Monthly Archives: Setembro 2008

O Casamento a Três – I

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No fim de contas, há coisas que devíamos pôr em pratos limpos, há arestas por limar e coisas por mudar. Por exemplo, aquele quadro ali à entrada. Aquilo não é um quadro, é um quadrado, nem arte é, talvez um mamarracho que me ocupa a parede do hall, nunca tiveste grande sentido estético, é verdade. Eu sei que foi a tua mãe que to deu. Já estou a imaginar a cara dela, da sogrinha, com ar de quem sabe tudo

– Ficava tão bem

com olhinhos de carneiro mal-morto, lágrimas de crocodilo e tu, como quem não quer deixar triste a mãe que te cuida dos filhos, lá cedeste.

Essa é outra coisa, que havíamos de mudar. As idas da tua mãe cá a casa, o ar dela de quem sabe tudo, a dizer

– Podias ajudar mais em casa, João

e a mandar levantar os pés, enquanto aspira a alcatifa da sala, mesmo durante os jogos do mundial e os jogos do euro e os jogos olímpicos e os jogos do campeonato nacional e os jogos do campeonato distrital e os jogos da liga de honra e os jogos da taça. Estou farto dos jogos da tua mãe. Sempre a dizer-te

– Deixa-o, minha filha

e tu, lá a tentares explicar que até gostas de mim assim, que é esse o teu conceito de lar, que gostas de ser dona de casa, cansada da vida de empresária que já levaste e ela a rosnar

– Ele não te traz futuro nenhum, filha

e ela com ar de sabe tudo, com olhinhos de carneiro mal-morto, lágrimas de crocodilo e tu quase a ceder.

O Outro Lado – II

O silêncio. Aquele que persiste em habitar esta sala, este quarto, esta casa. nullO silêncio abafado do mofo que insiste em perseguir. A casa quieta. Olho para o outro lado das coisas, o infinito de algo, a transposição dos factos e dos objectos de sempre, com a esperança que a visão tenha mais alcance que o coração. Sim, ainda aguardo por ti, que desças imponentemente a escadaria de madeira velha, carcomida pelo bicho, afectada pelo tempo.

E contudo, espero deste lado. Do lado do tempo imóvel, onde nada se move, tudo se estagna e fico a olhar para o outro lado, com ânsias de que surjas com esse sorriso no olhar, com a tua capacidade de argumentação intocável.

– De onde virás?

Fico à espera deste lado do Mundo, à espera das tuas acções implacáveis, das tuas certezas incontornáveis, dos teus pareceres eternos. Eu não sei muitas coisas. Continuo à espera todas as manhãs, a fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo.