Monthly Archives: Maio 2008

Vermute – II

Levanto-me com aquela cara de sono a que já te acostumaste. Olhos miudinhos, raciocínio fraco.

– Fazes-me um café?,

sinto-me tentado a perguntar. Mas antes que o pergunte, já sei que não o fazes.  Ris-te daquela forma descarada a que já me acostumei.

És desleixada, eu sei. Sempre o foste. Raras vezes te vi de vestido ou maquilhada. Raras vezes te vi aperaltada, raras vezes te vi bonita. No entanto, continuei a gostar de ti. Ris-te de forma descarada e isso agrada-me.

Não sei quantas noites já passámos juntos, mas sei que ocupas sempre o melhor lado da cama, que me roubas os lençóis, que passo toda a noite acordado e cheio de frio. Gosto de ti, sabes? Gosto de ti egoísta, gosto de ti quando só pensas nos teus desejos, gosto de ti quando me ignoras dias a fio.

Acho que precisas de alguém que cuide de ti. Alguém que te aperte o tubo da pasta de dentes, alguém que apanhe as migalhas da cama, quando resolves comer bolachas a meio da noite.

Não percebo como voltámos ao mesmo, estás diferente agora. Nunca imaginei ver-te de vestido vermelho, a traçar a perna, copo de vermute na mão, a rires-te ainda mais descaradamente. Mulher estonteante, eu de cigarro na boca, a pender, a enlouquecer e tu ali a beber o teu vermute.

– Não, não. Não nos conhecemos. Nunca te vi. Mas sim, estaria disposto a conhecer-te. Paulo, muito prazer.

e rio-me de forma descarada.

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Vermute – I

Foi bom. A sério, acredita que foi realmente extasiante. Nunca julguei que te fosse encontrar no café, precisamente àquela hora, numa tarde soalheira, de vestido vermelho, perna traçada, a saborear um vermute seco.

Eu chego, de cigarro no canto da boca, distraído com a cadência da rua, de casaco ao ombro, a admirar-te, mulher vistosa. Distraio-me, não percebo que és tu, que és a mesma Luísa de antigamente, aquela que se vestia de forma desportiva, a que fumava cigarros de manhã, em jejum, a desleixada.

Piscas-me o olho de forma descarada, não sei se me conheceste ou se pensavas em engatar mais um homem bem-parecido. Pisco-te de volta, com um sorriso entre dentes, como um garoto envergonhado.

– Outro vermute para aquela menina.

E tu convidas-me a sentar naquela mesa, sorris-me descarada, piscas-me o olho descarada e apresentas-te descarada:

– Luísa. Não nos conhecemos já de algum lado?

E o meu sorriso é envergonhado, não sei o que te hei-de responder, não sei se te lembras que vivemos juntos cinco anos, que partilhámos a mesma casa-de-banho, a pasta de dentes também

(a escova de dentes, não.)

e que cozinhámos no mesmo espaço.

– Paulo.

E esqueço-me de dizer mais algumas palavras, basta-te o meu nome a ver se me conheces, a ver se tens reacção, se levantas o sobrolho ao menos, em jeito de espanto.

– Parece-me que te conheço…

E ris-te de forma descarada à espera de uma resposta minha.