Monthly Archives: Fevereiro 2008

A Verdade do Amor

Olha-me nos olhos e diz-me se ainda me amas com a mesma intensidade de outrora, se cada vez que o teu olhar se cruza com o meu também sentes as mesmas faíscas e percebes que o nosso amor tem vindo a esfriar-se. Conta-me por favor, porque tens fingido que está tudo bem e suportado cada dia com mais esforço, com vontade de fazeres as malas e largares a casa e as crianças, a meu cargo. Todos os dias esforço-me por dizer que te amo, mas sei que não te faço feliz o suficiente e que não és pessoa de ficar presa a um casamento sem significado.

Por favor, ganha coragem e não me faças sofrer mais. Diz-me de uma vez por todas que vais partir, que não aguentas estar mais comigo. Basta de mentiras, peço-te. Não quero que te mantenhas a meu lado por pena, não suporto que tenham dó de mim e tu já me conheces o suficiente para saber disso. Todos os dias sinto mais o teu olhar de misericórdia e o ar de quem está cansada demais para dizer alguma coisa.

Não estou a pedir que faças mais nada, apenas a tua sinceridade. Diz-me que já não dá, que isto acabou por aqui, prefiro isso ao teu desprezo todas as noites, prefiro isso às tuas costas. Confessa-te a mim, só não quero que fiques por cá devido às obrigações, prefiro a verdade.

Por favor, diz que já não me amas da mesma forma. Acho que é a maior prova de amor que me poderias dar. Quando acordares, pensa nisto.

O Dia da Partida

Não consigo perceber se amanhã será um bom dia. Não consigo porque fazem amanhã dois anos desde que partiste sem dizer água vai, água vem. Ainda não acredito que tiveste coragem para isso, eu aqui um rapaz novo, com tanto para dar, tanta energia e sentimento para gastar em tua dedicação e tu a ires assim embora, sem deixar um bilhete que dissesse:

       Volto amanhã,

ou um daqueles post-its amarelos, colado no frigorífico,

       Não sei quando volto

e eu até acho que me contentava com um “Não sei quando volto”, porque pelo menos sabia que voltavas.

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Já pensaste no que me fizeste? Não sei se reparaste mas deixaste um monte de camisas para passar e tu sempre soubeste que eu não sei passá-las. Quer dizer, saber até sei, mais vinco, menos vinco, a diferença não é muita, mas agora já não me dizem lá no banco:

       Que camisa bem engomada. Que mulher tão prendada,

porque eu agora não tenho mulher, nem a camisa bem engomada, nem sequer tenho vontade de ir trabalhar, nem sequer vou de estômago cheio. Estômago remendado talvez, cheio não, que a cozinha não é minha amiga e a torradeira insiste em queimar-me as torradas.

Não sei se amanhã vou conseguir olhar para o frigorífico e não ver lá o teu bilhete e a ter a certeza que voltas não sei quando, mas que voltas.

 Não consigo ver o calendário mental a marcar dois anos e a afixar na agenda “O Dia da Partida”, sem saber se vai existir “O Dia do Regresso”, se vou chegar a casa, olhar para o tapete da entrada e encontrar uma carta caída que diga que voltaste. Sim, algo que diga

 

– Voltei

uma simples palavra, recheada de significado para mim.

Quem me dera perceber se amanhã será um bom dia para nós e se o dia da chegada é melhor que o dia da partida. 

 

Queria eu escrever-te amor

Há momentos contigo que, simplesmente, não consigo esquecer. Ontem foi um desses momentos.

Todo o tempo que passo contigo representa felicidade e cada um fica gravado na minha memória de uma forma cada vez mais intensa. Ontem bastámo-nos a nós e um CD de David Fonseca, a casa por nossa conta e a descoberta dos nossos corpos, a cumplicidade nos movimentos. Serviu o meu calor e o teu, as minhas costas, a tua boca, o teu corpo, o teu pescoço. Somos um do outro.

Um amor não se escreve, não, o amor não se escreve, não se dita por palavras.

Love? Ain’t this enough?

Loucura

– Dorme meu amor, dorme que amanhã será um novo dia,gi_57436546.jpg

afirmava enquanto balouçava o berço em movimentos maternais.

– Dorme meu bebé,

repetia constantes vezes, sussurrando em tons cada vez mais baixos. Amélia agachava-se lentamente perante o berço, quase que abafando o seu leito. Passavam-se horas e continuava ela no seu murmúrio, ora sussurrando, ora aconchegando, ora balouçando.

– Dorme, dorme, a mamã está aqui. A mamã não vai deixar que te façam mais mal nenhum. Não te preocupes, dorme descansado,

e nisto desata num pranto lamurioso, como se de repente todo o mundo desabasse sobre si. Abana o berço a uma velocidade gradualmente maior, afastando todos os males existentes, num singelo empurrar do pé.

– Perdoas-me meu filho?

Questiona sufocada

– Algum dia me perdoarás? Meu bebé a mamã vai estar sempre do teu lado, vou-te proteger sempre.

Amélia prossegue toda a noite, admirando o berço, balouçando-o para um lado, para o outro, para um lado, para o outro, cadenciadamente.

A noite passa e a primeira luz da manhã invade a divisão onde Amélia se mantém debruçada sobre o berço.

– Dorme bebé, dorme,

continua lamuriando.

Uma mão apoia-se sobre o seu ombro e diz-lhe, ao ouvido:

– Anda Amélia, precisas de dormir,

enquanto a arrasta para fora do quarto. Antes de sair, o marido olha para o berço vazio.

– Amanhã limpo isto,

ainda a tempo de ver as paredes negras, já consumidas pelo fogo.

Cinco

O tempo avança inadvertidamente em compasso acelerado, de forma propositada, acredito. Presumo que se sente ansioso por sentir, por conseguir amar tanto, num curto espaço de tempo.

Cinco meses abrangem relativamente pouco tempo cronológico, mas neles está incluída uma vida que desejo que se prolongue para sempre. Finalmente descobri o que é o amor, confirmei que afinal ele existe e que é um sentimento totalmente diferente de qualquer outro.

Gosto de ti, sinto-me bem em amar-te, sei agora o que é a felicidade. Sabe-me bem passar os dias contigo, partilhar a mesma cama, sentindo o teu calor, o teu toque e o teu cheiro. Realmente devemos ter um complexo de histocompatibilidade muito diferente, para eu gostar tanto dos teus beijos, para eles me saberem de uma forma tão característica e singular.

Há momentos que gostava de eternizar e todos esses são passados contigo. Não imaginas a felicidade que sinto em partilhar o meu quotidiano contigo. Sim, assumo: isto é felicidade. Viver contigo é amar-te cada dia um bocadinho mais, é tornar-me dependente de cada sorriso e expressão tua, é acordar com um beijo teu, é levantar-me para trabalhar e ouvir-te pedir mimos ou para te abraçar mais.

Cinco meses são isto: felicidade extrema.

Cinco é o número que quero que se multiplique por meses, anos ou décadas.

 

Photo:// Ana & Tiago

Casamento

Quantas vezes dormimos em cima do assunto, tentando esquecer os problemas passados, tu de um lado da cama, de costas voltadas, a afastar o pé, com cara de menina amuada e eu de barriga para cima, a tentar digerir as palavras que disseste?

Tantos anos a suportar falhas, só porque te amava, só porque o amor que sentia por ti era superior.

– Não sei cozinhar

e eu tratava disso.

– Não sei passar a ferro

e eu tratava disso.

Não compreendo o que se passou, o que te fez mudar tanto, como o que conseguiste te esquecer do que fiz por ti, como fui o suporte do nosso casamento durante tantos anos, tu com as tuas saídas nocturnas constantes, bares com as tuas amigas, discotecas com os teus amigos e eu, com os filhos em casa, a tratar a varicela, a levar-lhes copos de água, a afugentar o papão do quarto deles.

Sempre tratei de tudo, tu acomodaste-te a esta vida fácil, sem compromissos, sem responsabilidades, casamento de bonecas.

– Não gosto de ir às compras

e eu tratava disso. Aprendi a conferir os preços, a escolher o melhor peixe e a carne sem nervos. Nunca reparaste que sempre comeste carne tenra? Ou também te esqueceste disso?

Quantas vezes passei noites sem dormir, a tentar justificar as tuas reacções, o teu niilismo e tu profundamente adormecida, sem ouvir o choro dos nossos filhos?

Sempre tratei de tudo.

– Não sei manter um casamento,

confessaste.

E eu tratei disso enquanto pude. Desculpa, mas não consigo mais tratar do casamento, dos filhos e de ti. Sobretudo de ti.

Eu trato de tudo. Eu trato do casamento, eu trato dos filhos

(como aliás sempre tratei),

não precisas de te preocupar

(como aliás nunca te preocupaste),

eu trato disso.

Os papéis, a casa, a comunhão de bens?

Eu trato.

Mudança

Olha-me mais uma vez, com olhos de ver, garanto-te que vais notar. Todos o notam, mudei meu amor, mudei por ti, mudei. Abre bem os olhos, repara em todos os locais em que não havias reparado e nos quais nunca quiseste notar. Ainda ontem me disseram que estava diferente,
– Não sei bem o que é,
mas garantiram-me que se notava,
– Vê-se a olhos vistos
e contudo não sei se reparas. Não sei sequer se queres notar que há qualquer coisa em mim que mudou.
A essência não mudou, essas coisas não se mudam assim, eu continuo a ser o mesmo rapaz, a acreditar praticamente nas mesmas coisas, a gostar dos mesmos pratos, a ler os mesmos livros, a tentar escrever o mesmo romance ideal. Mas há aqui qualquer coisa que mudou, isso é óbvio.
Alguém me perguntou
(e não me lembro ao certo quem)
– Cortaste o cabelo?

e porventura não cortei o cabelo, nem utilizei um champô diferente, nem
(na mais ridícula das hipóteses)
pintei o cabelo.
Mas garanto-te que mudaram coisas em mim, peço-te que percas tempo a tentar percebê-las, a notar que mudou o meu modo de ver, que agora vejo além do óbvio, que vejo em ti tudo o que quero viver e sentir.
Olha-me mais uma vez, com esses olhos que a terra há-de comer e diz-me se não vês nos meus, em letras bem gordas
(como num teleponto)
(ou como numa manchete)
(ou como num outdoor),
qualquer frase simples que te faça perceber que mudei e que é contigo que quero continuar a fazê-lo.

Photo by:// Gilad Benari