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Actress – Parte Dois

Contudo, não passou de um fogo-fátuo, de um artifício da carne, uma passagem temporal por terras de ninguém e no dia seguinte nem sequer ligaste. Esperava um telefonema teu, sabias? Qualquer coisa do género:

– Obrigado por me descobrires.

Ou um simples:

– Beijos, meu Indiana.

 Não o fizeste. Talvez compreenda. Não gostas que te prendam, muito menos que digam que és uma boneca pincelada. A verdade é que nunca mais consegui mexer em toalhetes desmaquilhantes, nem desmaquilhante daqueles em frasco, nem acetonas – fujo da secção de cosmética nos supermercados. Escondo-me de vestidos com fecho éclair, um zipper qualquer incomoda-me. Gostavas que as memórias se pudessem desmaquilhar, ocultar aquelas cores brilhantes ou fechá-las dentro de algo, sem fecho éclair.

Contudo, passas todos os dias de manhã cedo, ao largo do meu apartamento. Julgo que já me viste há uns dias, mas continuas a correr como se nada fosse, de headphones na cabeça. Não és nova, mas és moderna – quem diria que alguém como tu usaria desses aparelhos e faria jogging? Gostas do novo. Corres por aqui, mas não acenas. Ouvi dizer que encontraste um homem que gosta de ti maquilhada. Mais novo que tu também, não tanto como eu, com vinte e cinco, tu com cinquenta. Gostas deles bem novos, não? E por quê? Fazem-te sentir feliz, mais capacitada, mais realizada? Preenchem-te as falhas, esclarecem-te as dúvidas?

Não és nova, não o esqueço. Continuas a correr ao longo da estrada, sempre ao largo do meu apartamento, por baixo da minha varanda. Vou envelhecendo, ganho rugas e anseio o dia em que me naveguem pela pele novamente.

[Concluído em palavras em aberto]

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Actress – Parte Um

Quando saías à noite transformavas-te. Abusavas da maquilhagem e dos acessórios. Disse-te um dia que parecias uma boneca de porcelana, cheia de pinturas. Aborreceste-te, ficaste triste, pensavas que eu adorava. Emudeceste durante uns minutos, fixaste o olhar em mim, pegaste num toalhete desmaquilhante e sussurraste:

– Descobre-me.

E eu parti à descoberta de ti, da tua outra beleza, da natural, daquela com que nasceste, que a genética permitiu que tivesses. Eu e o toalhete desmaquilhante.

Não és nova e fui descobrindo isso à medida que te limpava a base e a sombra do rosto. Toquei-te com a ponta dos dedos em cada ruga, em cada imperfeição e descobri novas rotas, novos caminhos nunca antes navegados. Aborrecem-me peles demasiado novas, sem nada para desvendar, sem marcas de outras passagens, de outras recordações ou toques. E tu não és isso, és tudo. Tens vida na pele, tens mapas de viagens, cicatrizes, pontos: tens um manual da tua história na pele. Escondias tudo com a maquilhagem e não era o mesmo. Tornas-te mais natural assim.

Começaste a despir-te. Viraste-te e pediste que te abrisse o fecho do vestido, como se quisesses que descobrisse outras partes que ninguém desvendou ainda. Prendeste o cabelo num rabo de cavalo e com as mãos frias tacteei o pescoço, baixaste as alças e abri o fecho. Beijo as orelhas. Fetiche talvez. As tuas são perfeitas, singelas, quentes. Saboreio-te os lóbulos e ficas em êxtase. Beijamo-nos de olhos abertos, já reparaste? Gosto de te ver as reacções, as expressões, ver-te as pregas da pele moverem-se em diferentes direcções. Partimos à descoberta de nós, dos interiores escondidos, sentimos o dentro, a profundidade sem precisar de um guia. Afinal, a descoberta aventureira, típica de um Indiana Jones, é a ideal. Caminha-se por rotas não definidas e o prazer, esse é o do desconhecido.

[Continua em palavras de conclusão]

*photo://whywhat