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Fingimento a Dois

Não durou muito até se colarem novamente os fragmentos. A força que os unia era intensa demais para conseguirem suportar sozinhos. Tinham-se apaixonado por dentro e isso intensificava a paixão.

– Fica comigo, meu amor.

– Por ti sinto-me capaz de cometer as maiores loucuras.

Suspiraram em uníssono e libertam uns ais de paixão. Avizinham-se tempos difíceis, períodos turbulentos, longas distâncias e mais fingimentos, mas tudo isso lhes parecia superável. Decidiram esperar para ver se os olhos correspondiam ao coração. Continuaram com as palavras de amor por longos períodos.

– Adoro-te.

– Diz-me qual é o teu segredo. Explica-me. Vá lá. O que me faz estar tão vidrado em ti? O que me faz querer-te intensamente, querer tocar esses lábios, saboreá-los, poder beijar a tua pele, amar-te? Tanto, tanto…

– Qual é o teu, que me faz querer cometer loucuras contigo e arriscar tudo?

– O meu segredo é desejar-te.

– O meu é querer-te assim tanto.

Suspiram os dois novamente. O que os une dificilmente poderá ser escondido, porque a expressão os denuncia. Um sorriso estúpido está-lhe estampado no rosto, daqueles tolos de tão embevecido que está. Já não dormem, já não pensam senão um no outro. Poder-se-á estar perdido de amores? Só eles o sabem, só eles o sentem. Durante momentos sentem-se inseguros, incapacitados para conduzirem esta paixão a bom porto, mas no minuto seguinte sentem-se tão seguros e convictos de que o amor vence barreiras.

Esperam o leve tocar de lábios, um beijo de raspão, o beijo profundo, o beijo trapalhão. Ele finge agora com ela, mas não fingirão por muito tempo. Finge-se perante uns, apregoa-se a sete ventos a outros. Vivem ambiguidades, vivem incertezas, contradições, obstáculos, mas vivem também a vibração, o desejo, o anseio. Vivem um dia de cada vez, deixam-se levar pelo sentimento bonito, sem pressas ou precipitações.

E cada noite que passa, o sentimento cresce como que encantado pelo amor da Lua.

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Fingimento

Ele entrou na sala, viu-a e ao mesmo tempo sentiu que não a podia ter. Cumprimentaram-se quase a medo, medo que o coração os denunciasse. Um beijo na face, um abraço emocionado e contudo, era mais do que isso, eram palavras contidas em amassos de folhas, guardadas a sete chaves, escondidas de todos. Pediam que tomasse o papel de actor e ao mesmo tempo de fingidor, como o poeta. Não era capaz de o fazer, nunca fora bom a fingir daquilo que o coração está cheio.

O abraço serviu para num relance sonoro poder sussurrar:

– Quero-te.

As palavras ficaram contidas mal os braços se largaram: era um segredo demasiado doloroso para os outros, mas pior ainda para eles. Ficaram limitados a mãos no bolsos enquanto os olhares se descobriam. Ver os lábios e eles não se encontrarem, querer tê-la nos braços e não poder. A impossibilidade matava-os de vontade, desejo de se tocarem. Lembravam-se dos jogos que fizeram até se envolverem emocionalmente. Brincavam com o fogo, como se ele lhes fosse essencial. O desejo era o mesmo e nunca o tinham revelado por pudor ou vergonha. As palavras atropelavam-se como se cuspissem o que lhes havia enchido o coração. Estava tão cheio, tão completo e belo que o sentiam na boca. O coração a mil, o cérebro também.

Novamente a mil, agora frente a frente. O coração nas mãos, as mãos no coração. Os lábios que se mordiam, as palavras que fingiam. O desejo que crescia, o sorriso que se inventava. O quererem tocar-se, os corpos que se riam. As palavras ficaram escondidas para sempre, pedia-se que se conseguisse, que não se tentasse. O medo de tentar fora demasiado, talvez se tivesse deitado um bocadinho de Felicidade fora. Felicidade temporária, se calhar. Mas tinha o mesmo nome e cheirava ao mesmo: Felicidade. Tinha uns travos a paixão também. E canela. A vontade de arriscar era muita, porque o Amor também o era. «Não podemos», dizia. E não podiam. Talvez um dia se pensassem que também eles tinham direito a alguma coisa e pensassem também em si. Sonhava-se com o beijo trapalhão e todos os outros que se esgotariam num abraço.

Não chorou nunca. Nem mais. O que sentia era demasiado forte. Cerrou os dentes.

– O nosso problema sempre foram as palavras.

E partiu. Partiram. Quebraram-se os dois.