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O Outro Lado do Branco

Há um prado, tipo pasto, perto da cidade. É incomum, mas ele lá está. Não é verde, que verde já pouco existe desde a seca, mas é amarelado, um montão de cardos, tufos de ervas, abrolhos e tocas crivadas de sardões e afins. Não é bonito, é a parte marginal da cidade, a que ninguém conta, a que não se revela.

Os pretos lá chegam por meio de cargueiros que passam pelo rio. Vêm da Somália, Etiópia, São Tomé, com esperança pela frente, miséria por trás. Chegam sem pertences, sem forças, mas com maleitas, hematomas, eczemas e escorbuto. Pobres de espírito, fracos de corpo. No terreno baldio, montam barracas e convivem com os ciganos. Junto ao espaço ouve-se o de sempre, os gritos das crianças que com a cara e tudo o resto por lavar, correm descalços. Os seus maiores companheiros são o tétano e a insalubridade, os pregos com as pontas voltadas para cima e os esgotos dos curtumes a olhos vistos, derramando doenças.

Não são maus os ciganos, são de costumes e tradições. Vivem ali porque gostam. Convivem entre antenas de televisão e canos de esgotos que vêm da parte rica da cidade, mas vive-se também entre os cantares, o flamenco espanhol e o folclore romeno, entre as violas, as guitarras e as pandeiretas. São alegres, mais que os pretos, mas vivem ambos na parte reles da cidade. As barracas aparentam ser brancas também, mas a única cal que as acompanha está a cair em pedaços de velha e a parte mais branca é ilusória, a do sol reflectido nas chapas de zinco.

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Branco Caiado

A cidade é branca, as paredes das casas caiadas e as gentes sentadas num qualquer banco daqueles de jardim, trocando vidas em palavras cuspidas, como cospem cascas de tremoços. É uma cidade como outra qualquer, mas daquelas pequenas e amistosas dos tempos de antigamente.

O senhor da mercearia ainda é o mesmo, o senhor Joaquim, o que ainda vende o arroz e o grão a granel e que me dava rebuçados. Tira um ou dois, dizia. A mercearia é a de sempre, empoeirada talvez, mas as frutas são frescas de aroma doce, frutado. As maçãs são apanhadas pelo cunhado no quintal. São sãs, as pobrezinhas. Têm uma mossa ali, ligeiramente pisado do outro lado, um bicho acolá, a lagarta da terra, mas são doces e sumarentas. O melão é o de casca verde, não é perfeito, caiu e tem um golpe, mas não deixa de ser açucarado, aquele do qual se comem duas talhadas à entrada de casa e se deitam as sementes para o solo. O senhor Joaquim esse que ainda agarra uma vara para pescar os produtos que estão na prateleira de cima, o mesmo que recebe a correspondência do vizinho, do amigo, da rua.

E do outro lado, a barbearia. O cheiro ainda é o mesmo, o dos pincéis, do sabão amarelo, da espuma com que o Manel apara os bigodes do clientes. O som também é familiar, o das tesouras e das navalhas, a telefonia que toca os últimos êxitos da Amália, as notícias das colónias e por trás, o burburinho dos homens que comentam o jogo ou que entre charutos, de cheiro a cravinho, folheiam o jornal regional ou o Borda d’Água, procurando festas, feiras móveis ou o melhor mês para o feijão verde.

As mulheres ainda são as mesmas, as de avental, que trocam açúcar pela casa da vizinha e que deixam queimar o feijão do almoço. O cheiro que passa pelas ruas é o do refogado, o do bom vinho tinto, encorpado, grosso, o cheiro da alheira a rebentar de sabor e o das couves cozidas com bicarbonato.

Nas bicicletas montam os mesmos putos, dos suspensórios, dos calções verde-seco e que jogam com sacos cheios de berlindes e bestas, nas poças secas pelo calor. O pó que lhe suja a camisa branca, curtida ao sol nas pedras, depois de lavada, ainda é o da terra vermelha e barrenta.

Os badalos continuam iguais, apregoando os mortos, as missas, os noivos. E o padre é o de barbas, o do costume, da batina preta e do pouco sorriso.

No mercado ainda se ouvem os pregões, os vendedores de flores, as varinas e os clientes, os que gritam, os que pechincham, os que pedem fiado e pagam no fim do mês. O vento sopra à mesma, aquele que gela a cantelheira e a faz arrepiar e dar um gritinho oco.

O rio ainda lá está, a entrar para o mar e os pescadores de lá partem, sete meses no alto-mar e as mulheres cá, de coração nas mãos e mãos no regaço, cujos filhos lhes puxam a saia e lhes pedem pão. E elas continuam a ser as mães e os pais, as que penam para lhe dar de comer e que choram lágrimas das viagens além.

A cidade lá continua, à beira-rio, caiada pelo sol e pela cal branca translúcida que timidamente dá colorido às vidas que nela habitam.