Category Archives: Ficção

O Silêncio (IV)

Se pudesses sequer perceber o mais profundo estado de ansiedade em que me deixaste, talvez as coisas não tivessem seguido este rumo. Sei que fugi de ti, peguei nas malas e parti, ainda deixei alguma roupa no armário, um par ou dois de sapatos ainda ficaram por arrumar, mas fugi. Fugi porque não aguentava mais o silêncio, a dor que me perscrutava diariamente por o meu Amor não ser correspondido, por olhar para ti e não te poder tocar, porque de ti não havia nunca essa permissão, porque no final de contas o que tinhas sentido por mim já havia passado e nunca surgiria de novo. E eu fugi. Fugi, como é costume, porque julguei que estar longe de ti me curaria a dor. E sabes que mais?

– Não cura

Não cura, nem vai curar. Não sara, porque a ferida é profunda. E agora quem partiu foste tu, deitaste fora os pedaços de mim que ainda existiam na nossa casa, talvez um par ou dois de sapatos que atiraste da janela, um casaco ou um top pelas escadas abaixo. E fugiste de mim, fugiste porque não me queres, porque sou velha, porque cometi erros, porque não gostas de mim. E nunca mais me vais voltar.

E sabes que mais?

– Não cura, não cura. A dor é grande demais. Assim como o silêncio.

O Silêncio (III)

Na verdade o que é a tristeza se não a mais pura das constatações? Nunca gostaste de mim afinal, enganaste-me e eu aqui feita parva – que se fodam as palavras bonitas – eu aqui feita a mais pura ignóbil das mulheres por acreditar que o silêncio era mais do que isso. O silêncio. O silêncio é a ignorância e eu aceito-o com a mais encantadora estupidez de quem ama quem não deve.

Se me perguntares

Ainda me amas?

Vou acabar por responder em silêncio.

O Silêncio (II)

Se este não é o estado  sentimental mais parecido com o Amor em que poderemos vir a estar, não sei o que será. Não sei o que me faria de outra forma, renegar-me tão abnegadamente dos meus mais profundos valores. Porque nada mais interessa se não te posso ter a meu lado. Porque nada mais interessa se eu para ti nada sou. Se nada sou e tudo me és, de que me vale continuar por aqui.

Pergunto-te

Ainda me amas?

E a resposta é o mais dilacerante silêncio, como se a verdade fosse forte demais para eu suportar ouvir. Nunca me responderás a essa pergunta e eu continuarei sempre aqui na mais densa tristeza.

O Silêncio (I)

Perguntei-te, assim como quem não quer a coisa e como que não consegue ficar mais calada:

Ainda me amas?

e o silêncio apoderou-se de ti, como a vontade de falar se apoderou de mim:

Diz-me o que ainda sentes por mim, preciso de ouvir da tua boca.

E o silêncio interpôs-se entre nós. Porque provavelmente desististe de nós, como quem desiste de usar camisolas de gola alta porque incomodam, porque sufocam e ai que calor! e porque eras obrigado a usá-las em crianças e criaste uma resistência. Eu sei que as minhas palavras não são as melhores, a minha rima ainda não é suficientemente boa, a minha língua e o meu cérebro ainda agora se conheceram e não são muito amigos. Mas eu insisti e pergunto

Ainda me amas?

O silêncio é sempre o que ouço.

Rolleiflex

– Não sei de que mundo venho

disse ela. E tornou num desfiar de vida, no seu olhar vivo do mundo, na sua intenção de olhar o constante de uma outra forma que não com olhos de ver. Porque os olhos não servem apenas para ver. Para ela os olhos servem para sentir, para observar para além do que o cristalino permite, para penetrar profundamente na verdadeira constituição das coisas. E tornou em olhar pela janela e observar os prédios como quem fotografa. E pega na sua Rolleiflex e fotografa de dia com flash.

– O sujeito é mais importante que a fotografia

disse ela. E para ela assim o era, não lhe importava o exterior. As pessoas deviam andar despidas, porque assim ficamos mais perto de lhes ler o interior. Olhava o mundo como se não lhe pertencesse e conseguia ver beleza onde os outros não viam. Vê beleza na destruição, na miséria e na pobreza. Porque ela sabe que a sua máquina vê o que os outros não querem ver.

– Não sou deste mundo,

disse ela. E não o quer ser, porque este mundo não é dela, mas sim dos outros. E com olhos de alienígena, sim porque ela é estranha a este mundo, a este olhar humano e fraco, sim com olhos de alienígena ela vê o interior. E mesmo o mais negro, é bonito.

O Abandono

Hás-de me explicar por que me afastei de ti. Sim, explica-me por que razão não pus cá mais os pés, por que deixei de pôr os pontos nos is, por que aqui já não é mais o meu lar, por que mi casa no es tu casa. Diz-me quais foram os motivos que levaram à nossa separação, por que é que as minhas letras já não se cruzam com as tuas, por que razão a nossa sintaxe entra em conflito.

Fugi de ti há mais de um ano. Regressei pontualmente como quem não tinha mais nada que fazer, como quem não suportava não ver nada de novo. A ausência de novidades amedronta-me. Não sei mais o que te escrever, não sei que elos nos unem, não sei que cabos se cruzam por nós. Há qualquer coisa aqui que já não é meu, que diz respeito a algo que já foi e não será mais, palavras que já não me caem no goto, frases que me gelam a cabeça.

Diz-me porque razão já não me dizes nada. Por que será que aquilo que me fazias sentir, já não me fazes. Diz-me, explica-me todas as razões, o porquê da minha ausência

(será que quer dizer alguma coisa?)

o porquê de já não sermos uma dupla, um casal alternativo das letras. Diz-me porque já não trocamos mais que uns meros olhares, uns meros vislumbres de textos já passados.

Não sei se consigo voltar a ti. Não sei se as minhas letras passarão de novo por este espaço branco. Não sei se chamarei abandono a isto, como diria Amália. Nem sei se ao menos ouves o vento, se ao menos ouves o mar.

Quanto.

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Quanto de mim pode estar aqui, contido nesta caixa? Quanto de nós pode caber na palma da minha mão? Quantas lembranças podem coexistir simultaneamente na nossa mente? Sim, quanto? O que se pode medir?

Diz-me. As lembranças são mensuráveis? O Amor é medido de que forma? Quanto centímetros de mim habitam no teu coração? Quanto de mim te atravessa, quanto de nós se cruza no mesmo caminho?

Quanto de nós existirá para sempre?

Silêncio.

O que é o silêncio que talvez pouco mais que ter demais para dizer? O que é o silêncio que pouco mais que a ausência? O que é o silêncio que pouco mais que o branco? O que é o silêncio que pouco mais do que cheio?

O que é o silêncio?

As Putas

nullA penumbra premeditada, o ambiente enevoado, as colunas extravagantes, tudo era estudado ao máximo, no espaço que carregava o peso das putas. O batom vermelho esborratado, o tom carmim das faces, os trajes andrajosos, a pose, o fumar à entrada, as peles sintéticas sobre os ombros. Tudo na sua atitude, fazia entender que eram putas. Como se isso as fizesse sentir melhores, como se fosse a sua pequena vingaçazinha, o seu gosto. As putas não sorriam. Detinham aquele ar de desprezo, aquele típico aspecto de quem desdenha, de quem é puta.

E os homens a surgir em carreiras, homens de negócios, negócios deixavam-nos lá fora, trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Homens de fato, a desapertar as gravatas, a beber uísques, a sonhar que elas o desejavam. E queriam acreditar nisso, que aquelas mulheres os queriam, que não era do dinheiro. Sobretudo quando gemiam. Os homens queriam acreditar que sim, que elas gostaram deles, que lhes iam pedir para voltar sempre, que pensavam, quem sabe, fugir, que nada era fingido, que o fingimento ali não entrava. Sim, eles gostavam quando elas gemiam. E acreditavam que sim. É melhor sonhar, que viver a realidade.

Sobretudo, porque aquelas mulheres não sorriam. As putas não sorriam. Não, vivem do ar de desdém, como quem não precisa de oxigénio, vivem do desdém dos outros, emanam o seu próprio. Nunca viram o sorriso no rosto de uma puta. Há quem diga que as putas não têm rosto, quanto mais sorriso. E gemiam. Sim, gemiam e acreditavam que sim.

O Casamento a Três – II

Imagina como será quando tivermos um filho. Tu grávida, eu grávido também e a tua mãe, que já não é nova, de barriga arrebitada, grávida também. Grávida como nós, sim, grávida neste casamento a três, duas mães, um pai.

Imagina, o bebé a aprender as primeiras palavras a imitar tudo o que vê e ouve. Ele a dizer

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Mãe

ele a dizer

Pai

ele a imitar os olhos de carneiro mal-morto da tua mãe. Não quero um filho com olhos de carneiro, muito menos mal-morto. E a tua mãe a ensinar o bebé a dizer

Podias ajudar mais em casa, pai

e tu, sem ligares muito, cansada, esgotada de cuidares de uma criança, cuidares de mim, cuidares da casa e cuidares da tua mãe. Havemos de falar os dois, explanar a necessidade de a tua mãe estar aqui em casa todos os dias, a mandar palpites, como quem anda à pesca, a provocar-me, a sorrir-me com desdém, cada vez que passa pelo corredor, aqueles olhinhos de carneiro mal-morto, a dizerem

Um dia destes levo a minha filha

e eu cheio de medo que o olhar se transformasse em feitos e tu desaparecesses da minha vida, a tua mãe te levasse, com medo que eu não cuidasse de ti, com a certeza dela que eu não sou homem para ti, que não te trarei um futuro bom.

Havíamos de falar. Não aguento mais a tua mãe, nem os olhos de carneiro mal-morto. Não aguento mais um casamento a três.

O Casamento a Três – I

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No fim de contas, há coisas que devíamos pôr em pratos limpos, há arestas por limar e coisas por mudar. Por exemplo, aquele quadro ali à entrada. Aquilo não é um quadro, é um quadrado, nem arte é, talvez um mamarracho que me ocupa a parede do hall, nunca tiveste grande sentido estético, é verdade. Eu sei que foi a tua mãe que to deu. Já estou a imaginar a cara dela, da sogrinha, com ar de quem sabe tudo

– Ficava tão bem

com olhinhos de carneiro mal-morto, lágrimas de crocodilo e tu, como quem não quer deixar triste a mãe que te cuida dos filhos, lá cedeste.

Essa é outra coisa, que havíamos de mudar. As idas da tua mãe cá a casa, o ar dela de quem sabe tudo, a dizer

– Podias ajudar mais em casa, João

e a mandar levantar os pés, enquanto aspira a alcatifa da sala, mesmo durante os jogos do mundial e os jogos do euro e os jogos olímpicos e os jogos do campeonato nacional e os jogos do campeonato distrital e os jogos da liga de honra e os jogos da taça. Estou farto dos jogos da tua mãe. Sempre a dizer-te

– Deixa-o, minha filha

e tu, lá a tentares explicar que até gostas de mim assim, que é esse o teu conceito de lar, que gostas de ser dona de casa, cansada da vida de empresária que já levaste e ela a rosnar

– Ele não te traz futuro nenhum, filha

e ela com ar de sabe tudo, com olhinhos de carneiro mal-morto, lágrimas de crocodilo e tu quase a ceder.

O Outro Lado – II

O silêncio. Aquele que persiste em habitar esta sala, este quarto, esta casa. nullO silêncio abafado do mofo que insiste em perseguir. A casa quieta. Olho para o outro lado das coisas, o infinito de algo, a transposição dos factos e dos objectos de sempre, com a esperança que a visão tenha mais alcance que o coração. Sim, ainda aguardo por ti, que desças imponentemente a escadaria de madeira velha, carcomida pelo bicho, afectada pelo tempo.

E contudo, espero deste lado. Do lado do tempo imóvel, onde nada se move, tudo se estagna e fico a olhar para o outro lado, com ânsias de que surjas com esse sorriso no olhar, com a tua capacidade de argumentação intocável.

– De onde virás?

Fico à espera deste lado do Mundo, à espera das tuas acções implacáveis, das tuas certezas incontornáveis, dos teus pareceres eternos. Eu não sei muitas coisas. Continuo à espera todas as manhãs, a fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo.

O Outro Lado – I

Levantava-me todas as manhãs para fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo. Se tu, por trás dos prédios altaneiros que me vigiam o quarto, me assistes como se eu fosse um filme e a tela estivesse com ruído, como se o projeccionista precisasse de me ajustar.

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Permaneço com dúvidas, com certeza. Ando de um lado para o outro, a gastar as solas dos sapatos de vela, que me compraste um dia, só porque achaste que me ficavam bem e calculo que tu estejas, do outro lado do mundo, do teu mundo diferente e paralelo, a experimentar os novos sapatos de salto alto, vermelhos.

A casa quieta. A casa silenciosa, no mesmo local de sempre, no cucuruto de um oitavo andar, do lado esquerdo do coração, sempre à espera que chegasses tu e essa tua atitude de sempre, com a mania da perfeição e das limpezas, de salto alto e esfregão em punho, como quem pretende limpar a poeira que se instala numa casa, quando o coração anda a libertar farrapos de algo.

Deitava-me todas as noites, à beirinha do lado esquerdo da cama, com a certeza

quem sabe a dúvida

que chegarias do outro lado da cama e passarias a noite comigo.

Photo://MyLittleWorld

O amor é a solidão das multidões

– O amor é a solidão das multidões

disse-me ela, como se soubesse a verdade por detrás das coisas. E eu, convencido disso, amei-a como se fosse o homem mais solitário do mundo, como se fosse a única pessoa que teria forças para conseguir conter toda a sua energia.

Cansei-me. Sinto solidão, não sinto amor. Dizes-me que são a mesma coisa. Repetes

– O amor é a solidão das multidões

e eu não sei se hei-de acreditar, se devo consultar um dicionário, um prontuário, uma enciclopédia e folheá-los até encontrar a resposta, nem que para isso tenha de gastar as suas páginas.

Consomes-me. Consomes-me por dentro, as energias, uma espécie de turbilhão, de buraco negro que suga. Tornas-te uma espécie de predador de sentimentos, do amor…

(ou devo dizer solidão?)

Não. Já não sei o que é o amor, se devo saber, se é uma espécie de Santo Graal, se nele existe o sentido da vida, se existe vida além do amor (solidão, talvez).

Poderíamos fazer uma dissociação das palavras. Sim, porque a literatura é uma ciência. Dissociarmos o amor da solidão, não ter necessariamente de viver as duas conjuntamente, organizar as duas por estados ou géneros, multiplicarmos a intensidade da primeira e dividirmos a intensidade da segunda.

Meu amor, porque temos de viver em solidão? Não podemos apenas viver em amor? Talvez as multidões não devessem existir. Acho que é melhor dispersar.

photo://eXcer

Vermute – III

Acho que é a isto que se chama começar de novo. Partir do princípio que nada se passou, que nunca antes te conheci, que não te conheço, fingir que tenho amnésia, que me esqueci do teu nome, dos teus vícios, pecados e erros.

– Como é mesmo o seu nome?

e fazer-me de tolo, como se nada se tivesse passado, como se nem sequer me tivesses chamado à atenção, como se nem tivesse reparado nesse teu vestido, no teu trejeito com a boca, da forma como bebes o teu vermute, como se ali estivesse o teu destino, como se alguém te falasse do fundo do copo, com voz melosa e te dissesse qualquer coisa, numa língua desconhecida.

– Luísa,

dirias. Um nome assim, dito de um modo simples, seco, repetitivo, morto, como se fizesses um frete, como se o teu nome fosse apenas um acessório do teu corpo. Acho que é isto, pôr uma pedra no assunto. Perguntar-te o teu nome, fazer uma pergunta, sem saber sequer a resposta, é esquecer-me de como é o teu acordar, de como escovas os dentes pela manhã, de como gostas do café, curto, comprido, com ou sem açúcar.

– Parece-me que a conheço,

sinto-me tentado a dizer. E depressa reparo que descuido o esquecimento, que me faço de amnésico, que a pedra já cá canta, que o passado já lá vai, águas passadas não movem moinhos. Calo-me, silencio os lábios com mais um cigarro no canto da boca, sinto-me tentado a desviar o olhar, a não ligar, a esquecer o que já disse, a bloquear as palavras que teimam sair em catadupa.

– Posso oferecer-lhe outra bebida?

– Já ofereceu…

– Sabe, sofro de amnésia.

photo://bomdia

Vermute – II

Levanto-me com aquela cara de sono a que já te acostumaste. Olhos miudinhos, raciocínio fraco.

– Fazes-me um café?,

sinto-me tentado a perguntar. Mas antes que o pergunte, já sei que não o fazes.  Ris-te daquela forma descarada a que já me acostumei.

És desleixada, eu sei. Sempre o foste. Raras vezes te vi de vestido ou maquilhada. Raras vezes te vi aperaltada, raras vezes te vi bonita. No entanto, continuei a gostar de ti. Ris-te de forma descarada e isso agrada-me.

Não sei quantas noites já passámos juntos, mas sei que ocupas sempre o melhor lado da cama, que me roubas os lençóis, que passo toda a noite acordado e cheio de frio. Gosto de ti, sabes? Gosto de ti egoísta, gosto de ti quando só pensas nos teus desejos, gosto de ti quando me ignoras dias a fio.

Acho que precisas de alguém que cuide de ti. Alguém que te aperte o tubo da pasta de dentes, alguém que apanhe as migalhas da cama, quando resolves comer bolachas a meio da noite.

Não percebo como voltámos ao mesmo, estás diferente agora. Nunca imaginei ver-te de vestido vermelho, a traçar a perna, copo de vermute na mão, a rires-te ainda mais descaradamente. Mulher estonteante, eu de cigarro na boca, a pender, a enlouquecer e tu ali a beber o teu vermute.

– Não, não. Não nos conhecemos. Nunca te vi. Mas sim, estaria disposto a conhecer-te. Paulo, muito prazer.

e rio-me de forma descarada.

Vermute – I

Foi bom. A sério, acredita que foi realmente extasiante. Nunca julguei que te fosse encontrar no café, precisamente àquela hora, numa tarde soalheira, de vestido vermelho, perna traçada, a saborear um vermute seco.

Eu chego, de cigarro no canto da boca, distraído com a cadência da rua, de casaco ao ombro, a admirar-te, mulher vistosa. Distraio-me, não percebo que és tu, que és a mesma Luísa de antigamente, aquela que se vestia de forma desportiva, a que fumava cigarros de manhã, em jejum, a desleixada.

Piscas-me o olho de forma descarada, não sei se me conheceste ou se pensavas em engatar mais um homem bem-parecido. Pisco-te de volta, com um sorriso entre dentes, como um garoto envergonhado.

– Outro vermute para aquela menina.

E tu convidas-me a sentar naquela mesa, sorris-me descarada, piscas-me o olho descarada e apresentas-te descarada:

– Luísa. Não nos conhecemos já de algum lado?

E o meu sorriso é envergonhado, não sei o que te hei-de responder, não sei se te lembras que vivemos juntos cinco anos, que partilhámos a mesma casa-de-banho, a pasta de dentes também

(a escova de dentes, não.)

e que cozinhámos no mesmo espaço.

– Paulo.

E esqueço-me de dizer mais algumas palavras, basta-te o meu nome a ver se me conheces, a ver se tens reacção, se levantas o sobrolho ao menos, em jeito de espanto.

– Parece-me que te conheço…

E ris-te de forma descarada à espera de uma resposta minha.