Monthly Archives: Março 2008

A Casa

A casa no mesmo local, a suspirar entre frestas do soalho, as chaves a tilintar à entrada, como se tivessem a certeza que ainda lá estavas. Deixo cair o casaco no corredor, à espera que venhas por trás, pegues nele e o arrumes. O frigorífico na chinfrineira desgraçada do costume, a dar de si de contente, a aguardar que o abras, que o uses como sempre, que bebas o leite magro num copo de vidro, que te sentes à beira do parapeito da janela a fumar o teu cigarro, de óculos escuros.
A tua pose costumeira, de mulher austera, com estranhas combinações de leite e tabaco, como se isso te intoxicasse menos e eu sentado à secretária, de caneta em riste, a rascunhar palavras sem sentido utilitário, sabendo que nunca as lerás.
A casa de portas escancaradas, a convidar-te à entrada, tu sem surgires de rompante, de mala no braço, ar apressado e em jeito de cochicho afirmares

– Esta vida cansa-me

e eu ainda de robe, com vício de escritor no pulso, sem sair de casa, rodeado de recargas de tinta permanente, borrões de tinta, papel de textura com cheiro a fresco.
A casa tenta resistir à tua ausência, com a tinta a suar farrapos de cor, a madeira a estalar certezas, de fechaduras não trancadas e eu ainda aqui, esperando que o tecto não venha abaixo e que um dia chegues e digas

– Afinal gosto de viver

e que, acima de tudo, isso seja verdade.

photo:// dcamacho © 2008

Dias sem ti é tempo demais

São muitos dias sem ti, muitas horas sem a tua presença física, muito tempo sem te poder abraçar ou beijar. Partiste há apenas quatro horas e dou por mim a pensar como aguentar a tua ausência. Preciso de ti, custa-me respirar sem ti ao meu lado, sem o teu colo ou aconchego.
Olho para os post-it que espalhaste pelo nosso quarto, agarro-me a um deles que ainda detém o teu perfume e acho que se fizer muito esforço, consigo-te sentir por estes lados. Saudades do teu toque, das tuas palavras e das tuas mãos que, nos últimos dias, me têm amparado as lágrimas. São problemas a mais para uma pessoa só aguentar, sem ti acho que a sensação de peso aumenta, o medo de ficar sem ti ainda mais…
Valem-me as recordações, a nossa cama, a tua almofada, o teu lado. O CD a tocar e os primeiros acordes de “My Lovely Mirror”, a memória do que te escrevi no ínicio e a certeza que tudo isso foi superior ao imaginado. Desejo-te mais do que pensei que conseguiria, quero que os anos se prolonguem e sentir-te sempre do meu lado. Disseste-me há uns dias “És o lugar onde me sinto melhor” e fascina-me essa capacidade de compreeenderes também, tal como eu, o que é ser mais que um ser, sendo capaz de ser também um local, um tempo, uma emoção.
Quero-te a ti, que o dois mil e doze chegue, que a vivência conjunta aumente e que os nossos filhos tenham o teu nariz e o teu sorriso. Quero-te aqui, a ocupar o teu lado da cama, a roubares-me o lençol, a tocares-me, em vez de eu ocupar o teu espaço e a ensopar a tua almofada.
Dias sem ti é tempo demais, “cus I’ve got this dream, a heart that beats outside this silent world and I’ve got you…

Onde estás?

Onde estás? Por onde ficaste que não te vejo, por que ruas sem nome te perdeste? Deixa-me pistas a recordar as tuas paragens e andanças, notas com os locais por onde passaste sem lá ficares, rotas que traçaste e não chegaste a cruzar.
img_4518.jpg   Não sei se sabes, mas pouco mudou por aqui, o soalho da casa mantém os mesmos buracos e ranger, sem sequer que tu passes por ele. Abri um livro de cozinha a semana passada, acreditas que mantém o teu cheiro? Cada página, o mesmo aroma a ti, a mesma lembrança das noites passadas em invenções culinárias, a misturar ingredientes, a obter combinações diferentes de sabor.
O mesmo disco insiste em tocar no mesmo sentido, libertando a mesma lembrança de sempre, o teu corpo, os teus contornos de suavidade extrema que insistem em invadir a minha mente.
Diz-me por favor, por que locais vagueias sem deixar rasto, por que espaços te moves sem me avisares, por que partiste sem avisar? Deixa-me ao menos, um recado escrito a lápis, cujo passado pode apagar…

photo:// tiagoramos ©  2008

Seis

fotografia-53.jpgQuando descobrires onde deixaste o meu coração, avisa. Há seis meses que não o encontro, há seis meses que ele já não reside em mim, parece que anda por aí, fixo a outra parte de mim.
Quando perceberes como conquistaste o meu amor, responde. Há seis meses que não encontro explicação para aquilo que sinto, parece que não há razão que o demonstre.
Quando entenderes porque caí de amores por ti, olha-me nos olhos e explica-me com calma. Há seis meses que ando de cabeça nas nuvens, já que a felicidade anda algures por aí.
Quando todas as noites me deitar, deita-te também ao pé de mim. Há seis meses que sonhava que esse momento acontecesse e agora vejo que é melhor do que julguei.
Quando daqui a mais seis meses ou mais seis anos ou mais seis décadas olhares para o lado e me vires a mim, saberás que o amor que sinto é maior ainda.

Por favor, explica-me como é possível amar assim tanto alguém.
Amo-te.

Please, leave a message today

 

Estou Luís, estás aí, ouves-me bem ou queres que fale mais alto, a voz está muito baixa? Estou? Há duas semanas que tento ligar-te, sempre o teu atendedor, sempre a mesma senhora “deixe mensagem após o sinal”
Piii
e eu espero o sinal, o tal
Piii
e deixo mensagem, peço-te que quando a ouvires me ligues e tu não me ligas. Por favor Luís, não permitas que a senhora “deixe mensagem após o sinal” e o seu
Piii
se interponham entre nós, não delegues para eles a solução dos nossos problemas, a acção que teremos de tomar, o que faremos da nossa vida um sem o outro.
Estou Luís, responde-me se por aí estiveres, sei que estás sentado algures nas escadas, de mãos nos bolsos e olhos fixos no nada, acorda para a vida, responde-me.
Quantas vezes tu não me responderes, quantas vezes te ligarei. Não sou mulher de ficar parada, não consigo desistir de ti. Queres que o faça? Então por favor, Luís, não me fujas. Não fujas de mim. Logo ligo-te outra vez. Adeus.

– Estou Luísa, estou? Se a felicidade está ao pé de ti, para onde hei-de eu fugir?

“Deixe mensagem após o sinal”
Piii.