Category Archives: Natal

Vinte e Cinco de Dezembro

Diz-me que passas este dia comigo, que os outros dias não interessam nem ao diabo, que o ontem já lá vai, que águas passadas não movem moinhos. Peço-te que esqueças o que de mau se passou todo o ano, que não evoques as crises surgidas entre nós, as discussões em tom alto ouvidas por todos e as pragas que te roguei.
Por favor, apanha o próximo autocarro, veste um trapo qualquer, não precisa ser de gala e vem ter a nossa casa. Toca à campainha que desta vez eu abro-te a porta. Diz-me que passas este dia comigo, não quero ficar sozinho a reparar nos enfeites de Natal, a ver os troncos a arderem lentamente ou a devorar uma caixa de chocolates. Não fales nos motivos da nossa separação, se agi bem ou se agi mal, não comentes as injustiças que nos aconteceram porque hoje é dia de festa. Tenho um presente para ti, ali embrulhado debaixo da árvore de Natal, é o único, foste somente tu que convidei.
Vem passar o Natal comigo e ouvir os cânticos costumeiros, diz-me que ainda gostas de peru, se o queres bem ou mal passado. Hoje é dia de Natal e não tenho mais ninguém, responde-me se ouvires esta mensagem de voz.

Trigésimo Sétimo Natal

É Natal outra vez, é Natal outra vez. Sucedem-se os Natais, todos os anos mais um, cada um chega mais rápido que o outro e eu aqui, sozinha, à média luz de um candeeiro. Todos os anos se sucede o mesmo, em catadupa, como se fosse costume natalício: apaixono-me. E a paixão não é fácil, não, não é fácil, muito menos para mim.
É Natal outra vez e tu não estás, nem tu, nem ninguém, nem este, nem o outro, nem o do ano anterior ou de há dois anos. É Natal outra vez e vesti-me a preceito, vestido preto cintado e decote generoso, com esperança que reparasses
– Fica-me bem o vestido
notasses o penteado cuidado, de tal modo engalanado e que afirmasses
– Fica-te bem assim o cabelo,
mas não estás cá para ver. É Natal outra vez e vesti-me a preceito para fazer companhia à solidão. Esta mesma não me diz
– Fica-te bem o vestido
ou
– Fica-te bem assim o cabelo,
esta mesma não me diz nada, não se desfaz em elogios, não se derrete comigo e permanece impunemente gelada perante mim, sem pronunciar som algum.
É Natal outra vez e sento-me à mesa tradicionalmente composta, sirvo-me a mim própria, em doses pequenas e suspiro
(suspiro ou sonho ou rabanada)
suspiro trinta e sete vezes, cada uma por cada Natal passado. Novo Natal, a vela vermelha ao centro a derreter junto comigo, a verter refugo de mim e eu sozinha já sem vela e só à média luz do candeeiro. É Natal outra vez e sento-me à lareira, esperando o amor e o presente que não chegam. É Natal outra vez e adormeço no sofá, com a lareira apagada, o vestido amarrotado e o cabelo já despenteado num eterno suspiro
(suspiro ou sonho ou rabanada).

Photo by://PrayerForRain