Monthly Archives: Janeiro 2008

Palavras Cruzadas

        Irritas-me tanto, não me ligas nada, nem sei se reparas que me deito todos os dias ao teu lado na cama. Certamente não notas, estás sempre de costas, constantemente cansado, com os bofes de fora, não sei onde gastas as energias, no escritório talvez, a nova estagiária parece ser amante de desporto.

Não me dizes nada? Fala comigo caramba! Pareces um mudo, irritas-me tanto. Quarenta anos de casamento, vinte anos de absoluto silêncio, a minha mãe diz-me que deves ter um problema qualquer no freio, uma deficiência qualquer, adquirida há vinte anos atrás, calculo eu que foi naquela viagem de negócios que fizeste às Bahamas. É natural, aqueles bichos tropicais dão cabo de uma pessoa. Mas tu irritas-me tanto, nem argumentas comigo, não me dás explicações, estás aí sentado no sofá feito vegetal.

(Sofrimento com seis letras?)

Sei lá eu João, quase não me falas e agora vens-me com palavras cruzadas, eu que nunca fui boa a letras, eu aqui numa agonia completa, com medo que seja um vírus tropical esse que te deixa em silêncio há vinte anos, esse que te deixa cansado e tu de roda de jogos no jornal.

(Perseguição com sete letras?)

Ora bolas, João. Ando preocupada com a tua saúde, acredita. Alguém te anda a chatear a cabeça? Andas a ser vítima de assédio, é isso? Eu sabia, eu sabia. Pobrezinho, tu aí doente com problemas no freio e ainda te andam a assediar. Quem é, João? Quem é? Fala comigo, conta-me o que se passa, por que andas tão calado, por que já não me ligas?

(Suposição com oito letras?)

Amor, ponhamos a hipótese que é a nova estagiária que te anda a perseguir. É ela? Fala comigo João, não tenhas medo. Essas mulheres pensam que conseguem tudo através de sexo, mas vais ver que tudo se resolve. Denuncia-a ao chefe, vai tudo correr bem, ninguém te vai acusar de ser um frouxo, eu sou tua mulher e sei que não és nada isso. Bem, agora já não me tocas, mas eu sei bem que és homem, que és forte, que sabes o que uma mulher gosta.

(Afeição profunda com quatro letras?)

Posso-te perguntar uma coisa, João? Por favor não leves a mal, que eu não aguentaria a tua indiferença. Ainda sentes algum tipo de amor por mim? Não me pareces igual desde há vinte anos, se calhar é impressão minha. Vinte anos nem são assim tantos, ainda há pouco tinha eu quarenta anos e agora cá estou eu mais velha. Diz-me se o que tu sentes por mim não é comodismo, que ainda olhas para mim todos os dias e vês uma mulher bonita, alguém desejável e que apenas andas cansado ou doente talvez ou assediado porventura.

(Zangada com cinco letras?)

Não, não estou irada contigo. Apenas gostaria que deixasses de lado essas palavras cruzadas, que olhasses de frente para mim e visses que quarenta anos de casamento e vinte de apatia é sinónimo de qualquer coisa, vê se vais ao médico que pode ser um vírus grave e ainda ficas com algum problema para o resto da vida.

(Rota com sete letras?)

Vê-me isso por favor João, antes que me irrite e siga o meu caminho sozinha.

Anúncios

Os Dois

Os dois, resumidos a uma caneca de chá e uns biscoitos, juntos debaixo do mesmo tecto, nutrindo o mesmo sentimento, o mesmo amor que insiste em crescer cada dia mais, em admirar como nunca antes.
Os dois, juntos aqui, passado tanto tempo de agonia sem assumir os sentimentos e agora na mesma morada, no mesmo quarto, na mesma cama, na mesma vivência diária, numa felicidade conjunta.
Os dois.
Eu e Tu. Amando-te todos os dias mais um pouco.

Medo

Na realidade, tenho medo. Medo que apareças num sopro único, na esquina de uma rua qualquer, mesmo a virar e que choques comigo novamente. Medo que as minhas mãos reajam como mãos e que insistam em tocar-te nos cabelos encaracolados, ali mesmo numa esquina e que a minha boca aja como boca e te peça para ires tomar um café comigo.
Tenho medo de perceber que ainda gosto de ti, que afinal sou um mentiroso e que tudo o que não se passou entre nós foi apenas por capricho, necessidade de afirmação e independência. Temo que ainda te reveja por Paris, nos Champs-Élysées, de sacos de compras nas mãos, de felicidade estampada nos olhos e eu de mãos a abanar, com dúvidas reflectidas no rosto, sem poder sequer dizer que acho que tudo o resto foi uma mentira. Tenho medo, lá no fundo, de me atrapalhar com as palavras, enrolar-me num substantivo qualquer e trocar os grupos nominais e verbais, dizer tudo o que não quero e acabar por perceber que sempre o desejei.
Tenho medo que esquecer-me de ti tenha sido em vão, que um esforço inútil tenha ocupado a minha mente sem qualquer utilidade e que ao te encontrar a chama se reacenda em mim. Tenho medo de te encontrar novamente, que te veja no metro, eu a sair, tu a entrares, sem tempo de reagir, sem tempo de chamar por ti, de te deixar um número ou qualquer outra coisa que te faça recordar de mim.

Call Center

Vidas frenéticas esbatendo-se num rol de palavras cuspidas a preceito de um qualquer serviço, contrariando ideias previamente concebidas.
Homens e mulheres de várias gerações, educações e estatutos, diminuídos em nichos numa qualquer sala de enormes dimensões, desenvolvendo tamanha lábia através do exercício da argumentação e persuasão. São os incompreendidos da sociedade, considerados as pragas da era moderna, os chatos, os incómodos e despropositados.
Vidas aceleradas, sentadas várias horas seguidas para ganhar o seu sustento, contra-argumentando com pessoas supostamente instruídas, mas altamente analfabetas e pessoas analfabetas, curiosamente instruídas.
Há vozes que os maltratam sem sequer lhes terem visto a cara ou a sinceridade nos seus olhos, vozes que os insultam sem sequer ouvir o que lhes têm para dizer.
Jovens e adultos que debitam frases decoradas com o intuito de convencer o visado que aquele é efectivamente o serviço mais indicado. Colegas de trabalho e equipa que se ajudam entre si, de forma a melhorar a sua produtividade, dando dicas e esclarecimentos.
São corpos que ao fim do dia também tem as suas vidas, que também saem cansados dos seus empregos, de tanto falar e estourar palavras com pouco proveito para si. São vidas que no dia seguinte retomam frenéticas, a cuspir argumentos sentadas numa qualquer sala de enormes dimensões, de headphones na cabeça.

Rodeios

Só te quero fazer mais uma pergunta antes da novela começar, não queria que me achasses uma ciumenta, porque não sou
(nem quando te gritei na rua)
é uma pergunta simples, não perdes muito tempo a responder, nem precisas sequer de pensar muito, serve um sim ou um não
(preferia o sim)
um sim ou não, Abel, há lá coisa mais simples que isto?
Não me venhas dizer que sou chata, que nunca me calo enquanto vês as notícias, é só responderes e eu fecho a matraca, a novela está quase a começar e nem eu quero perder muito tempo
(é hoje que a Beatriz descobre que foi enganada pelo Paulo)
não comeces a gaguejar, parece que tens medo de alguma coisa, Abel, eu pergunto, tu respondes, eu calo-me, é um trato fácil. Vou-te só perguntar uma coisa mas não julgues que andei a vigiar-te,
(a ler-te as mensagens)
(a cheirar-te o casaco)
(a revistar-te os bolsos)
que eu não sou exageradamente possessiva, já me deves conhecer o suficiente para saber isso, Abel. Levantas o nariz do raio da televisão? Só te quero fazer uma pergunta singular, sem ser um questionário
(não precisas responder de cruz)
ou um interrogatório, que eu não sou dessas, comigo é tudo muito directo, digo tudo de uma vez, tu respondes, eu calo-me, simples não é?
Sim ou não, Abel? Sim ou não, responde-me unicamente. Sim ou não, diz depressa que a novela deve estar quase a começar.
Ainda me amas, Abel?
Responde-me daqui a nada, não me interrompas agora, não te armes em chato, se é só para um sim ou um não
(preferia o sim)
podes esperar mais um bocado, que a novela já começou e é hoje que a Beatriz descobre que foi enganada pelo Paulo.

O Retrato

O teu retrato na parede, em sépia, com aspecto envelhecido, a moldura do teu retrato empoeirada, com pó de meses
(ou de anos)
e tu igual, impávida, com a testa franzida, a franzires-me o olhar também, a afirmares-me as sobrancelhas em jeito circunflexo e o pó a cobrir-te as imperfeições.
Tu na parede, envelhecida, com pó de meses
(ou de anos)
toda empoeirada, tu que eras tão fresca, tão airosa, tão sem pó e agora andas feita recordação, espremida contra uma vidraça e uma moldura.
Eu sentado na cadeira, a tilintar feito porta-chaves, armado em souvenir oferecido numa daquelas excursões baratas a Badajoz, depois de ter comprado um colchão sem molas, daqueles ortopédicos; a evitar olhar o teu retrato, a esconder-me do teu ar empoeirado, das tuas poses ameaçadoras que ameaçam saltar da moldura.
Afinal já partiste há tanto tempo da minha vida, nunca mais te vi nos mesmos locais, nem no café ou no restaurante da esquina, nem na papelaria logo pela manhã
(sempre gostaste de andar informada)
nem sequer no meu corredor ou à porta do quarto.
Afinal já partiste há tanto tempo, por que não sais da parede, por que não me desocupas a moldura, por que não deixas de te espremer contra a vidraça? Por que insistes em me franzir o sobrolho, em me ameaçar quando estou descontraído na cadeira, à espera que o pó desapareça da moldura?
Tu na parede, andas mais envelhecida, não mudaste mais a expressão, não mudaste o jeito circunflexo, não o mudaste sequer para um grave ou agudo, manténs o mesmo olhar ameaçador, o mesmo pó de meses
(ou de anos)
como se me quisesses manter controlado, debaixo de olho, com medo que te esqueça, que te tire da moldura, que te descole da vidraça, que te tire o pó de meses
(ou de anos)
com medo que te alise a testa franzida e as sobrancelhas em jeito circunflexo.

Lembras-te António?

Lembras-te António? Lembras-te de quando me trazias flores todos os dias, quando me oferecias colares de pérolas (daquelas a fingir, compradas nos lojas dos chineses) envolvidos em papel de embrulho brilhante e sorrias todos os dias quando chegavas do trabalho? Ao fim da tarde,
– Cheguei amor
e um beijinho no canto da boca, outro no pescoço, um arrepio pela espinha, a seguir um calor e nem tempo tinha de acabar de cortar os legumes para a sopa. Lembras-te António? O jantar ficava para mais tarde, tu queixavas-te que tinhas fome, que eu nunca fazia nada a horas, o costume.
Não podias continuar a ser o mesmo, levares-me a jantar fora em ocasiões especiais e fora das ocasiões especiais, abrires a porta para eu passar, levantares-te quando entrava na sala; não podias ser como quando namorávamos? Bastava-me não adormeceres mal chegasses à cama; viras-te para o outro lado e nem um
– Boa noite
nem nada, nem um beijinho, nem um toque, muito menos um agrado, apenas um
– Tenho calor
e as pernas para o outro lado também, tal como tu, quase a fugires dos meus pés, eu a colocar-te um braço por cima, tu a repetires
– Tenho calor
e a esconderes o corpo por debaixo dos lençóis.
Lembras-te António? Lembras-te dos bilhetinhos deixados pela casa, lembras-te quando me dizias
– Amo-te
todos os dias, quando tinhas pelo menos um sorriso para me dares? Agora chegas a casa e és tu sentado no sofá, a perninha a balouçar, o jornal a balouçar-te nas mãos também, eu toco-te na perna, tu a repetires
– Tenho calor
e eu a abrir as janelas, a ligar as ventoinhas, a balouçar os leques como balouças a perninha e o jornal e a tentar de novo; eu a tocar-te na perna e tu o mesmo, tu o
– Deixa-me
e a leres o suplemento desportivo e o suplemento económico e o não suplemento e tudo mais.
Lembras-te António? Só queria que voltasses a ser o mesmo, queria não ter sempre o jantar a horas na mesa, não conseguir cortar os legumes a tempo da sopa, queria ficar com o rabanete na mão à espera de ser cortado e tu a arrebatares-me contra a bancada, afoitamente, com beijinhos, com um arrepio e um calor a seguir.
Lembras-te António?