou a entrar num edifício, tu estás a sair, de pasta na mão e telemóvel na outra, estacas e sorris.
– Sofia…
Eu tremo, recordaste-te do meu nome passado tanto tempo e reconheceste-me inesperadamente numa cidade nova. Não me lembro do que se passou entretanto, mas sinto-te ofegante em cima do meu pescoço. Beijas-me o pescoço a uma velocidade estonteante, conduzes-me rapidamente à loucura e partes para a redescoberta do meu corpo. Observo que estás grisalho, dez anos em cima dão-te um ar maduro. Cheiras à mesma colónia de há dez anos, mas a forma de tocar é outra, mais completa e vibrante. E eu, dez anos depois, continuo a ser uma miúda ao pé de ti e tu o homem mais velho e experiente. Mordes-me o pescoço, tiras-me o soutien com a subtileza de um bom amante e deixas a boca deliciar-se nos meus peitos. Eu toco-te nas rugas que o tempo te ditou em sussurros de anos, rugas que contam as histórias de quantas mulheres tiveste e quantas amaste de coração pleno. Os teus dedos invadem-me em ritmos constantes e eu deixo-me levar pelo prazer que me dás, contra uma secretária, num qualquer canto escuro. Finco as unhas em ti, como sinal de desejo. O tempo tornou-te melhor e entras dentro de mim, com uma entrega nunca antes sentida. O meu corpo está a latejar e as pernas tremem pela fúria com que me invades de novo. Abafo os gemidos no teu pescoço e quase desmaio nos teus braços.
Ajeitas a gravata, ajeito o cabelo e seguimos o nosso caminho oposto, apenas com um
– Adeus Pedro
pelo meio e um sorriso nos lábios. Dez anos de ausência compensados por apenas sexo.
Nunca mais te vi de novo. Foi apenas sexo.

Reserva Para Dois

Come-me em doses unitárias, em travessas da Vista Alegre, em tabuleiros de inox, como se fosse eu o prato do dia, a sugestão do chefe, o conceito gourmet da semana. Besunta-me em marinadas, em vinhas d’alho, em preparados de véspera e deixa-me a libertar sucos aromáticos, cheios de especiarias e condimentos de moinho manual. Trincha-me com desejo e afirmação de um bom garfo, em lascas e fatias de gula. Reduz-me em papas, purés, preparados e caldos, como se o sexo fosse uma acção culinária. Rega-me com licor e azeite virgem, como se eu fosse a mais fina combinação de ingredientes puros. Bate-me em castelo, peneira-me, raspa-me em quantidades quanto baste. Divide-me por recipientes medidores, em taças de cloreto de polivinilo e coa-me de desejos ardentes e sensuais. Sacia-te em partes de mim, no meu tutano, no meu sumo sem corantes e embebeda-te em fluidos meus. Bochecha-me em golos pequenos, por copos de balão e cospe-me em doses de prazer exacerbado. Arrota-me de satisfação e palita-me em jeito de saciedade. Digere-me em horas nocturnas e liberta-te de mim em excreções de erotismo, como se fosse eu a mais gulosa refeição alguma vez elaborada.

Homem-Mecânico

Fizeste de novo. E eu por trás do balcão, sozinho, a engolir à pressa o bolo de arroz, de véspera e o café pingado, a escaldar. Sou homem de poucos tratos e o nosso não resultou. Entre cada pedido teu, perdia-me em papéis de IRS e pilhas de declarações por assinar e por trás de cada uma delas surgias tu de ombros largos e peito subido. Gritavas-me
– Ama-me
e eu limitava-me a sugar cada expressão tua, cada músculo da face, cada esgar de boca, mas não, não te amava. Não te amava porque não me era permitido partilhar partes de mim. Cá dentro não funciono eu, isto não vive, dentro de mim trabalha o homem-mecânico. Carimbo, papel, papel, carimbo. Caneta, assinar. Telefone, trabalho. Isto todos os dias. Família não. Não me era dada permissão para isso, não tenho tempo para ser homem, sem o mecânico, ser homem apenas, ser o teu homem e não correr. Correr não, mas ficar sim. Ficar aqui por trás do balcão, sem pressas e esperar que voltes do fundo das minhas lembranças, com a certeza que conseguias desarmar cada mecanismo meu, como se de um relógio se tratasse. Queria deixar de ser um pedaço de rotina, queria ser gente, ter vida, tempo para te ter, tempo para nós. Mas não, não me deixam, não deixam ao homem-mecânico deixar de o ser. Enchem-no de papel, papel de carta, papel de escritório, papel prensado e é por meio deles que perde o seu papel de pessoa, o direito de ser alguém, de não engolir à pressa, de viver pelo menos.
Fizeste de novo. Cansaste-te de esperar em casa, na imaginária, a nossa, a que sonhaste e não ganhaste, a que não consegui ter, a que não me foi permitida dividir contigo. Fugiste por entre a papelada que me rodeia. Fizeste o mesmo. Tudo porque não expulso o homem-mecânico que habita em mim. Tudo porque tudo em mim é papel, tudo em mim é mecânico, é mecanismo, é engenho, roldana, engrenagem. E fico-me por aqui, não luto, não me lembro que és gente, que és mulher, sem o mecânico, sem o rotineiro e não me queres robotizado, ligado à corrente alternada e pouco terra-à-terra.
Fizeste de novo. Desliga-me, corta-me os fios, mata a electricidade à facada, dá pontapés nos fusíveis, tira-me o mecanismo, despede o mecânico, deixa-me o homem.

Andanças

Vibra comigo, sente a minha felicidade, bebé. Oh amor, não tenhas vergonha, vem dançar comigo esta noite. Sente a música, não ouves? Vá, dá-me a mão e vem até à pista. Solta-te, assim não que pareces um boneco de pano! Mais calmo, sente o ritmo, agora balança as ancas. Sim, eu sei que não és a Shakira, mas podes fazer um esforço. Não me digas que não queres, sabes bem como sempre gostei de dançar. Tens vergonha o quê? Fala menos e balança-te mais. Ai assim não, tira a mão daí, olha as pessoas, tem algum pudor, para isso tens tu esperteza. Não me agarres, isto não se dança assim, menos toque, mais balanço por favor. Não, não está toda a gente a olhar para nós, isso é mania tua. Liberta-te dos medos, és um homem ou um rato? Não estou nada a envergonhar-te, já estava na altura de aprenderes a dançar. Não gostas o quê? Cala-te mas é e mexe-te vá, estás a ir bem agora. Isso mesmo, muito bem, agora uma volta e recebe-me nos teus braços. Vês? Conseguiste! Sim, está tudo a aplaudir, todos adoraram. Ai olha como te moves agora, tão lindo meu principezinho.
Está-te a doer o coração? O coração não dói, nunca ouviste dizer? Isso quer é continuação, é dor de burro. Tira lá a mão daí, não faças fitas, não me venhas dizer que é um enfarte. Também não me admirava nada, és capaz de ter isso tudo entupido, é das alheiras e fritos que comes. Sim, estou a dizer que estás mais gordo, já olhaste bem para essa pança? Parece que vamos ter outro filho. Parece, porque já nem para isso serves. Uma mulher tem necessidades, sabias? Não, não sabias, só queres é saber da tua barriga. Achas que estou a lavar a roupa suja? Roupa suja tenho eu montes para lavar, que tu és um calão e não fazes nada em casa. Ai olha-me a coluna, não me afinques tanto, que ainda a semana passada andei a antibióticos. O nosso médico é que é um homem muito competente, estás com ciúmes? Pois bem devias estar, aquilo é que é um homem: prestativo, simpático, bonito, charmoso. E veste-se bem, não é como tu que pareces um traste. Havia necessidade de vestires essa camisa toda desbotada, olha a vergonha, tem algum aprumo, sê homenzinho! Não ouviste nada do que te disse, pois não? Estás velho é o que é, estou a ver que tenho de largar umas notas para um aparelho auditivo e logo agora que a nossa conta está a zeros. Tira a mão do peito, continua a dançar, olha que ele não te cai e eu não tenho dinheiro para o cardiologista. Uma doença de cada vez por favor. Oh por amor de Deus, quanta pieguice, nem para dançar serves. Vá, vai-te lá sentar antes que morras, que tenho duas torneiras lá em casa para consertar e ainda preciso de ti.

O Outro

Diz-me: ele é melhor que eu? Por quê? Tem mais músculos, é mais vigoroso, mais potente? Não tem disfunção eréctil, ejaculação precoce, aguenta mais tempo, dá-te orgasmos múltiplos? Vá, fala-me! Explica-me as diferenças entre mim e ele, em quantas réguas nos diferenciamos, quantas escalas de QI nos tornam diferentes, com quantas enciclopédias se faz a diferença entre nós? Ele toca Philip Glass, ouve Verdi, lê Le Carré? Em que muda a cultura em nós? Sim, mostra-me: eu balanço os dedos ao som de Pavarotti, ele mexe-se como Astaire? É o modo como dançamos a diferença palpável em nós? A sério, conta-me o que te faz gostar mais dele que de mim. São as regras de etiqueta que em mim são exageradas? O uso abusivo de por favores e com licenças incomodam-te? Está bem, eu mudo por ti, mas promete-me que não foges, que não me deixas mais sozinho. O meu coração não aguenta tanta perda, ainda a semana passada foi um herbário manufacturado, coisa antiquíssima, hoje foste tu, meu bichinho precioso. Não te quero perder, como foi ele capaz de te levar? Diz-me, é por ele vestir ganga e camisolas de algodão? Usa padrões e cores? É isso que te agrada num homem? São as cores que definem o teu gosto? Eu posso usar uma gravata vermelha de vez em quando, calçar sapatos de vela, se preferires. Preciso de saber porque me relegaste, porque o preferes, o que faz mudar o Amor. Sim, aproveita e explica-me tudo isso, enquanto o coração ainda se vai aguentando.

A Tolice do Amor

Tento esquecer as vozes que me rodeiam os ouvidos e as imagens que me perseguem a cabeça.

(e eu não acredito na tolice do Amor)

Gostava de ter aqueles olhos que queres beijar e quem me dera possuir aquela voz que gostas de ouvir.

(não, não acredito na tolice do Amor)

Estes sentimentos são tão fortes a ponto de eu não conseguir respirar e tão vívidos a ponto de te sentir aqui do meu lado.

(e não acredito nas cantigas do Amor)

As palavras que dizes deixam-me sonhar acordado, este amor devia ser para outro alguém.

(e eu não acredito nos disparates do Amor)

Tu e Eu, eu sei.

Tu e Eu, eu tentei.

Tu e Eu, eu corri.

Deixei todas as velhas histórias para trás e isto soa-me tão bem, é tão quente e tão bom

(e eu caí na tolice do Amor).

photo by: joaopedroborba

Elisa – Parte Dois

Elisa, não me canso de dizer que me deixas extasiado com a tua irreverência. Quantos namorados tiveste, com quantos desconhecidos foste para a cama? Não me dês números, por favor; é retórica apenas. Não me mates com números, com descrições de larguras e comprimentos. Não, não me faças isso, mesmo que não me ames. Sempre fui o teu confidente, é verdade. Mas se soubesses o quanto me custava, quanto me doía, quanto enfraquecia e definhava por te ouvir falar das tuas conquistas de meia-noite e das tuas esporádicas desilusões, talvez te apercebesses quão importante és para mim.

Por favor Elisa, olha-me com outros olhos, não me vejas como puto mimado, nem como o teu velho amigo, vê-me como homem, observa-me os braços capazes de te dar abraços quentes, os lábios desejosos de te explorar e os olhos sequiosos de te mirar. A sério, não ligues a quem te chama

– Cabra

não, não te preocupes por dizerem

– Vaca.

Esquece, esquece mesmo. Ouve-me simplesmente, atenta no movimento dos lábios e na expressão corporal. Escuta, escuta Elisa:

– Amor, amor.

Ouviste? Sou diferente, tu conheces-me, eu acredito em ti e vejo as tuas qualidades. Sim, tens coração. Coração humano, coração carente. Elisa, Elisa, és mais menina ingénua que mulher fatal.

Elisa – Parte Um

Sempre abusaste nos decotes, confessa. Às vezes parecia que querias evidenciar algo, mas garanto-te que não era preciso, já saltava tudo a olhos vistos, literalmente. Abusavas também no não comprimento nas saias e gostavas de te maquilhar. Nunca me ligaste muito, acho que nem sequer tinhas reparado que eu existia. Lembro de gritares por os rapazes te apalparem as pernas, quando no fim de contas eras tu que não te davas ao respeito:

– Vaca,

gritavam as miúdas da escola.

– Pobre,

gritava eu, em silêncio. Pobre de espírito, paupérrima em personalidade e contudo fascinavas-me. Magnetizavam-me os teus olhos negros e o modo com os usavas para intimidar e ao mesmo tempo seduzir os homens. Eu era um puto, punhas-me de lado enquanto te divertias com quantos querias. Todos se rendiam à beleza que portavas e à forma ousada como te vestias. Eu não era diferente e todas as noites enquanto dormia, segundo a minha mãe, chamava pelo teu nome, murmurando:

– Elisa, Elisa.

Marcha

Nunca imaginei que chegasses tão cedo. Acho que me esqueci que esperava por ti e desisti de ir espreitar à janela, a ver se já lá vinhas.
Afinal chegaste sem eu esperar. Não é que não tivesses vindo no dia do costume, mas sinceramente não pensei mais nisso. Ando trocado, os dias não passam da mesma forma e até os ponteiros do relógio andam num compasso diferente. Já tinha tirado o cachecol, já não tomava morfina e agora chegaste.
As coisas mudaram, sabes? Estou feliz agora, sinto-me quente, abraçado. Não sei se ainda quero os teus abraços e os teus sussurros. Desculpa. Nunca te quis iludir, não fiques triste.
A não ser que nos queiras acompanhar para sempre. Vem, podes vir. Caminha connosco em marcha lenta e acompanha-nos pela vida. Talvez possamos ser os três felizes. Pensa nisso. Vou só colocar um cachecol de sentimentos e podemos partir.
Até já, Outono.

Sete, Sete – X

 (…)

Os interrogatórios haviam começado e no bairro toda a gente participava em burburinhos. As mulheres passavam o dia à janela do prédio cochichando umas com as outras sobre quem seria o culpado pela morte de tão bela moça. Falava-se num caso amoroso com o rapaz da embaixada lomográfica e num crime passional. Havia também quem falasse em drogas, traficantes de bairro e num ajuste de contas. Os homens depois de chegarem do trabalho, faziam apostas no café sobre quem seria o assassino.

– Cá para mim a rapariga suicidou-se, mas foi. Ela andava a ficar louca.

– É o que eu digo: estudar só dá cabo do juízo. Precisamos é de quem trabalhe e não de quem estude.

Outros diziam:

– Acho que foi a vizinha do terceiro esquerdo que encontrou a moça com uma tesoura nas costas.

– Quem? A taxista? É uma jóia de mulher, trabalhadora e honesta.

Mas havia quem contestasse:

– Aposto metade do meu ordenado deste mês em como foi aquele rapaz, o Miguel, que vende máquinas fotográficas!

– Lomográficas.

– O que é isso?

– É o que ele vende. Máquinas lomográficas e não fotográficas, mas eu cá não acredito que tenha sido ele.

Isto dava-se todos os dias, numa plena especulação de presumíveis criminosos e enquanto os falatórios se sucediam em catadupa, a Polícia Judiciária chamava testemunhas e possíveis suspeitos a prestarem declarações na esquadra.

Carmen foi uma deles e apesar da relutância, talvez o seu testemunho fosse mais relevante do que julgava.

(Continua)

Prova de Amor

Podia dizer que te amo, mas seria cair na banalidade. Podia subir a uma torre e gritar o teu amor, mas não seria original. Podia colher uma flor rara e oferecer-te, mas não seria o primeiro a fazê-lo. Podia aprender uma canção e dedicá-la a ti, mas já não seria a primeira vez. Podia correr o mundo em tua homenagem, mas já outros iriam à minha frente. Podia tocar-te uma melodia, mas as partituras não chegariam. Podia tentar expressar tudo o que sinto, fazer de tudo por ti, mas nada seria suficiente.
Resta-me esperar pelo cair da noite e sentir o teu aroma, permitir que te entregues nos meus braços, que sejamos um só. Aí far-te-ei sentir a mulher perfeita: a que mais desejo, a que mais amo.

Um Mês

Um mês é sempre um mês. Um mês é um mês no calendário. Um mês parece pouco em termos cronológicos, mas pode significar muito. Um mês pode ser cerca de trinta dias, mas pode saber a Vida, pode saber a Amor, pode saber a Amizade. Num mês podemos mudar a nossa vida por completo, ultrapassar barreiras e distâncias, esquecer ideais antigos, criar novos. Um mês pode servir para obter a Felicidade, para sentir o verdadeiro sentimento, para criar novos laços. Um mês costuma ter quatro semanas, mas pessoalmente pode ser mais longo que isso. Um mês pode verter lágrimas, pode libertar sorrisos. Um mês pode permitir que cresçamos psicologicamente, que alarguemos os nossos horizontes, que conheçamos novos locais e novas pessoas. Um mês pode servir para nos conhecermos melhor, para não desistirmos daquilo que queremos, para corrermos, para lutarmos. Um mês pode servir para partirmos à aventura, para explorarmos o desconhecido. Um mês pode servir para fortalecer amizades, criar novas. Um mês pode servir para amar, para viver, para sentir.
Um mês é sempre um mês, é verdade. Mas para aqueles que o saibam aproveitar é mais que isso. Um mês pode significar tudo e temos a certeza que um mês se repete infinitamente até ao fim das nossas vidas. Um mês, sempre.

My Lovely Mirror – Part Three

Como conter dois corpos inflamados de Paixão e Desejo? Era a pergunta que pairava no ambiente do quarto. Não era possível, simplesmente. Amavam-se demasiado para o conseguirem abafar. Ela trancou a porta do quarto, enquanto ele lhe mordiscava o pescoço. Beija-lhe os lábios, saboreia cada movimento que lhe sabia a vida e tacteia o seu corpo como se lesse em braille, palavras de carinho. Com as mãos desejosas despe-lhe a camisola, ela brinca com o seu botão das calças e beijam-se apaixonadamente. Os lençóis consumiam-se no meio da Paixão e cada vez com mais intensidade, os dedos tocavam-se e despiam-se de tudo. Ele desapertou-lhe o fecho do soutien, ela o das calças. Os lábios e a língua foram descendo até aos peitos, enquanto que a dela já lhe percorria a barriga. Ardiam em sussurros, murmúrios ao ouvido e em toda a sua química.
Deliciavam-se mutuamente e a roupa estava já espalhada pelo chão, à medida que se atreviam a explorar locais desconhecidos um do outros. As mãos, os lábios, o corpo: tudo explodia de prazer. Sentiu-se dentro dela em movimentos contínuos, juntos alcançaram o prazer. Beijaram-se, acariciaram-se e adormeceram num sono sentido e apaixonado.

Cama Por Fazer

Quero-me perder na nossa noção de Tempo e esquecer-me de tudo o resto. Quero amar-te intensamente todas as noites, como se fosse a última, tendo a única certeza que és Tu quem eu quero, que és Tu de quem preciso, que o Amor é mais que um sentimento. Preciso de sentir novamente o teu cheiro e o teu toque, sentir a tua respiração no meu pescoço, sentir que me negas os beijos como quem implora Paixão.
Quero sentir-nos um só. Perder-me em ti, uma vez, outra e outra.