Monthly Archives: Novembro 2007

Um dia

Um dia quis ser sempre teu, quis ser o teu chão, quis ser o teu mundo, quis que partilhasses comigo o teu céu. Um dia quis amanhecer contigo e poder sonhar que existias mesmo, que eras real, que o teu barco se movia em direcção ao meu, que remávamos no mesmo sentido. Um dia quis ser real e viver num mundo real, onde as lágrimas rolassem por ti como pedras num monte real. Um dia quis que fosse inundado por ti nos dias cinzentos, que a tua chuva me molhasse todos os ossos meus, que a tua dor fosse real. Um dia quis sonhar que o teu sabor se perdesse no meu lado frio, que me aquecesses mais o lado quente. Um dia quis sonhar que o teu lado esquerdo complementava o meu lado direito, que amanhecesses por cima de mim.
Um dia vi que eras tu o meu eu, que me tocavas o ombro, que eras tu, que eras tu, que existias, que existias. Um dia vi-te em mim e nunca mais te larguei.

photo by kalein

Ensina-me

Ensina-me a parar o tempo, por favor. Ensina-me a neutralizar o relógio, a evitar que ele trabalhe. Ensina-me a não perceber que o tempo não nos dá muito tempo e que temos de ser nós a forçá-lo. Por favor, explica-me como prendo o relógio, como evito que os números se transformem cada vez mais, como faço para que o tempo esteja estagnado. Queria perder-me na nossa própria noção de tempo, encontrar maneiras de estar sempre contigo, inventar histórias, ser um bom mentiroso, inventar formas rebuscadas de sentir sempre o teu corpo contra o meu. Por favor, deixa-me guardar aqueles momentos, deixa a cabeça pender sobre o meu ombro, deixa-me tratar de ti, permite-me amar-te todos os dias mais um bocadinho. Permite que a minha barba cresça junto a ti, que sinta o teu nariz na minha face, que chore de felicidade todas as manhãs por acordar contigo ao meu lado. Deixa-me perder o apetite ou esquecer-me dos medicamentos, do café ou do cigarro, só porque o meu maior vício és tu. Ensina-me a ser melhor todos os dias por mim e por ti. Ensina-me a ensinar-te como o nosso amor cresce cada vez que os olhares se cruzam.

*photo by esquissos

Prazer (Leviano)

Prazer. (Prazer em consumir-te.) Prazer em tocar-te nas virilhas húmidas, nas coxas trémulas e lábios molhados. Prazer em desapertar-te os colchetes e revelar-te os peitos fartos. (Dás-me muito prazer.) Prazer em ver-te saciares-te sozinha. Prazer em possuir-te exageradamente, vezes sem conta e cobrir-te com a língua. (É um prazer invadir-te assim.) Prazer em movimentos ritmados, em profundidade, em violência ponderada, em jeitos moderadamente agressivos. Prazer em devorar-te grandemente, remetendo-me à condição de fera. Prazer em entregar-me a ti. (Foi um prazer, nesta cama.)

Prazer. Prazeres da carne.

Prazer (Cortês)

Prazer. (Prazer em conhecê-la.) Prazer em observá-la entre cada janela aberta e porta por abrir. Prazer em despi-la em cada olhar que lhe dou de soslaio. (Prazer, muito gosto.) Prazer em mirá-la, de óculos no nariz, embatucado. (Fá-lo-ei com muito prazer.) Prazer em reconhecer-lhe cada traço, em exagerar-lhe cada atributo seu, como se meu fosse. (Foi um prazer tomar este café consigo.) Prazer em perder-me em cada recanto da sua pele branca, copo de leite com pouco café. Prazer em beber cada suco da sua superfície. Prazer em ouvir as suas palavras sopradas ao ouvido, em derreter-me por cada som proferido por sua boca. (Terei muito prazer em acompanhá-la a casa.)

Prazer. Muito prazer.

Pedido

Queria conseguir não gostar de ti, poder ter controlo sobre mim e não sucumbir aos teus beijos. Gostava de não ser corrompido pelos teus bocejos, pulsos, sorrisos e cotovelos. Desejava não cair de sofreguidão na cama, que fosses fria, atrapalhada e sem libido. Queria que nos limitássemos à missionário para que eu, num impulso de arrependimento, salvasse as cuecas por entre lençóis consumidos e resgatasse a roupa, entretanto já caída no chão do quarto. Queria que pudesses fazer com que a tua pele não fosse tão macia e que eu não sentisse a necessidade de me inebriar com o teu cheiro. Queria que não me amasses tanto, a ponto de me fazer querer cometer loucuras. Gostava de perder um bocadinho de vigor e não passar as madrugadas acordado contigo, em gemidos e calores. Gostava que conseguisses esquecer todos os pontos fracos do meu corpo e fizesses com que as pernas não tremessem e o coração não batesse, ribombante, de desejo por ti. Queria conseguir não querer sentir o teu dióxido de carbono, às cinco da manhã, por cima do meu peito. Precisava acreditar que o que te excita, me entedia e que tivesses lábios gretados, mãos calejadas, pele mal cuidada e a barriga saída, para que conseguisse sair rapidamente de cima de ti. Gostava de não reparar na tua cara enlouquecida pelo prazer, que não me cravasses as unhas, no clímax. Queria não te amar assim tanto, recuperar o juízo e largar a ideia de querer passar contigo o resto dos meus dias.

Numa fracção de tempo

Hoje apetece-me, calcula, estar contigo. Não precisa ser muito tempo, bastam uns minutos, olhar para ti e ver que sim, estás bem, o teu cabelo continua igual, não cresceu assim tanto desde a última vez e os teus ténis ainda são os mesmos. Pode ser numa fila de espera no Departamento de Finanças,
– Com licença, posso passar à sua frente?
e trocar meia dúzia de impressões sobre o tempo ou uma dúzia, vá. Serve confirmar que o teu número de telefone é o mesmo e que o teu telemóvel tem a carga completa. Não preciso de muito, não ocuparia assim tanto o teu tempo e poderias voltar aos teus afazeres rapidamente. Quero constatar que os teus beijos ainda sabem ao mesmo e que ainda me mordes os lábios da mesma forma. Servem umas pancadinhas nas costas, um
– Olá, tudo bem?
e depois partiria de regresso a casa. Basta ver se os teus olhos ainda são castanhos ou se já ganharam um tom estranho de verde.
Tenho vontade, vê lá bem, de te oferecer flores. Podem ser do campo, uns quatro malmequeres colhidos à pressa, como pretexto para te ver enquanto o diabo esfrega um olho. Bastava um encontro incidental numa pastelaria,
– Estás aqui?
e sorrir como confirmação, beber o café e sair. Não precisa ser longo, um café curto é suficiente para poder ouvir o teu riso e sentir-me satisfeito. Pode ser numa ida à casa de banho e encontrar-te, por acaso, à saída, esbarrarmos um no outro e hesitarmos assim uns segundos.
Hoje apetece-me, imagina, viver sempre contigo, nem que o sempre fosse por breves instantes.

Fomos a Paris num dia de semana

Fomos a Paris num dia de semana, uma terça ou quarta, já não me recordo bem. Não de avião, que as economias não chegavam para tanto, fomos à boleia, de mala às costas, com pouco que carregar, pouco que vestir, uma muda ou outra de roupa interior, uma garrafa de água que enchíamos as vezes que fossem precisas, uma lata de feijão para as horas de aperto. Levei um sobretudo verde seco, impermeável, ou não estivéssemos nós em Novembro, e em cada bolso escondia bombons de chocolate que te ia dando ao longo da viagem.
Cada vez que parávamos numa nova cidade ou aldeiazinha, cada vez que o fim da boleia era a meio de uma estrada longa, quando a sede ou os calos te apertavam e sentias uma dor no peito, de cada vez que pensavas
Não vamos conseguir chegar,
eu dava-te um bombom e tu sorrias. E mesmo que também achasse que dificilmente te levaria à cidade-luz, a cada sorriso teu me chegavam mais certezas e a mala me parecia mais leve. Cada esgar teu, cada olhar ingénuo me fazia caminhar quilómetros em busca de alguém que desse guarida a dois viajantes, por apenas uma noite.
Dois apaixonados,
dizíamos. E as senhoras velhinhas de pensões também velhinhas, lá nos deixavam ficar numa cama qualquer, num quarto de uma cave escura, sem pagar nada, contando que não sujaríamos ou deixaríamos algo fora do sítio. Por dias andávamos à boleia, sem saber que tipo de pessoas parariam, que sorte de géneros e nacionalidades nos acompanhariam até novas etapas. Viajávamos juntos, sem interessar bem por onde e na verdade, nem o destino final era o mais importante. Não, tampouco me importava que as solas dos sapatos não aguentassem sequer até à fronteira, que a dada altura já nem pensões velhinhas existissem, que as boleias se tornassem escassas, pois o que nos moveu a partir em viagem, não foi tanto a vontade de conhecer a cidade do amor ou os albergues de cultura num local sem fundo, mas foi o querer fazer algo juntos, com o sentido do amor e aventura, à mistura.
Chegámos a Paris num dia de semana, tu cansada, com os pés em bolha, os músculos doridos, mas com a sensação que a felicidade, afinal não era mais que uma brisa, que um cheiro a cidade. Eu, com o olhar embevecido, admirava o teu reflexo no rio Sena, o teu ar maravilhado que parecia gritar
Amor em Paris,
e o cabelo que teimava em reflectir a cidade das luzes a cada instante.
Beijámo-nos em Paris, ao fim da semana e por lá ficámos até ao último bombom do meu sobretudo verde seco, impermeável.

Napa Azul-Celeste

O relógio clamava sete para as dezassete e o meu coração batia ansioso pela aproximação de algo diferente. Nem eu sabia bem porquê, mas tinha a certeza que nunca mais a minha vida seria igual e que mudaria brevemente. Um arrepio frio desconcentra-me e faz-me reparar numa bela mulher que passa à minha frente, corpo esguio, perna alta, mas a face é encovada, esquálida e a cútis pálida. Sentou-se na cadeira ao meu lado,
(gemia)
e contorceu-se no tecido de napa azul-celeste, apesar de o mais adequado ser napa azul-infernal.
Olhando ao redor via outros humanos que pareciam padecer do mesmo mal. Um velho, com a barba por fazer, de cabeça encostada a uma rapariga nova, tentava dormir. Notava-se que o cansaço e a fraqueza o tinham tomado por assalto, em súbitos ataques continuados. Uma menina (não havia de ter mais de sete anos) com um lenço amarrado à cabeça de sua calvície, tinha uma boneca nas mãos sem reacção e, de sorriso desvanecido e lábios arroxeados, lá tentava mostrar que ainda tinha um pouco de vida, cantarolando cantigas infantis, num som ínfimo e arrastado.
E ali estava eu, (o relógio chamava três para as dezassete), nervoso no coração miudinho, incrédulo em ver como a vida parava naquela sala de papel de parede rosa-velho e napa azul-celeste.
Alguém gemia em silêncio, apenas com o olhar sofrido de quem tem os órgãos a sucumbir à doença e eu ali, sem saber se havia de gemer também, sozinho num banco de napa azul-celeste (que ironia) e a ouvir o relógio a falar ao tempo sem que os outros notassem ou se importassem. Sai uma mulher, quarentona acho, da sala ao lado, com o fio em lágrimas e as lágrimas em fio, de dentes cerrados, a morder o lábio como quem resiste ao que corrói por dentro, em ácidos de alma.
Chore, chore,
apetece-me dizer. E rapidamente me sinto estúpido por perceber que devia dizer
Resista, resista
(porque chorar não é solução), e
Morda o lábio,
para que a dor interior não seja tanta, para que não se entregasse à maldita, para que ela não a chamasse
Vem,
para que não deixasse que a Morte a levasse.
A dada altura sou eu que já mordo os lábios, de ansiedade, de sentir a inevitabilidade entre os ponteiros do relógio, de me recordar das agulhas, das máquinas, análises e exames. Sou eu que já tremo de ver bancos de napa azul-celeste e revistas antigas na mesa da frente. Sou eu que já cerro os dentes de ouvir
Tic-tac,
de me sentir abanado pela vida doentia, que soa a um
Tic-tac
sarcástico, gritado pela Morte, em dezassete horas e onze minutos.
Ouço a chamarem pelo meu nome e levanto-me com as pernas bamboleantes em direcção àquela porta de onde as vidas saem modificadas, observadas de perto pelo olhar atento do relógio.

Composição

Toco-te por entre composições escritas em noites quentes, em papel mata-borrão, para absorver tudo o que vivemos e sentimos. Dedilho as cordas que ligam os nossos corpos, sintonizados na mesma melodia da emoção e ouço notas de um musical de Outono, encenado em palcos reais, de Amor e Paixão. Como qualquer coração quente, o meu perde-se por entre as palavras que completamos juntos, que agregamos em expressões e frases lapidares, de infinita aplicação. Não tenho outra escolha senão amar-te por meio de sinfonias, árias ou sonetos, porque o Amor não se explica simplesmente. Querer-te compõe-se com vozes melodiosas, colocadas e afinadas através do nosso desejo comum de termos uma só vida. Se este som chegar a ti, ao longo de contornos suados, deixa-me amar-te mais e mais, ao longo de toda a minha existência composta em conjunto contigo.