Category Archives: Marta e as Sabrinas Vermelhas

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XXII

 (…)

João olha para o seu amor, estupefacto. Depois deste longo desabafo, em meio a um abraço, inesperado, que o fez aperceber-se que a vida é cruel, sarcástica e desumana para alguns, achava que nada mais o poderia surpreender. Pelos vistos, enganou-se.

«Mas a tua mãe já morreu há alguns anos. O que há para contar ainda?»

«Muita coisa. A morte dela deveu-se a mim…»

A mente dos dois embrenha-se rapidamente no dia 15 de novembro de há nove anos atrás, fazia pouco mais de um ano de casamento. Nunca João tinha estado muitos minutos com a sogra, mas notava um chispar de olhos entre ela e Marta, um rancor enorme que nem o silêncio calava e ao mesmo tempo, um sorriso maldoso, irónico e sarcástico fixo no rosto da mãe.

«Lembro-me que nos ligaram para dizer que a tua mãe foi encontrada morta em casa. Um ataque cardíaca fulminante, dizem…»

«Sim, eu sei. Eu estive lá, assisti a tudo», revelou Marta.

«Mas como, se nunca visitavas a tua mãe? Para que te encontraste com ela?»

As palavras de Marta novamente saíram em catadupa, interpoladas por ocasionais paragens de sossego da alma e João visualizava através delas o que havia se passado.

Marta saíra cedo de casa nesse dia. Deixou o marido abnegado, exausto de tanto trabalho, na cama, num profundo sono. Levava um sobretudo castanho, comprado por catálogo, que lhe tapava quase todo o corpo. O dia era chuvoso, negro, daqueles em que ninguém sai à rua, mas Marta caminhava até ao carro. O seu espírito estava ainda mais chuvoso que o dia e não conseguia conceber como a sua mãe lhe tinha feito aquilo e que durante tantos anos de clausura, nunca havia perguntado pela filha.

As mãos conduziam o carro topo de gama e o motor gritava-lhe em sons suspirados: «Não o faças!». Mas ela punha o volume do rádio mais alto e não dava ouvidos ao motor.

Aproximava-se agora da casa de sua mãe, a casa em que havia vivido (ou sobrevivido) durante a sua infância. Olhou para o calendário do telemóvel: Novembro. Dia quinze. Em passos cadentes aproximou-se do vão de escada e vem-lhe à memória o fatídico dia. Não precisou de bater à porta, estava entreaberta. Encontrou-a sozinha, sentada num velho banco; não era a mãe de sempre: era a mãe envelhecida, decaía, com a face marcada pelas rugas do tempo e as mãos trémulas que procuram conforto. Os olhos de Marta procuram os da mãe, questionando-os, buscando respostas e encontrou o mesmo olhar frio e sarcástico.

Ela sentou-se ao seu lado, sem esperar justificações porque o ódio era demasiado grande. A mãe, por seu lado, levantou-se e colocou chá, que ainda fumegava, em duas chávenas pequenas. Vira a cara para o lado, para pôr mais água na cafeteira e Marta, com as mãos a tremer, julga que é o momento ideal. Então tira do bolso da gabardina, um frasco e do seu interior derrama um pó miúdo, de cor rosada, no chá da mãe. Esta, ao voltar-se, sorve o chá em goles curtos e Marta sorve-lhe o olhar em jeitos odiosos.

Naqueles curtos minutos, não chegaram sequer a falar e mal terminado o chá, Marta levantou-se e sem nada dizer, partiu não sem antes ver, pelo canto do olho, a sua mãe com a mão no peito. Tranquilamente, como se o tempo voltasse atrás, fez o caminho de regresso a casa, com a mesma chuva e o barulho do motor, que no seu compasso cadenciado, gritava «Consumado, consumado». Já em casa, despiu a gabardina castanha e deitou-se ao lado de João. Horas mais tarde o telefone tocou e Marta apercebeu-se, mas não se incomodou.

Ouvido isto, João ficou sem palavras e com um olhar compreensivo, apertou Marta, sem julgamentos. O abraço era o sonho de um futuro juntos, o futuro de felicidade que sempre desejara. Olhou-lhe para os pés e viu as sabrinas, as que usou no primeiro dia no bordel, oferecidas por Morandini. E João pôde ter a certeza que, enfrentando o passado, Marta olharia com firmeza para os dias à frente. Os seus olhos reflectiam agora o vermelho, o mesmo intenso e vivo das sabrinas, o mesmo que os unia e num suspiro em uníssono, viveram o seu amor, enquanto as fitas de cetim gritavam: «Consumado, consumado».

[O Fim]

(Para ler a história completa, ver aqui.)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – XXI


(…)
O seu nome era Xavier, Doutor Xavier, e quando conheceu Marta, exigiu logo à dona do bordel que ela fosse exclusivamente sua, a troco, claro, de um cheque com alguns zeros. A exclusividade paga-se, mas não se importava e assim a tornou sua, como uma mercadoria que recebe um selo. Foi também ele que a levou ao jantar organizado pelo pai do João, no dia em que os dois se conheceram.
Xavier achava-a adorável, mas também infeliz, com os olhos marcados pela dor e pelo rancor. O ódio de Marta pela mãe foi alimentado durante todos aqueles anos de subserviência aos homens e àquela mulher mal afamada. O seu protector, com os anos, passou a encará-la como filha e a ter repugnância do seu passado; como recompensa libertou-a do bordel e comprou-lhe uma pequena casa, modesta ao jeito de Marta, na qual ela pôde endireitar a estrada da vida.
Ainda se lembra claramente do dia do primeiro beijo com João. Para si, o seu único primeiro beijo, dado com sentimento, mesmo tendo apenas trocado uns olhares com ele. Mas para Marta, de todos os homens que se vangloriavam naquele jantar, João era o único que permanecia calada e que se revelava um verdadeiro senhor. Ainda se recorda do dia em que ao passar por aquela rua em que definhou tantos anos, encontrou o mesmo homem com quem tanto sonhara, caído na rua, à chuva, inconsciente. Depois de pedir a um transeunte que a ajudasse, levou-o para casa e, sozinha, secou-o e tratou-lhe das feridas do corpo, como se lhe tratasse o hematoma do coração.
João chorava agora. Marta já tinha secado. Nunca João tinha imaginado que dez anos de um casamento amargo e silencioso se devessem a um passado tão tenebroso, tão infeliz e à vida sovada que desde criança, Marta tinha tido. João sentia-se egoísta, sempre pensando que as atitudes dela se deviam a caprichos. Depois de casarem, Marta conseguiu a pulso liderar uma empresa e ganhar reputação inquebrantável, «Talvez fosse uma forma de vencer a vida, de compensar o que ela se recusou a dar-lhe», pensou.
«Quem era aquela mulher com quem conversavas na esplanada?»
Marta olhou-o estupefacta, pois não percebia como ele o sabia, mas limitou-se a responder:
«Morandini. A minha incansável Morandini. O bordel foi encerrado, finalmente a cidade abriu os olhos. Diz-se que foi Xavier quem tomou as providências. Morandini vai regressar a Buenos Aires e as outras mulheres ais seus países. Todas perceberam que nesta cidade, infame e carrasca, não conseguem ser felizes.»
Parecia que um peso lhe tinha saído das costas. Sentia-se mais livre, sem mentiras e sem vergonha do passado, do qual não tivera culpa. João surpreendeu-a: ouviu toda a sua história de infância e não pestanejara, nem sequer franzira o sobrolho; apenas o amor brilhava nos seus olhos e senti-o na ponta dos dedos.
Marta diz-lhe por fim:
«Há uma coisa sobre a minha mãe que não te contei ainda…»

(Continua)

*photo://Squeeba

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XX


(…)
Mais que uma menina, Marta era, a partir deste momento, uma mulher; chorosa, angustiada e repugnada com e experiência que tinha tido. Umas horas antes, não parecia a mesma: Morandini havia cumprido o seu papel e ajudou-a a pintar-se e a vestir-se e no fim, entregando-lhe uma caixa de cartão, disse:
«Toma, são para ti. Para calçares.»
Marta abriu e dentro da caixa, além de fitas de cetim, encontravam-se umas pequenas sabrinas de um vermelho intenso, vermelho de mágoa.
Foi assim que Marta se arranjou do modo que os homens, se é que se lhes podia chamar isso, endinheirados gostavam. Não todos, claro está, mas aqueles que eram clientes do bordel, apesar de serem cheirosos por fora, eram porcos e imundos nas entranhas das suas almas.
As gravatas de seda não escondiam a sua origem e os que chegavam, tinham à espera um quarto privado e recatado, numa qualquer ruela amarelecida pela ausência de esperança. Era lamentável que alguns tinham família, esposa, filhos e reputação, mas tinham também a maldade e o vil metal, que os julgava superiores aos outros. Já naqueles quartos privados demonstravam os seus desejos ardentes, serviam-se e iam embora, deixando-as ali, preparando-se para o próximo. E isto acontecia quatro ou cinco vezes por dia. Com Marta não foi diferente. Pela sua ainda meninice, a gorda do bordel, cobrara mais a um famoso juíz da praça. Tinha mulher, mas enquanto a mantinha controlada com um ou mais vestidos por semana, ela calava-se.
Marta não se esquece de o ver fechar a porta do quarto e ficar trancada no quarto. Sem falar, observava aquela pele jovem, aqueles longos cabelos ruivos e aquelas peças íntimas provocantes. Aproximava-se e ela resistia, debatendo-se contra a promiscuidade. Mas ele tinha mais força e dominava-a, enquanto ela via um animal a saciar-se. As lágrimas caíam-lhe e resistia com todas as suas forças morais àquele homem e ao que ela chamou «de horrível monstro».
E pela primeira vez depois do funeral do seu pai, pedia ao deus menor, que passasse a ser o seu Deus. Rezava e resistia, chorava e debatia-se, até que por fim, já satisfeito, ele a largou em cima da maldita cama. Vestiu-se e deixou a porta aberta atrás de si.
Depois desta ocasião, muitas outras se seguiram e, Marta-menina, Martita recebia homens diariamente, enquanto rezava àquele que se acabou por tornar o seu Deus.
Meses mais tarde, tornou-se também acompanhante de luxo e começou a poder sair do bordel, noites esporádicas, para fazer figuras em jantares e festas sociais. Era a preferida de um cliente rico da cidade, um juíz de bigode, que a tornou exclusiva e foi ele que numa noite, a levou a mudar de vida.

(Continua)

*photo://Angel-Soul

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIX


(…)
«Desculpa, qual é o teu nome?»
E a menina sofrida levanta-se, já mais calma e pronuncia um sumido som:
«Marta»
«Marta, Martita… pobrezinha»
Assim, entre lamentos e confidências, sentam-se as duas na beira de um velho colchão. A sua nova amiga parecia-lhe de confiança e então, enquanto enxuga as lágrimas, ouve-a debitar um rol de palavras e de histórias. Percebe assim que está num bordel, casa afamada entre banqueiros e novos ricos, mas que não passa de um local de prostituição forçada, a troco de comida, simplesmente. E todas elas foram vendidas desumanamente como se de objectos se tratassem. Parecia-lhe estranho, mesmo para os seus 15 anos, que alguém pudesse vender mulheres, como se vendem bifes de novilho e afinal, havia sido, também ela, vítima do mesmo. A imagem da mãe, que realmente nunca lhe demonstrara carinho, surgia-lhe intermitente: sentada no vão de escada, a contar notas, passivamente.
Marta sempre desejara viver na cidade, mas agora, daquela janela com frades ferrugentas, não via a cidade luminosa, artística, nem revolucionária. Via, sim, a cidade manhosa, puta e alcoviteira; a cidade dos salamaleques, gravatas e maneirismos, emproada, contada por aquela mulher vinda da Argentina em busca de uma vida melhor, mas encurralada naquela pequena divisão, pequena demais para conter o sofrimento. Morandini, apelido pelo qual a chamavam, estava há já sete anos ali, mas a revolta continuava. E agora não podia crer que estivessem a utilizar aquela criança, como isco para homens casados: os intocáveis da sociedade.
Repentinamente a porta abre-se e entra uma outra mulher, desleixada, notava-se balofa nos seus excessos e desnutrida de vaidade e orgulho. A sua expressão é francamente intolerável. Com o pescoço cheio de carnes gordas admira atenta e pausadamente aquela miúda a quem trouxeram, enquanto Morandini balbucia, descrevendo-a como «a dona deste antro», «a quem mais ordena, força e condena».
Essa mulher aproxima-se de Marta:
«Levanta-te»
Estica a mão, agarra-lhe o queixo e movimenta-lhe o rosto, ora para cima, para baixo, ora para os lados. Nas suas poucas palavras, vira-se para Morandini e ordena:
«O teu trabalho é ensiná-la a comportar-se e arranjar-se. Os outros encarregar-se-ão do resto.»
Morandini estarrece, mas não contrapõe e a mulher sai do quarto, não sem antes exclamar:
«Dentro de duas horas terás o teu primeiro cliente»
E Marta principia a chorar tão baixinho que o mundo inteiro ouviu.

(Continua)

*photo://Razorbed

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVIII


(…)
O que se passou depois foi a aflição de uma menina perante a maldade dos seres humanos. Foi levada à força por aquele homem estranho, assistido à distância por aquela mulher, a quem sempre havia chamado mãe. Não sabia para onde a arrastava, tentou gritar, mas as cordas vocais paralisaram e então, já sem forças, deixou-se levar. A última coisa que se lembra foi um estalo na cara, que a fez bater com a cabeça na parede de pedra escura. Perante tal dor ainda viu a mãe sentada no vão de escada a contar dinheiro, muito mais do que ela teria visto na sua vida inteira. Nada mais se lembra.
Horas mais tarde acorda e sendo o calor tanto, levanta-se com a boca feita cortiça. Olha ao seu redor e vê uma longa, mas estreita divisão, de aspecto tenebroso. Sete camas, ou melhor, sete colchões ocupam aquele espaço; estão por fazer, com os lençóis puxados para baixo e as mantas remexidas. Roupas íntimas estão espalhadas pelo quarto, mais espartilhos, mais sapatos altos e bases, unhas de gel, batons, escovas e ganchos, junto com objectos de cariz desconhecido, mas assustador. Havia um grande desamparo naquele quarto, por isso começou a chorar como desafogo. E o espaço em que estava encheu-se de ruídos, passos e, se não era perdição dos ouvidos, para aquele lado soara uma voz anasalada, mas feminina, parecia-lhe. Não aguentou mais. Com medo que fosse aquele homem horrendo que a arrastara, encolheu-se num canto, como se levasse atrás de si todos os diabos do inferno e todos os monstros que povoam a terra, os viventes e os imaginados.
Uma voz parece-lhe ansiosamente perto e diz-lhe:
«Então querida, não tenhas medo.»
Marta encolhe-se ainda mais, olha para cima e vê uma senhora madura, vestida com uma saia reduzida e um espartilho preto, fortemente apertado. A sua face era tranquila, mas o semblante era franzido.
«Onde estou? Quem é você?»
«Foste vítima da ganância, como todas nós. São pessoas vis e más que julgam ter controlo sobre a alma humana…», responde-lhe e rapidamente os seus olhos brilham, prontos a lacrimejar. «E tu és tão nova… mas a beleza prejudicou-te. Oh, como foram capazes? Como eu gostaria de te ajudar…»
Marta cada vez entendia menos deste discurso emotivo. Restou-lhe confiar naquele rosto, que, apesar da desconfiança inicial, sabia que teria as respostas para muitas das suas perguntas.

(Continua)

*photo://x-horizon

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVII


(…)
Podia dizer-se que parecia que Nicolau e Marta sempre se tinham conhecido. Não lhe saía do pensamento aquele rapaz envergonhado, mas também o rapaz divertido, de sorriso aberto, que contava histórias da cidade grande. Eram primos sim, mas em terceiro grau, o que na sua cabeça era o mesmo que não ser nada. Um estalido na janela desperta-a da vigília de sonhos que vivia; novamente um estalido, mais outro e outro. Rapidamente se levanta, pensando que se tratava de algum «maldito rapaz da aldeia» e com a língua pronta a entrar em desafio, abre de par em par a janela e dá de caras com um sorriso familiar.
«Tu?»
«Não consegui resistir. Pensei que eras dada a aventuras.»
«Eu sou, mas a minha mãe não é. Espera aí um bocadinho.», mas esse bocadinho foi num ápice, pois desceu com agilidade de gazela e coração de menina. Passa pela mãe e desvia-se como quem contorna um obstáculo a mais. Esqueceu-se de comer o pão e beber o café, de se lavar também, mas qual a importância disso se tinha um enorme sorriso à porta, à sua espera? Desgrenhada e com a cara por lavar, pendura-se no seu pescoço, dando-lhe beijinhos na cara. Nicolau cora «Por quê esse entusiasmo todo?»
«Porque gostei da tarde de ontem. Gostava que me contasses mais coisas da cidade».
«Foi por causa disso que vim ter contigo…»
Marta criou esperanças de toda a espécie e à medida que ouvia, o seu coração insuflava, insuflava até que lhe subia à boca e a fazia falar. Estavam agora junto ao ribeiro, com os pés dentro de água e conversavam em silêncio. As expressões, gestos e movimentos eram suficientes: havia uma troca de sorrisos constante, uns trejeitos de boca inconscientes, uns leves balançares de pernas. De repente o silêncio invadiu o ar, qual enxame de sentimentos e Marta diz de um fôlego só:
«Eu vejo que és especial. Quero-te».
Nicolau cora, finge que não percebe e inclina a cabeça para baixo. Os lábios de Marta aproximam-se, os olhos beijam-se, o resto esquece-se. E ali ficam horas, de mãos dadas na ingenuidade daquele amor.
O tempo voa naquele amor, «Prometes que voltas amanhã?»
«O amor não se promete. Sente-se.», diz Nicolau. Nem se chegam a despedir, convictos que se veriam no dia seguinte, mas mal sabiam que quando Marta chegasse a casa, a mudança se daria de um modo sem retorno.
Marta correu até casa, sabia que não se livraria de um sermão, de uma sova talvez; mas curiosamente, não foi isso que encontrou. A mãe estava à porta, sorriu sem que Marta se apercebesse do ar malicioso e avista, na escuridão do corredor, um cigarro aceso e a mão que o segurava. O aspecto era de um homem de meia idade, com barba, olhos negros, ar implacável. Marta assusta-se, olha para trás, perguntando com os olhos quem era aquele homem de mau aspecto.
Os olhos da mãe faíscavam:
«Sim, a tua vida vai mudar. Nem imaginas como…»

(Continua)

*photo://EclipseIV

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XVI


(…)
Foram passos verdes em vegetação seca, que Marta ouviu. Olhou ao seu redor e apenas os sons naturais do mato e seus habitantes animais se distinguiam. Mais uns passos, crác, crác, passos secos em erva verde e a sua cabeça rodava à procura da origem. Olha para a sua roupa caída nos seixos, repara também em nuns pés, depois numas pernas, num tronco e nuns braços, repara que é um homem, olha nos seus olhos e sorri. Um rapaz, afinal. Bonito, de olhos castanhos, traço forte, barba aparada, bonitos dentes e ela sorria-lhe. Ele corou, «A menina desculpe, não reparei que estava alguém aqui. Costumava vir para este sítio há muitos anos» e escondeu a cara. Marta, divertida, saiu da água totalmente despida e os seus olhos faiscavam, enquanto se dirigia para junto dele. «Mmm, eu vou andando», dizia o rapaz e Marta estendia a mão, apresentando-se «Marta, prazer. Se pudesse sair de cima da minha roupa, eu evitaria um resfriado.». A vergonha não podia ser maior, mas Marta divertia-se e vestia-se naturalmente junto a ele, que por sua vez virava a cara para o lado contrário. «Podes virar-te que eu não mordo» e quando se virou, já ela estava vestida. Sorriram os dois e passaram a tarde à conversa. Ela descobriu que o seu nome era Nicolau e que ainda eram da família, primos em terceiro grau. Há três anos que não ia para aquelas bandas, «para lá do sol posto», como dizia. E Marta maravilhava-se ao ouvir histórias da cidade, cidade de luz, cidade de arte, cidade de pessoas, cidade de bem vestidos. Nicolau divertia-se com a sua cara e com a ingenuidade de menina que ainda possuía e até chegar a noite, nunca as palavras acabaram e menos ainda os sorrisos. Despediram-se com um beijo na face e Marta correu para casa, pois a noite era cerrada. E eis que quando chega perto, avista o vulto da sua mãe no alpendre. Temerosa, avança pé ante pé, até que a fúria da mãe lhe pergunta: «Onde estiveste a tarde toda? Cansei-me de trabalhar e nem apareceste para ajudar. Já te avisei tanta vez, tanta vez. Diz-me onde estiveste!» e o medo respondeu «Estive no ribeiro…», «Sozinha?», «… com o primo Nicolau». A mãe não se lembrava do primo Nicolau e mesmo se lembrasse, de nada serviria a Marta, pois antes de ter tempo de explicar, já havia levado um tabefe que lhe deixou a cara marcada por dois dias. Na profunda resignação, mas também revoltada, segura com firmeza uma cavilha ferrugenta e faz um enorme risco na parede do quarto. Mal sabia Marta que o seu desejo não tardaria a chegar e a mudança se daria finalmente no dia seguinte, com uma ajudinha do primo Nicolau.

(Continua)

*photo://MeninaLua

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XV


(…)
Rezas à parte, Marta nunca acreditou realmente em Deus, que para ela era apenas um deus pequeno. Era-lhe difícil perceber como Ele existia, como apareceu e como vivia lá naquele alto azul, no céu de ninguém e o padre Simão chamava-lhe herege, obrigava-a a confessar-se e afirmava «Se não te portas bem e não Lhe pedes perdão, não te deixo fazeres a primeira comunhão». Mas Marta pouco se incomodava com isso e, volvidas as costas, esticava a língua num ímpeto de menina rebelde. À medida que crescia, tornava-se mais mulher, mais bonita e sensual. Nunca se tornou católica, porque as pessoas a envergonhavam: «Tens um corpo capaz de virar a cabeça de muitos homens». Realmente tinha e os rapazes da aldeia já tinham reparado e estavam sempre ao redor da janela do seu quarto, mas Marta detestava-os. A sua mãe sempre que os via, corria com eles dali, ora com a vassoura, ora com a pá do pão. E Marta ria-se dessa caricata situação, mas depressa se calava quando a mãe lhe dava também com tais utensílios, dizendo «Tu é que tens a culpa! Muito fresca me saíste tu. Provocas a sede aos rapazes, porque és desavergonhada! Não tens cabeça nenhuma…». Continuava a bater-lhe e dizia «És uma calona. Mato-me eu a trabalhar e tu passas o tempo a mostrares-te, mas isto depressa vai mudar…». Marta nem se mexia, ouvia as humilhações e resignada, no fim de cada tareia, fazia um risco na parede velha do seu quarto, «Quando encher esta parede de riscos, isto vai mudar!». Mas os riscos iam aumentando e tudo se mantinha igual.
Houve um Verão quente em que Marta, já com quinze anos de vida, se banhava num pequeno ribeiro da aldeia e como tal, largava a roupa nos seixos cinzentos, pretos, amarelos, laranjas e rosa e molhava-se assim: livre. Não via mal nisso, mas se a mãe soubesse, depressa lhe chamaria cabeça oca ou até provocadora. Marta pouco se preocupava e persistia nesse quase ritual, até ao dia em que aquelas pedras onde largava as roupas foram pisadas por outro alguém. E Marta teve consciência que a partir desse dia, e apesar de a parede ainda não estar completamente cheia de riscos, a sua vida realmente mudaria.

(Continua)

*photo://red-n-pink

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIV


(…)
João ouvia atento. A mãe de Marta não havia comparecido ao casamento, talvez não tivesse sido sequer convidada e então pouco a conhecia. Tinha-a visto umas poucas vezes e acabou por ficar sem qualquer impressão dela, tão calada que havia estado. Era a primeira vez que Marta falava dela e os seus olhos lacrimejavam dores. Recordar a infância nem sempre é um exercício fácil, porque por vezes há muita mágoa para relembrar e o coração não aguenta. A João apetece-lhe chorar também, mas desta vez é ele que cerra os dentes, com medo de Marta se calar. Nunca a tinha visto assim tão sincera, a deitar palavras em jeito de desabafo, com a cara vermelha e uma madeixa ruiva a tapar-lhe os olhos. Enquanto João ouvia, Marta despejava tudo o que tinha guardado para si em anos de vida.
As palavras levam agora para a visão da mãe, junto ao forno de lenha, com a cara suada e os braços farruscos da pá com que levava o pão ao lume. Este era um dos rendimentos da família, vender pão, além da agricultura. Eram tempos duros e apesar de ser filha única (coisa incomum para aquelas bandas), carinho, comida e dinheiro eram coisas que escasseavam. Do pai, recorda-se do funeral. Poucas pessoas, apenas as da pequena aldeia, seguiam o cortejo. À cabeça, seguia a mãe, em passos rápidos, resoluta e sem pestanejar. Ao seu lado, esforçando-se por acompanhar os seus passos, movia-se a pequena Marta. Também não chorava, sempre fora pouco próxima daquele homem que ia ali deitado. As tareias que ambos levavam enquanto em vida não lhes deixavam saudades. Marta até ia aborrecida, nos seus dez anos, a tapar os ouvidos para não escutar os pai-nossos, as ave-marias e os terços que as velhas beatas da paróquia rezavam a favor dele.
«Se Deus o receber, bem parvo é ele. Nem sabe como o meu pai lhe fará a vida negra…» pensava Martita, lembrando-se que não raras vezes o tinha ouvido a praguejar contra Deus. «Acho melhor avisá-lo antes que seja tarde demais» e agarrou-se também ela ao crucifixo, rezando à sua maneira, na esperança que Ele a ouvisse e barrasse a entrada ao seu pai. A mãe, pelo canto do olho, via a filha nesta azáfama de rezas e pensando que pedia pela alma do pai, puxava-lhe o cabelo, também na esperança que a filha se calasse e Deus não o recebesse na sua presença.

(Continua)

*photo://Requiem-for-her

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XIII


(…)
«Tenho de ser sincera contigo, há coisas que não posso mais esconder. Têm de ser reveladas, eu digo-te tudo…», diz Marta.
João, com os olhos incrédulos, fixa-a profundamente, toca-lhe no pescoço e pergunta:
«Juras?»
«Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não?«, suspira e afasta-lhe a mão.
O clima agora é seco e um vento quente invade a casa, movendo as cortinas. João, de joelhos, inclina a cabeça e encosta-a às paredes frias. Suspira e arrepia-se, um arrepio que lhe percorre a pele e o faz sentir-se incomodado, como se soubesse que as verdades que seriam ditas, iam mudar muita coisa. Marta não suspira, cerra o punho e os dentes e tenta expelir palavras, mas sente-se como quem cospe a sua própria língua. Em tamanha ansiedade, acaba por morder a bochecha. Leva os dedos à boca e sente o sabor do vermelho, sim, do sangue e sorri, num misto de nojo e loucura. E este sofrimento momentâneo leva-a a revelar tudo. João ouve com os olhos do coração e esses insistem em verter lágrimas finas, suaves e sentidas.
As palavras de Marta levam-na a uma pequena sala negra, suja do fumeiro de outrora. Vê uma menina sentada num pequeno banco de madeira, pensando em tudo o que não era permitido a uma criança. Pensa em beijos, pensa na Morte. Pensa que a Morte deve ser baça, míope, mas não má pessoa e os seus beijos devem ser frios, frios como a Morte. Pensamentos maus para uma menina. O Padre Simão já tinha alertado a mãe para a cabeça de vento da filha. Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão cantado. Pregou o padre de cima do altar, para ser ouvido com mais proveito, falando de castigos divinos e de pecados. A menina, a quem chamavam maria-rapaz, mas tinha Marta na certidão, estava sentada no banco corrido da igreja, com a «cabeça na lua», diziam e com as pernas penduradas, para cá, para lá, para lá, para cá, sem ouvir sequer o que se dizia. Sempre fora bonita e sabia-o. Usava o sorriso, sempre que queria um rebuçado do merceeiro e ele dizia «Tira um ou dois, mas não digas à tua mãe, minha cara bonita» e Marta menina tirava um, dois ou três, por vezes quatro. E calava-se, não o dizia à mãe, pois sabia que naquela mão calejada pelo trabalho do campo, pouca paciência e compreensão repousavam. Temendo um sermão pior que os do padre Simão, refugiava-se naquele banquinho de madeira, sabendo que quando a mãe chegasse, por alguma razão mesmo desconhecida, os humores não abundavam.

(Continua)

*photo://s0phistrious

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XII


(…)
Cada passo demorado e lento em direcção a casa, era uma fuga às questões que o atormentavam. Cada pedra era pontapeada como fazem os miúdos quando regressam da escola. Aliás, muitos passavam por João, pulando e rindo em conversas descaradas, próprias da idade, mas nem reparava na ingenuidade e pureza dessas mentes. Ia absorto em si mesmo, no seu interior, fechado sobre si próprio e na única convicção que as dúvidas, essas eram constantes e atropelavam-no, atropelavam-no vezes sem fim, para a frente e para trás, na natural rebelião dos pensamentos e palavras. Perdido na sua própria confusão, acaba por chegar tarde a casa. Com ar de quem está entorpecido pela fraqueza, roda a chave na porta da entrada e sete voltas depois e menos duas trancas, encontra a casa silenciosa. Tomara ele que as suas dúvidas estivessem tão bem trancadas quanto a porta e a sua mente tão silenciosa como a casa; um silêncio oco, mas que é perturbado por sons abafados e pontuais. Era Marta que, sentada a um canto daquela sala moderna, abafava-se a si mesma, numa tentativa de não chorar. Era como se fantasmas a rodeassem e rodopiando, enchiam-lhe o ouvido com memórias do passado. Marta punha as mãos nos ouvidos e balançando a cabeça, dava ares de louca. Quando João se depara com esta situação, sente uma dor imensa e profunda, a dor de não conseguir partilhar a dor de Marta, a mulher que, apesar de tudo, continuava a amar. Em jeitos doces, agacha-se junto a ela e abraça-a com tanta força, como se não a quisesse perder. Um abraço que perdura, no seu entender, longas horas e assim ficam agarrados, naquela solidão, naquele momento em que as palavras não fluem, não falam e apenas o coração grita mais alto que tudo.
Deu-lhe um beijo na face e enquanto sentia a pele da bochecha dela, escutava a sua boca dizer:
«Minha querida»
E cada vez que o dizia, Marta sentia-se mais feliz, mais completa, mais forte. Cada abraço, cada beijo na cara, cada «Minha querida», fazia com que a sua língua se soltasse:
«Tenho muito que te contar. Muito que não sabes, muito que não imaginas sequer, muito do qual me envergonho. Quero libertar-me do peso das palavras, do passado oculto e da tristeza diária. Quero falar-te…»
Ao ouvir isto, João sente novamente a pele da sua bochecha e escuta a boca dizer:
«Minha querida…»

(Continua)

*photo://marlensoul

Marta e as Sabrinas Vermelhas – XI


(…)
O incómodo e a desconfiança pairavam sobre João. Ali estava ele, a escassos metros de Marta, qual voyeur e sem coragem de lhe exigir justificações e à sua misteriosa companheira. Não teria menos de sessenta anos, mas era uma mulher diferente, arrojada no mínimo. Pintava-se exageradamente com cores escuras e a roupa era bastante ousada, talvez até demais. Na mão direita ostentava uma cigarrilha e na contrária, uma luva de cabedal preto. Gesticulava muito e Marta ouvia, encolhendo os ombros ou baixando a cabeça. Do seu discurso apenas ouvia palavras soltas. «Passado», «Vergonha» e «Mentira» eram as mais ouvidas e perceptíveis.
«Chora, minha querida. Chora», pareceu-lhe ouvir. De facto, Marta tinha a cabeça quase no regaço, procurando esconder a fraqueza. E João, no seu silêncio, ao vê-la, perdeu toda a vontade de a questionar, pensando que afinal fosse uma amiga. Sentia vontade de dizer-lhe «Não fales, olha-me só com esses olhos. Só quero olhar para ti, olhos cansados, boca triste», mas nem para isso a coragem lhe chegava. A senhora levanta-se e parece ir embora; paga o café com duas moedas e toca na face de Marta. João teve quase a certeza de ouvir Marta chamar-lhe «Madre», mas a certeza também não lhe chegava. Pensa em todos os significados possíveis para a palavra Madre: a denotação espanhola, a freira, o ventre. Nenhum lhe chegava e por mais voltas que desse, não compreendia. Apetecia-lhe morrer, mas depois achava-se demasiado cobarde para o fazer. Em gestos quase mecanizados deixa uma moeda em cima da mesa, sem esperar o troco e dirige-se em direcção a casa pelo caminho mais longo. «Quanto mais tarde, melhor» pensa. De facto, o caminho mais longo é o do pensamento e a mente de João não o liberta das dúvidas e das incertezas. Tanto que enquanto caminha, nem olha por onde vai, já que para ele, os caminhos do coração, esses sim, são mais importantes.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – X


(…)
Muitos chás e bolachas nas semanas seguintes, permitiram que Marta e João se conhecessem melhor. O sorriso de um, era agora o sorriso do outro, um sorriso cúmplice e enamorado.
Não muito tempo depois, casaram-se entre muitos falatórios da família de João. E as conversas multiplicavam-se ora em que Marta era uma mulher estranha, ora em que não conheciam a sua família. Aliás, nenhum dos parentes de Marta compareceu ao seu casamento, nem pai, nem mãe, avô ou avó, irmão ou irmã, nem sequer um tio distante ou uma tia-avó. «Comportamento estranho», diriam muitos. «Talvez seja órfã», «Ou zangou-se com a família», «Talvez seja uma fugitiva», «Uma louca provavelmente», diriam outros. De Marta nunca obtiveram uma resposta, muito menos um sorriso. Nem do dia do casamento.
Marta não se vestiu de branco, «Uma afronta» dizia, já que não raras vezes se tinham encontrado em sua casa para consumir os desejos carnais, ora por vontade de um, ora por vontade de outro. Era uma Marta simples que se vestia naquele dia, sóbria e de ar discreto. Mas o João que se via era um homem renascido, de sorriso aberto e de olhos cintilantes. «Felicíssimo» diziam todos, mas de Marta nada afirmavam, achavam-na impenetrável, intocável.
O casamento de João não fora tão feliz como imaginara e o que obteve não foi amor, nem carinho, conversas ou passeios de fim-de-semana. «Uma tristeza», pensava.
Mas agora tinha-a nos braços outra vez e as palavras de Marta fizeram-no deixar para trás o flashback de há dez anos. Marta soltou-se do braço que a apertava e saiu da cama em passos descalços. Vestia-se agora à sua frente, deixara de lhe pertencer novamente, tornara-se novamente intocável, de rosto e mente fechados.
João precisou de esclarecer a sua cabeça, depois desta espécie de relação contratual. Vestiu-se e saiu também para andar, tomar um café e, nas suas borras, encontrar o sentido da vida. Ao longe, um menino de três anos ou de tal aparência, brincava, empurrando com o pé um carrinho verde de corda. João sentiu-se vazio enquanto o observava: deixou de ter mulher e filhos, esses nunca os teve. Cada vez que expressava esse desejo, o ar entediado que só Marta sabia fazer, logo o dissuadia. Os pensamentos de João são descontinuados quando numa outra esplanada vê (parece-lhe) Marta, chorando e falando com uma mulher, talvez de sessentas, de olhos fortemente pintados e decote provocante.
Não teve forças para se levantar, mas observa-as de longe, procurando ler nos lábios, as palavras que suspiravam em jeito de desabafo.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – IX


(…)
Com os olhos semicerrados, em habituação à luz que irrompia pela janela, João levantava a cabeça em direcção àquela porta. Da noite anterior (ou teriam passado dias?) pouco se recorda, mas as consequências estão bem visíveis. Sente-se febril, com água a escorrer-lhe pela testa em suores frios, alguns hematomas e escoriações na face, na cabeça e uma dor constante e repetida que o atormenta. No meio desta confusão, ali estava João, despido numa cama desconhecida, numa casa desconhecida e com “visões”, pensava. Quase que podia jurar que cabelos ruivos esvoaçaram, mais que uma vez até, para lá daquela porta. Enquanto confrontava a sua mente com as dúvidas e as incertezas, atentava no aspecto daquele quarto. Era uma divisão antiga, com um leve cheiro a mofo e o soalho de madeira com resto de cera cascada. Uma cadeira escura serve de suporte para um vestido curto preto e uma peça de lingerie da mesma cor e insinuante. A um canto, uma estante alta, repleta de prateleiras, gavetinhas e pequenos nichos, recheada de livros antigos, de lombadas grossas, amassadas e de toda a espécie de acessórios, desde anéis, pulseiras, colares, até elásticos e ganchos pretos para o cabelo. No chão, sapatos. Muitos, de todos os feitios (de plataforma, rasos, de salto alto, agulha, abertos, fechados) e várias cores. Tudo coisas que não condiziam com o aspecto humilde da casa. À medida que observava, já ele se tinha levantado muito a custo e pisava o chão frio; sente o soalho a ranger e num movimento brusco quebra uma jarra azul, que pousava, silenciosamente sobre uma mesinha. Ouvem-se passos em direcção ao quarto e João permanece imóvel, de pé, fitando a porta e sentindo um cheiro doce no ar. Num misto de medo e curiosidade, baixa-se e agarra uma chave grande, de ferro, de aspecto antigo, que estava caída. Mas quando levanta a cabeça, eis que uma figura familiar se lhe apresenta:
«Não seria melhor estares deitado?»
João não consegue acreditar no que vê e esfrega as pálpebras, vez após vez. Tantas semanas a imaginar um reencontro com Marta e num momento de desespero, em que julgava que isso não mais aconteceria, surge-lhe, quase por encantamento. João esfrega as pálpebras e Marta sorri; e Marta continua a sorrir, enquanto João continua a demonstrar a sua incredulidade.
«Não posso crer», era o que conseguia dizer-lhe. E Marta sorria. Estava mais bela que nunca: cabelo luminoso e mais curto, vestuário casual e um sorriso tranquilizador.
Assim se passam horas. João colocava as suas dúvidas, sabia mais pormenores acerca do acto bondoso para com ele e Marta, sorrindo, respondia e cada vez que molhava as bolachas de manteiga no chá, mais certezas tinha que a sua vida se cruzaria com a dela.

(Continua)

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Marta e as Sabrinas Vermelhas – VIII


(…)
O pensamento de João manteve-se o mesmo durante semanas completas. Não lhe saía da cabeça aquela mulher, jovem singela e tão misteriosa. Tudo era vivido de novo, em flashes instantâneos, em epilepsias de movimentos, palavras, sons e cheiros: o modo como o sapato lhe caíra do pé, a tez rosada, as mãos pequenas e pálidas, o vazio sonoro do vão de escada, o beijo roubado, o choque da mão na face e o cheiro a flor de laranjeira.
«Marta, Marta… por que não me sais da cabeça», pensava João enquanto lá fora chovia; mas não se interessava se tinha deixado as janelas do quarto abertas e se a água já lhe molhava as cortinas e o tapete. Mal nenhum, a seu ver, comparado com a presença daquela mulher, na sua mente. O pensamento ratava e consumia-o por dentro, em desejos adulterados, como alvíssaras de se ter tocado aqueles lábios.
Mais uns quantos jantares sociais, mais umas quantas conversas de biblioteca, charutos diminuídos e senhoras acompanhantes e nem sinal de Marta. João não percebia porque não mais a tinha visto, mas percebia menos porque uma desconhecida lhe dava voltas na cabeça. Bebidas a mais, dias a fio, e o desespero que o destrói. Passa a ser frequentador de espaços, ditos de alterne, e todo o género de ruelas imundas, ocupadas por vidas amarelecidas. E o desejo pela desconhecida é directamente proporcional à sensação de cair no fundo do poço. Num desses dias deprimentes, de chuva cinzenta, João percorre as ruas em movimentos bambos e palavras inusitadas para as mulheres de vida, até que cai na calçada desfeita pelo tempo e pelas pessoas. Já nem sente a chuva, já nem sente a dor e ali fica até perder os sentidos.
Abre os olhos mais tarde e da chuva nem sinal, do corpo molhado também não. Apenas o corpo nu em contacto com os lençóis brancos e uma casa quase vazia, de aspecto antigo. Não percebe onde se encontra; pontos de referência, nenhuns e somente na cabeceira da cama, um velho crucifixo negro. Uma porta aberta dá acesso a outra divisão e naquele momento, apesar da fraqueza, quase jura ver uma cabeleira ruiva.

(Continua)
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Marta e as Sabrinas Vermelhas – VII


(…)
Nunca antes João, no seu círculo social, tinha visto aquela menina-mulher. Estranho facto, pois era já hábito frequentar todas aquelas festas e nem sinal daquele cabelo ruivo vistoso e daquelas mãos pura seda. Tentou perceber quem era, qual o seu nome, quem acompanhava, mas a cada passo dado em sua direcção, havia um toque no casaco, no ombro ou em qualquer outro sítio que o impedia. Até que, a dado momento, pelo canto do olho, verificou que alguém, diga-se um conceituado juíz, a puxava pelo braço e tocava com o bigode nesse belo pescoço. O sentimento inicial foi de repulsa por aquele par improvável, logo seguido de um sentimento de dó. A cada toque do juíz, ela revirava os olhos, cerrava os dentes e murmurava sons que lhe pareciam nãos. E não se cansava de observar, ora aquela beleza, ora aquele companheiro de aspecto duvidoso.
É chegado o fim da noite e todos se dirigem para a saída, em passos cadenciados, por umas escadas antigas de estilo vitoriano. João também o faz, com um charuto na mão direita e a mão esquerda cerrada, ansiosa, numa curiosidade desesperada. E ali estava ela, escassos metros à sua frente, à distância de um toque, de um sussurro e eis que um sapato lhe cai do pé, qual Cinderela dos tempos modernos. João baixa-se e pega naquele sapato (de tamanho pequeno, quão singela era) envernizado, de salto alto e cor preta.
«Desculpe, ainda não me habituei a eles», diz uma voz melodiosa, suave e melodiosa, tal qual fora imaginada. «Não tem importância, afirma João num tom de voz semelhante ao que usaria se dissesse que a desejava. Os olhos cruzam-se, à média luz do vão de escada e cria-se uma cumplicidade imediata. João, impetuoso, surripia-lhe um beijo, como se sorvesse um doce. Um beijo que lhe soube a flor de laranjeira, um sabor igual ao cheiro. Um sabor que não dura muito, já que, ofendida pela ousadia, a mão suave dirige-se à face ruborizada de João e os pés singelos dirigem-se para a porta numa correria, como se tentassem alcançar algo.
«Espere! Não me disse o seu nome…», grita João, esperançoso.
E apenas um som se ouve:
«Marta…»
«Marta…», repete João para si mesmo, enquanto sente novamente o aroma de flores de laranjeira surripiadas.

(Continua)
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Marta e as Sabrinas Vermelhas – VI


(…)
João sentia-se impotente para dizer fosse o que fosse. Conhecia mal a sua esposa para poder adivinhar o que lhe ia na alma, mas conhecia-a suficientemente bem para saber que não lhe podia arrancar palavras da boca, como se arrancam processos dos tribunais. Aliás, apesar de ser advogado, João não era bom no que fazia, tendo, em 15 anos, perdido mais de metade das causas. Culpa do pai que, dada a sua influência e nome na sociedade, sempre desejara que o filho mais velho exercesse advocacia e seguisse o seu exemplo. Mas o talento de João sempre foi outro, um nobre sentimento artístico, o apelo dos pincéis, tintas d’óleo e telas. No entanto, nunca teve oportunidade de explorar essa sua aptidão; infelizmente, pois João sentia-se deslocado do meio em que se movia e isso reflectia-se na sua disposição. Nunca teve paciência para aqueles grandes jantares, ditos de negócios, mas havia sido num desses que conheceu Marta e lembrava-se ainda perfeitamente desse momento. Enquanto agarra Marta pela cintura desnuda e espera que ela lhe sopre a alma, João vê-se subitamente nesse jantar, nessa noite.
Outubro. Dez anos atrás. Um João mais fresco e impetuoso, vestido com um fato cinza-escuro, uma camisa branca comum a tantas outras e uma gravata de seda persa, vermelha, oferecida pelo seu pai, movia-se numa sala ampla, bebendo uísque escocês e soltando fumo de um charuto cubano. O meio social era o de sempre: jantares oferecidos pelo seu pai a promotores públicos, advogados, juizes, sócios, em que toda a nata da sociedade estava presente. Um leve soar da campainha convida todos a se sentarem para a refeição e enquanto se movimentam em direcção à sala de jantar, um dos botões de punho de João, caros e reluzentes, prendem-se num belo vestido negro, cintado.
«Desculpe, não a vi» ouvir-se-ia João dizer e uma mão suave e pálida quase brotaria para responder: «Não se incomode». Palavras banais e o olhar que nunca se chegou a cruzar, apenas umas notas de flor de laranjeira no ar. Findo o jantar, os homens reúnem-se na biblioteca de aspecto colonial para trocar ideias e as suas acompanhantes, muitas delas de ocasião, trocam olhares e cochichos entre vestidos de noite. João rapidamente se abstrai da conversa demasiado política, demasiado partidária e os seus olhos focam-se na porta entreaberta que lhe permite ver uma bela mulher (menina, poder-se-ia talvez dizer), de cabelos ruivos, sardas na face e olhos expressivos que miravam, entediados, todas aquelas mulheres engalanadas de maneira sugestiva.

(Continua)

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