Monthly Archives: Abril 2013

O dia

Tenho medo do dia. Do sol, da luz, das pessoas atarefadas na rua, a calcorrear as ruas, formigas, imparáveis, cansadas, fatigadas. Tenho medo do dia. E tenho medo do dia em que chegue a casa e não estejas mais, que te tenhas ido, que tenhas deixado meia dúzia de coisas para trás, uma coisa ali, outra acolá, esquecimentos normais de quem se muda, de quem perde caixas, berloques por ali, um gancho no chão, uma fotografia caída. Em que abra o frigorífico e faltem as tuas coisas do costume, os teus gostos, a tua personalidade ali numa qualquer prateleira a precisar de ser lavada. Tenho medo do dia em que me ligues, passados meses, anos quem sabe e digas

– Querer ir tomar um café?

E eu surpreso por tomares café, eu a deixá-lo porque me deixa a mim mais nervoso, tu a bebê-lo porque agora tens novos hábitos, novas rotinas, uma outra vida. Uma vida a dois, a outros dois, tu e outro, não tu e eu, como sempre foi, como sempre pensava que seria e tu olhares para mim e dizeres

– Então e tu?

E eu a pensar, então e eu? que raio é isto, eu a olhar para ti a mexeres o açúcar no café, eu a brincar com o pacote vazio, então e eu, e sem saber te responder, porque eu sou eu, mas sem ti sou diferente. Eu sou eu.

– Então e eu?

E a mesma dúvida, e eu. Eu? Sem ti, sou eu, mas não sou eu, sou eu sem ti e não gosto disso. E sou eu, sozinho. Sozinho porque não esperei por ti, porque sabia que não tinha o direito de esperar, porque sabia que não ias mais voltar, porque sabia que tu querias outra vida, experimentar o que não conseguiste, ganhar o que não te soube dar. Então e eu, sou eu. Sozinho, eu. Sozinho porque quis, porque não deixei nunca de te amar.

– Então e eu? Deixei de beber café.

Anúncios

É sempre nas maiores tempestades interiores que este é o meu maior porto de abrigo.

Repito o que escrevi há muito tempo atrás: «É sempre nas maiores tempestades interiores que este é o meu maior porto de abrigo». Volto aqui por isso mesmo, porque tenho que aprender a viver no meio de uma tempestade interior, que me consome. Uma dor que não desaparece, um sentimento de culpa, de perda e de saudade. Que não falei quando devia, que não agi quando devia. Que não disse sempre o que era preciso, sem ser tarde demais. É tarde demais porque perdi o meu mundo e nunca o vou recuperar. E por isso digo «É sempre nas maiores tempestades interiores que este é o meu maior porto de abrigo».

Quando daqui desaparecer outra vez, essa será uma boa notícia.