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Esta noite esquece que me viste nascer – III

Enquanto as lágrimas silenciosas teimavam em afagar o ar, aproximava-me dela. O coração batia ritmado, ao mesmo ritmo do esfregão e a respiração era cada vez mais ofegante, à medida que me aproximava do seu pescoço. Eu aproximo-me, ela esfrega a panela. Ela esfrega a panela e eu aproximo-me, tudo isto numa cadência contínua, aproximação, esfregão, aproximação, esfregão. E quando já não havia mais panela para esfregar, quando os dedos se começaram a gastar e já não havia mais caminho para palmilhar, já não havia mais distância, já só havia eu e ela, na mesma cozinha, em frente ao mesmo balcão, ao mesmo lava-louças, ao mesmo esfregão, vigiados pela máquina de lavar silenciosa, parei. E a diferença entre nós não era nenhuma, eram somente dois corpos, duas peles, duas almas, duas bocas que se aproximavam ao ritmo de um coração que teimava em não se entregar. Sinto-lhe a respiração, aquece-me a face,
– Pára
diz-me, sem se afastar sequer.
– Se é mesmo o que queres, resiste
tratando-a subitamente por tu, sussurrei-lhe ao ouvido e a respiração aumentou ainda mais. Ela não respondeu, talvez porque se achou fraca demais para atender à minha ordem. Principiei em beijar-lhe o pescoço, em tocar-lhe com as mãos nas costas, em definir-lhe todo o corpo ao ritmo de um só toque, enquanto que ela se entregou aos meus beijos de volúpia. Despiu-me a camisola, beijava-me cada vez com mais intensidade, a sua face era agora a da loucura
(afinal a loucura precipita-se sempre)
e eu peguei-a ao colo, da mesma forma que faria se portasse um tesouro precioso. Pus o seu delicado corpo de encontro à mesa da cozinha, a mesma em que tantas vezes ela me havia ensinado a cozinhar,
– Tens de fazer-te um homem, Joãozinho
e aqui estava eu, a fazer-me um homem, a fazê-la uma mulher. Dispo-lhe a camisola, abro-lhe os colchetes
– Para o lado esquerdo,
murmurou. Mas ao mesmo tempo que dizia
– Para o lado esquerdo
disse também
– Pára.
E eu não parei, não parei porque o corpo já não me obedecia mais, porque já não tinhas forças para impedir que a amasse, que suasse junto dela, como um homem, como poucos.
– Se é mesmo o que queres, resiste
e o
– Resiste
ecoou pelos azulejos da cozinha, como um estímulo para que ela me parasse o crescimento, para que eu não me fizesse um homem, para que continuasse a ser o mesmo afilhado, o mesmo miúdo, como poucos. E não conseguiu resistir, não resistiu à maciez do corpo do miúdo, não resistiu às mãos que a despiam de preconceitos, não resistiu simplesmente. Fomo-nos deixando levar pela loucura
(afinal a loucura precipita-se sempre)
e agora estávamos junto à máquina, ela parada e nós avançávamos, e a máquina parada, sem se mover, sem se inundar, sem centrifugar, sem lavar e nós sem parar, a inundarmo-nos, a centrifugarmo-nos, a lavarmo-nos de preconceitos. E quando um encontrão mais forte, pôs a máquina a lavar de novo, ela gritou
– Pára, eu conheço-te desde sempre.
Eu não parei, invadi-a precipitadamente
(afinal a loucura precipita-se sempre),
deixei-a louca, deixei que ela caísse nos meus braços, braços que já não eram de miúdo, eram braços de homem que a tomavam como mulher. E mesmo sabendo que não passaria daquela noite, que amanhã estaria eu sozinho, encostado à máquina e ela de esfregão em punho, a lavar a louça em silêncio, deixei-me levar pelo momento, beijando-a e tomando-a como minha. Fundimo-nos num só, eu um homem, ela uma mulher, deixando de nos diferenciar durante minutos e, num último gemido, dirigi-me ao seu ouvido de mansinho e disse
– Esta noite esquece que me viste nascer
e caímos ambos num estado de paixão temporário, o mesmo tempo que demora uma máquina de lavar em funcionamento.

Esta noite esquece que me viste nascer – II

Não me recordo bem a primeira vez que pensei que era ela a tal, uma mulher bonita e interessante, que a queria comigo sempre. Recordo-me dela frequentemente em nossa casa, a melhor amiga da minha mãe, a minha madrinha. Ria-se muito, a bandeiras despregadas, com as minhas brincadeiras de criança e despenteava-me os cabelos em jeito de troça. Tornou-se a minha confidente, contava-lhe as conquistas da adolescência, os amores e desamores, mas lá para os dezanove anos, tornou-se alvo das minhas próprias conquistas. Acho que a princípio ela não reparou ou não quis notar, porque isso lhe seria demais incómodo, porque lhe seria prejudicial em tudo na vida e eu também nunca tive coragem de ser directo, achando que era uma idiotice da minha parte. A verdade é que isto me foi crescendo, tipo cancro que vai ratando o corpo, assim era ela, crescendo e dominando o meu. Pensei em escrever-lhe uma carta, mas acho que nunca fui muito dado às letras e talvez ela pensasse que eu era imaturo demais para assumir aquilo que sentia. Afinal uma carta é sempre demasiado infantil, sempre à espera que seja a outra pessoa a incumbir-se das responsabilidades, quase esperando que ela assine de cruz, um sim ou um não vincado no papel branco. Depois decidi-me por lhe falar cara a cara, mesmo que a dela estivesse tão próxima que desse para sentir o seu perfume ou a sua respiração trémula. E foi hoje.
– Tenho uma coisa para lhe dizer
disse de forma despreocupada, como que minimizando os factos. E ela também despreocupadamente, continuou o que tinha a fazer, à espera de uma resposta de esfregão em punho. Gerou-se um silêncio, o meu de timidez, o dela de espera,
– Então? Diz lá que não tenho a tarde toda
ripostou de forma despreocupada, como sempre.
– Acho que me esqueci…
– Não me venhas com tangas, João! Diz lá o que queres de uma vez por todas,

perdendo a paciência, que anteriormente sempre fora muita. Não estava nos seus melhores dias, pareceu-me incomodada comigo, não percebi porquê, como se fosse costume eu perceber alguma coisa sequer da vida e de mulheres.
E numa súbita dose de loucura precipitada
(afinal a loucura precipita-se sempre),
quase que gritei
– Quero-a a si.
– Queres o quê? Agora a sério, tenho pouco tempo, tenho de acabar esta louça e fazer um bolo que a tua mãe me pediu para os anos do teu primo.

Achei que era altura de me calar, perdi a coragem repentinamente, tive vontade de me enfiar dentro da máquina de lavar e andar ali à roda, a ser espremido, a ser enxaguado, ainda em pré-lavagem. Mas não querendo perder a minha masculinidade, disse de novo, desta vez baixinho
– Quero-a si, quero-a comigo, sempre
Mas nem sei se ela percebeu à primeira, se fui abafado pelo barulho da máquina ou se era o afinco com que esfregava a panela da sopa que a impedia ou se quis nem perceber. Não sei, não faço ideia alguma, como é costume algum. Senti-me a fraquejar, de aperto no coração, cheio de dúvidas, sem saber se havia de repetir ou calar-me para sempre, de atirar as palavras ao rio dentro de um saco e afogá-las como se faz com os gatos.
– És um miúdo como poucos
respondeu-me algum tempo depois. E, ao ouvi-la, caiu-me uma lágrima no silêncio, de tal modo que ressoou como se o vácuo fosse aqui.

Esta noite esquece que me viste nascer – I

– És um miúdo como poucos
disse-me. E, ao ouvi-la, caiu-me uma lágrima no silêncio, de tal modo que ressoou como se o vácuo fosse aqui. Olhei-a, como poucos, e senti que era esta a mulher que queria para me acompanhar durante toda a vida. Observava-lhe os traços perfeitos, digno de um projecto artístico, e o ar maduro e culto, enquanto o seu semblante se adensava num profundo lamento. Quase que me senti tentado a beijar-lhe os lábios como num sopro invisível, como se fosse inaudível para simples humanos e, no mesmo instante, contive-me. Contive-me porque lhe detectei uma intensa relutância, qualquer coisa que a detivesse, como uma barreira que a impedia de saltar, dada a sua altura.
– És um miúdo como poucos
repetiu-me. E eu, sem perceber o que isto era, o que isto significava, se isto significava algo sequer, desfazia-me em lágrimas não visíveis, daquelas que escorrem por debaixo da pele, como sangue grosso, escorrendo a grosso modo.
– És um miúdo como poucos
intensificou. E parecia que queria dizer mais, que as veias lhe gritavam palavras que não se ouviam, nem se diziam. Olhei-a de novo, finquei-lhe a vista, não a larguei mais e ela completou:
– Mas és apenas isso, um miúdo.
E eu, sem perceber, sem permitir que as palavras ficassem conscientes, abri muito os olhos,
– Como?
interrogando da mesma forma que quem tivesse ouvido um som que afinal não se ouvia.
– És um miúdo, tens mais de metade da minha idade.
Não consegui perceber se era não interesse dela, se era medo, se era inexactidão de palavras, um não redondo ou um talvez bicudo demais para se resolver aqui, em frente a uma máquina de lavar em funcionamento. A máquina parou e eu também. Ela continuou em silêncio, a lavar a louça afincadamente, de palha de aço em riste, de detergente apontado a um prato e quase que fazia pontaria como se quisesse matar um fantasma que a perseguia. E num relance mais aberto quase julguei ver-lhe uma lágrima cair-lhe também, silenciosamente.