Category Archives: Morte

Dia nenhum, hora para esquecer


Se me visses agora, tinhas pena de mim. Não gosto de imaginar sequer que tens esses sentimentos por mim, mas a verdade é que não estou bem. O cansaço toma conta de mimPAN-PAN-PAN – e oiço a baterem-me de dentro para fora – PAN-PAN-PAN – e tento gritar, mas os músculos da garganta secam de tal maneira que os oiço a rasgarem – CREEE – CREEE – e o estômago revolta-se em palavras antigas, até que as veias dilatam e tudo o que tenho por dentro fica liquefeito em substâncias desnomenclaturadas. O passado volta em forma de vómito, eu a vomitar como se de barco fosse e as letras cuspidas a prenderem-se nos dentes. PAN-PAN-PAN – batem-me por dentro e eu cuspo, vomito e revolvo o que ingeri em horas de vida. Sinto nojo, nojo do que sai – percebo que a minha essência é negra – arranham-me o pulmão esquerdo e mais nojo sinto. O sangue não pára e jorra, jorra em cachão e quase que me afogo no meu interior – negro por sinal. E quanto mais grito, mais me batem – PAN-PAN-PAN – e mais negro vomito. E raspam-me como uma carcaça velha – CREE-CREE – com aquelas facas dos talhantes e que serviram já para cortar a vazia do novilho, no mesmo CREE-CREE – com que me cortam e com a mesma força – PAN-PAN-PAN – com que me batem.

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Eu, Rosa. Ele, Zacarias.


Conhecia-o desde criança. Tinha eu seis anos de idade e ele, mais velho, possuía já oito dos mesmos. Na altura, era apenas um companheiro de brincadeiras, com as fraldas da camisa de fora e com o nariz por assoar. Recordo-me das horas passadas juntos no jardim da Tia Beatriz. Ainda hoje vejo o baloiço de madeira que o senhor Ezequiel da padaria havia feito, a cova em costumávamos jogar ao berlinde e a sebe em que nos refugiávamos, quando o sol impiedoso nos afligia.
Belos tempos em que a ingenuidade e a simplicidade de cada um se conjugavam na perfeição. Sendo ambos de famílias pobres, os nossos pais trabalhavam no campo, enquanto as mães, laboriosas, ocupavam o tempo a fazer pequenos naperons em renda de bilros, para ajudar ao fraco rendimento doméstico.

Juntos corríamos as searas de milho. Juntos subíamos às árvores. Juntos tomávamos banho no leito, quase seco, de um velho ribeiro. Tudo como amigos, quase irmãos. É verdade que, à medida que íamos crescendo, a curiosidade em relação ao nosso corpo aumentava. Quase uma década e meia depois do meu nascimento o corpo mudava, ansioso por se tornar mulher. O cabelo, negro como o basalto, de dimensões consideráveis, dava-me um aspecto mestiço. Os olhos, negros e amendoados, davam-me uma expressividade tal, que quase era impossível não reparar. Tez morena, pernas longas, formas redondas e seios generosos eram os meus atributos. Ele, por sua vez, tornara-se um homem já com quase dezassete anos. Devido ao calor que se fazia sentir, era comum andar com o peito descoberto. Era bem delineado, com uns braços fortes e mãos vigorosas. Na sua face existiam já uns pêlos negros, vislumbre da sua maturidade.
Apesar das mudanças físicas, pouco tinha mudado. O trabalho do campo continuava e a renda de bilros igualmente.
Ao entardecer, eu baloiçava no quintal da Tia Beatriz, para a frente e para trás, ansiosa por alcançar o infinito. Ele, como de costume, deitava-se junto à sebe, cansado da jornada.
– Queres banhar-te no ribeiro, como fazíamos nos tempos de meninos?
Juntos corremos a clareira de onde se espraiava o leito do ribeiro. O calor tórrido, semelhante ao de um forno, deu lugar a uma frescura temperada. Rajadas de vento sopravam de sul. Num ápice e de uma forma muito natural, despimo-nos completamente. Era comum fazê-lo. Rindo, saltávamos para dentro de água e salpicávamo-nos até ficarmos totalmente molhados. Mas nesse dia foi diferente. Enquanto eu me despia, ele admirava-me, com olhos de nervosismo. O vento soltou-me o cabelo e os raios de sol destacaram-me o corpo, tendo como apanágio o peito brilhante e húmido. Eu, quase como uma espia, também o vigiava com o olhar. Pernas vigorosas suportavam um corpo escultural, digno de Adónis. Um membro desenvolvido, conhecido desde crianças, parecia-me, nesse dia, extraordinariamente apetecível, enquanto pendia ao sabor do vento. As gargalhadas infantis foram substituídas por olhares rendidos aos encantos mútuos. A água rodeava-nos pela cintura e já os lábios se exploravam. As mãos e braços percorriam os corpos, tantas outra vezes tocados, sem malícia. As pernas entrançavam-se numa dança de almas e ao mesmo tempo, sentíamos o sabor, íntimo e profundo, de cada um.
Já em terra, continuámos despidos perante o céu, enquanto as mãos me acariciavam o peito e lhe tocavam o que me tinha invadido uns longos minutos antes.
De regresso a casa, o céu parecia uma cortina cinzenta. Quase não tocámos no jantar, envergonhados pelo que tinha acontecido, mas invadidos por uma súbita sensação, de contornos indefinidos até então. Mais tarde, caída a noite, fui acordada por um trovão, seguido de uma rajada de vento. As faíscas riscavam o céu. Numa dessas, observei um vulto. Vulto esse que invadiu o meu quarto, me tapou a boca com uma mão suada e me desejou, enquanto eu, desesperada, me limitava a resistir com todas as forças que tinha. Numa outra faísca percebi as suas feições: a barba mal aparada, um cheiro horrível, um corpo peludo e uns traços que nunca conseguiria esquecer. O Tio Alberto. Homem maduro, cinquentas. Desde pequena que me observava, tomado por um desejo imoral, obsceno, enquanto a Tia Beatriz sofria. Um animal autêntico. E eu ali, sem forças para o afastar. Impelida pela raiva e repulsa, peguei um velho candeeiro de petróleo junto à cama e rachei-lhe a cabeça. Sem arrependimento.
Corri do quarto em direcção à rua. Um pingo de água tombou-me no peito nu. Procurei o meu amado Zacarias na eira em que dormia. Apenas umas mantas vazias. Fugi em direcção ao ribeiro. Um corpo imóvel estava junto à água. Cadáver. Zacarias. O sangue escorrera-lhe do peito, formando uma poça vermelha viva, orlada de insectos. Calculei que tivesse sido atingido a frio, com uma faca de mato ali caída, claudicando e morrendo da hemorragia. Junto a ele estava o fio de ouro do Tio Alberto, oferecido há vinte anos pela Tia Beatriz. Num rasgo de tristeza e fúria, lancei-o à água. Beijei os lábios do meu querido e fiz com que a faca coberta do seu sangue, me invadisse o coração e derramasse o meu.
Mais pingos e remoinhos de vento. Grossos pingos de chuva desenharam círculos sobre a superfície do ribeiro. Então a água começou a cair a potes. Uma torrente portadora de vida correu sobre a terra, fazendo esquecer o vermelho vivo que nela jazia. Ali ficámos os dois. Juntos. Eu, Rosa. Ele, Zacarias.

Águas Passadas

As nuvens encobriam os primeiros raios de sol da manhã. O mar estava revolto e a praia deserta. Um homem reformado fazia um passeio matinal. Os pés próprios de quem trabalhou toda a vida, tocavam na areia molhada. As ondas beijavam-no.
Ao longe, um molho de águas verdes confundiam-se com o azul-marinho do mar. Uma onda arrastou-as para junto dele. Afastou-as com o pé. Sentiu algo pesado. Olhou: um corpo de mulher boiava à beira-mar. O seu olhar límpido fitava o céu, como quem pedia uma oportunidade ao mundo.

O Fim da Linha

Ela passeava pelo asfalto. A temperatura do chão queimava cada pegada sua. Caminhava com uns sapatos vermelhos na mão. O seu andar era débil e decrépito. Cada passo dado era uma fuga às responsabilidades. Cada suspiro era uma parte da sua alma que se soltava. O modo como o seu olhar se prendia no firmamento era revelador da sua ansiedade e da necessidade que tinha em avançar no tempo. Esquecendo a sua vida e as pessoas de quem amava, ela corria. Corria sofregamente, à espera de encontrar o fim da linha. Uma gota de suor escorria pela sua face. Confundia-se com as suas lágrimas. Lágrimas de despedida.
Correu. Passou por uma ponte. Pareceu-lhe um escape para outra dimensão. Os carros circulavam. Ela passava ao seu lado. Olhou o rio. As luzes dos candeeiros de rua reflectiam a sua índole.
Desprendeu-se da vida. Abriu os braços. Precipitou-se para o rio. Durante o salto, ouviu um murmúrio surdo. Eram as vozes da sua consciência inquieta.

A Morte nos Braços

Sinto a lua nas minhas mãos. Tenho vontade de mudar o mundo. Tu que jazes nos meus braços e fitas o céu com um olhar mórbido, foste a minha lua durante muitos anos; a minha sensação de poder. Sentia que tu me pertencias e que o teu corpo era meu. Sentia-me dentro de ti. Amava e era amado. Não consigo definir o sonho, mas sei que ele une as pessoas e os locais até formarem um só. Sei que poderíamos ficar para sempre neste local. Sozinhos. Agora contigo imóvel nos meus braços, fecho os olhos. Deixo-me levar. Sinto o teu corpo no meu. Sinto a leveza da lua nas minhas mãos.

Prenúncio de Morte

Ouvimos o canto das cotovias no azul imenso e ainda mal percebemos o som das armas e das explosões ao sul da nossa terra. As papoilas florescem vermelhas no campo; talvez um prenúncio do nosso futuro. Nós somos os Mortos. Jazemos nestes campos. Agora passamos-te a nossa tocha, para que a ergas bem alto, como se fosse tua, para que as cotovias possam voltar a cantar e as papoilas a crescer…