Category Archives: Pessoal

tumblr_mw4wtuboYr1qb30dwo1_500  A fechadura foi desfeita. Antes de encontrarmos a chave.

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O dia

Tenho medo do dia. Do sol, da luz, das pessoas atarefadas na rua, a calcorrear as ruas, formigas, imparáveis, cansadas, fatigadas. Tenho medo do dia. E tenho medo do dia em que chegue a casa e não estejas mais, que te tenhas ido, que tenhas deixado meia dúzia de coisas para trás, uma coisa ali, outra acolá, esquecimentos normais de quem se muda, de quem perde caixas, berloques por ali, um gancho no chão, uma fotografia caída. Em que abra o frigorífico e faltem as tuas coisas do costume, os teus gostos, a tua personalidade ali numa qualquer prateleira a precisar de ser lavada. Tenho medo do dia em que me ligues, passados meses, anos quem sabe e digas

– Querer ir tomar um café?

E eu surpreso por tomares café, eu a deixá-lo porque me deixa a mim mais nervoso, tu a bebê-lo porque agora tens novos hábitos, novas rotinas, uma outra vida. Uma vida a dois, a outros dois, tu e outro, não tu e eu, como sempre foi, como sempre pensava que seria e tu olhares para mim e dizeres

– Então e tu?

E eu a pensar, então e eu? que raio é isto, eu a olhar para ti a mexeres o açúcar no café, eu a brincar com o pacote vazio, então e eu, e sem saber te responder, porque eu sou eu, mas sem ti sou diferente. Eu sou eu.

– Então e eu?

E a mesma dúvida, e eu. Eu? Sem ti, sou eu, mas não sou eu, sou eu sem ti e não gosto disso. E sou eu, sozinho. Sozinho porque não esperei por ti, porque sabia que não tinha o direito de esperar, porque sabia que não ias mais voltar, porque sabia que tu querias outra vida, experimentar o que não conseguiste, ganhar o que não te soube dar. Então e eu, sou eu. Sozinho, eu. Sozinho porque quis, porque não deixei nunca de te amar.

– Então e eu? Deixei de beber café.

É sempre nas maiores tempestades interiores que este é o meu maior porto de abrigo.

Repito o que escrevi há muito tempo atrás: «É sempre nas maiores tempestades interiores que este é o meu maior porto de abrigo». Volto aqui por isso mesmo, porque tenho que aprender a viver no meio de uma tempestade interior, que me consome. Uma dor que não desaparece, um sentimento de culpa, de perda e de saudade. Que não falei quando devia, que não agi quando devia. Que não disse sempre o que era preciso, sem ser tarde demais. É tarde demais porque perdi o meu mundo e nunca o vou recuperar. E por isso digo «É sempre nas maiores tempestades interiores que este é o meu maior porto de abrigo».

Quando daqui desaparecer outra vez, essa será uma boa notícia.

E eu que ainda não me tinha apaixonado hoje.

E eu que ainda não me tinha apaixonado hoje assim de súbito, de rompante como quem entra pela janela, aquele

Ai.

o suspiro, ai que vida é a minha, que não sei o que fazer. A cabeça a andar à roda, as borboletas na barriga, a impressão que já te vi em qualquer lado, o olá tudo bem, gostavas de ir tomar um copo, gosto de ti. Simples, sem tirar nem pôr, sem espinhas, claro como água. E eu que hoje ainda não me tinha apaixonado. Porque a paixão cansa e quem não se cansa é porque nunca esteve apaixonado.

Bastou-me ver que tu tens defeitos, que és real. Difícil, mas apaixonante. Complexa, mas adorável. E eu que ainda não me tinha apaixonado hoje porque ainda não me tinha apercebido que tu existes, que estás cá, que fazes parte. Afinal sou apaixonado.

Aquilo que é o Amor não é fácil de definir.

E se acordares todos os dias de manhã à espera que o Amor cresça mais um bocadinho e não o veres a acontecer? E se te perguntarem se amas mais agora que amavas no início e tu não souberes responder? Não é fácil não te engasgares, sem resposta a tais questões. E se me perguntares

sim, tu meu amor

se me perguntares assim como quem espera a resposta, uma resposta curta e concisa, se me perguntares

Amas-me muito?

eu não saberei responder correctamente, porque não sei quantificar aquilo que sinto, porque não sei sequer definir aquilo que sinto. Sei diferenciar aquilo que é paixão e aquelas borboletas e aquele frio da barriga, daquilo que tenho agora. Porque não é o mesmo e sei que mesmo que seja fisiologicamente mais calmo, é melhor. Sei que te amo, mas não sei dizer porquê, não sei dizer como, nem sequer o quanto muito ou pouco, o como viemos aqui parar. Não sei definir, não sei escrever, não sei explicar. Aquilo que é o Amor não é fácil de definir.

E se te responder assim com um

Não sei

não te ofendas, não te irrites, não te desiludas. Porque esse

Não sei

significa que te amo e muito. Porque aquilo que é o Amor não é fácil de definir.

Im(perfeito)

Se as imperfeições não se amassem, o amor soaria tão mais falso. Se o Amor não fosse também ele falho e imperfeito, nada faria sentido. Os defeitos também se amam, as falhas também se gostam. Porque tudo, assim de repente, parece tão mais verdadeiro, tão mais único. E real, acima de tudo real. Porque o Amor não é aquilo que os livros e os filmes nos fazem crer, o Amor não é aquilo que nos parecem forçar a acreditar desde pequeninos. O Amor é isto. O Amor é a realidade e nunca a fantasia. E por isso que o Amor nos vale tanto, porque nos completa. E mesmo essas falhas são completas. O Amor é completo apenas nas imperfeições.

Pare, Escute e Olhe.

Olha para ti e vê o que és. O que te tornaste. Descobre

O que tens dentro de ti?

e apercebe-te realmente a tua forma mais primitiva de ser, o teu âmago, tu mesmo. Encontra a verdadeira acepção de personalidade e percebe, por favor, essa tua necessidade instintiva de seres aquilo que não és – talvez o sejas – ou de pareceres aquilo que nunca foste – mas que queres ser, aparentemente o queres, ai as aparências. Olha mesmo a fundo e compreende essa tua necessidade de ódio, não gostas de o sentir, mas gostas que o sintam por ti. Que necessidade é essa? Cala-te não digas baboseiras, palavras estúpidas, intrincados e complexos argumentos dentro de ti mesmo – as dualidades, as vozes. Vozes, duas vozes e sempre uma se sobrepõe à outra. Sempre sentes necessidade de veres os dois lados, sentes os dois lados como teus, nunca te sentas do esquerdo ou do direito – a corda bamba, sempre a corda bamba. Queres que o teu lado seja sempre o negro – negro, não – o dúbio – o cinzento, esse sim. Sim queres, mas o que é isso. Auto-comiseração? Não o é. Sabes que não o é. Porque não há ninguém que sinta tão menos pena de si. Porque

lá está, sempre o mesmo

o ódio, a nulidade, a ignorância é o que geras, é o que queres. Mas depois não aceitas, não o queres, não o gostas. Olha-te, vê-te. Vai e encontra-te depois dessa tua mortificação. Essa barbaridade estúpida. Porque o és. Bárbaro, não. Nunca. Estúpido, sim. Sempre. Muitas vezes. Algumas. Poucas. É o veres sempre os dois lados.

Medo de seres nada.

– Sabes lá tu o que é estar sozinho.

Nem tampouco sabes o que é a solidão. Mas sabes o que é o medo, sabes o que é sentires-te na escuridão, preso ao temor do nada, preso às falhas, preso ao que não tens. E por isso tens medo, de seres menos, de seres pouco, inadequado. Medo de não servires, de não prestares, de te enganares – e oh! o quanto já te enganaste – de falhares, de fazeres merda – és um merdas – de voltares a sê-lo e de falhares. Sim, de falhares. Isso sabes tu o que é. Não sabes o que é a solidão porque tens medo dela. Não aguentas estar sozinho, porque és fraco, porque amas. Mas sabes que és podre. A merda que tens dentro de ti e sabes que não podes falhar mais. Até sabes que não queres falhar mais. Mas sabes que dentro de ti não prestas e que por isso vais ser menos do que querem. E sabes que vais chegar um dia e não seres suficiente, porque falhaste em seres o que devias, o que podias, o que tinhas. E tens medo. Medo de seres tu só, de perderes quem amas, medo de seres só porque és mais, és muito e adequado apenas quando estás junto.

A solidão é um estado de nada ou um estado de tudo?

A depressão é a melhor inspiração.

O Abandono

Hás-de me explicar por que me afastei de ti. Sim, explica-me por que razão não pus cá mais os pés, por que deixei de pôr os pontos nos is, por que aqui já não é mais o meu lar, por que mi casa no es tu casa. Diz-me quais foram os motivos que levaram à nossa separação, por que é que as minhas letras já não se cruzam com as tuas, por que razão a nossa sintaxe entra em conflito.

Fugi de ti há mais de um ano. Regressei pontualmente como quem não tinha mais nada que fazer, como quem não suportava não ver nada de novo. A ausência de novidades amedronta-me. Não sei mais o que te escrever, não sei que elos nos unem, não sei que cabos se cruzam por nós. Há qualquer coisa aqui que já não é meu, que diz respeito a algo que já foi e não será mais, palavras que já não me caem no goto, frases que me gelam a cabeça.

Diz-me porque razão já não me dizes nada. Por que será que aquilo que me fazias sentir, já não me fazes. Diz-me, explica-me todas as razões, o porquê da minha ausência

(será que quer dizer alguma coisa?)

o porquê de já não sermos uma dupla, um casal alternativo das letras. Diz-me porque já não trocamos mais que uns meros olhares, uns meros vislumbres de textos já passados.

Não sei se consigo voltar a ti. Não sei se as minhas letras passarão de novo por este espaço branco. Não sei se chamarei abandono a isto, como diria Amália. Nem sei se ao menos ouves o vento, se ao menos ouves o mar.

Quanto.

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Quanto de mim pode estar aqui, contido nesta caixa? Quanto de nós pode caber na palma da minha mão? Quantas lembranças podem coexistir simultaneamente na nossa mente? Sim, quanto? O que se pode medir?

Diz-me. As lembranças são mensuráveis? O Amor é medido de que forma? Quanto centímetros de mim habitam no teu coração? Quanto de mim te atravessa, quanto de nós se cruza no mesmo caminho?

Quanto de nós existirá para sempre?

Limite

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Tenho pouco para dizer. Dizem que a boca fala daquilo que o coração está cheio. Mas e quando o coração está tão cheio que impede a boca de dizer tudo aquilo que o coração sente? E se o friozinho na barriga não deixa a língua articular as palavras como deve ser?

Devemos chamar a isso falta de inspiração? Talvez apenas um lusco-fusco mental, que não deixa a boca e o coração dizerem pouco mais que isto. Talvez seja um coração limitado a menos de 100 caracteres.

Não te tenho escrito.

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Não te tenho escrito. Tenho deixado a caneta parada, com medo de não conseguir exprimir aquilo que sinto. Sequei, todos sabem o que isso é. Mirrei a escrita, o poder da produção, a imaginação decaiu, a paciência decresceu. Sinto vontade de voltar ao mesmo espaço e de me perder em palavras, sílabas, consoantes e vogais. Todos nós mirramos um dia na vida.

Não te tenho escrito, com medo de me enrolar no caderno, de me atropelar no processador de texto, de tropeçar nas vírgulas, de criar pontos finais. Não te tenho escrito, porque a escrita às vezes mirra dentro de nós e precisa de ser regada. Não te tenho escrito, pois preciso de ser regado. Preciso de temperar as palavras, todos nós mirramos às vezes. Por isso é que não te tenho escrito.

Desculpa

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Desculpa-me todas as manhãs, se saio de casa e te dou menos beijos que na manhã anterior. Desculpa se não respondo às tuas mensagens, desculpa se, por vezes, não te digo tantas vezes como merecias, que te amo. Desculpa, se te amo tanto, com afinco e vigor e por vezes, me esqueço de demonstrá-lo. Desculpa se me consumo demasiado perante a minha vida e me esqueço, mesmo que temporariamente, da nossa. Desculpa, de vez em quando, não aceitar os teus mimos, desculpa se me falta o ar quando me abraças, desculpa se me irrito quando me tocas no nariz.

A sério, desculpa-me meu amor. Desculpa se já estamos juntos há um ano e eu te amo cada vez mais. Desculpa, mas eu acho que este amor não vai parar de crescer. Desculpa de não poder estar sempre ao pé de ti, de chegar a casa tarde e cansado, desculpa se sou calado, desculpa quando tens de me arrancar as palavras da boca, desculpa se por vezes me sinto frágil e não te dou segurança a ti. Desculpa se deixei de te escrever textos, desculpa se deixei de gritar na rua que te amo, desculpa.

Desculpa, às vezes o amor cresce tanto, que as palavras não chegam.

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Será a inspiração mais que um vazio?

Pensamento

– Gosto muito de ti.

Também gosto de ti. De qualquer forma, gosto de ti de forma quadrangular, rectangular e por vezes até circular. Gosto de ti moderadamente, de forma pausada e, em dias especiais, de forma apressada. Gosto de ti, de manhã ao acordar, durante o dia de sol e também quando chove.

– Fazes-me muita falta.

Somos dois. Dói-me a outra metade quando não estás, custa-me respirar na tua ausência, acho que tenho um sopro no coração quando me faltas. Apetece-me ir a correr bater-te à porta, tocar à tua campainha, gritar pelo teu nome e ver-te surgir novamente, com cara ainda de sono e a arrastar os pés pelo chão gelado.

– Nunca gostei assim de alguém.

Nem eu. Nunca soube o que era amar, até tu apareceres. Nunca soube o significado do amor, essa entidade abstracta de origem desconhecida, até surgires. Gosto de ti como nunca amei (nunca amei ninguém, sem seres tu), nem sei se te aplicas na categoria dos “alguéns”. Tu és tudo, não és alguém.

– Apetece-me beijar-te.

Vem ter comigo, dá-me a provar o teu sabor, deixa-me beber o teu aroma. Gosto dos teus lábios. A sério, gosto mesmo. Apetece-me beijar-te mesmo quando não estás, queria guardar-te os lábios numa caixinha, daquelas com laçarotes de cetim, para poder beijá-los quando quisesse.

– Deixas-me louca.

E tu a mim, nem sabes o quanto. Finjo um pouco, para não julgares que já nasceste ensinada, quando na verdade sabes mais que eu. Ensina-me novamente, deixa-me tocar-te em todas as extremidades, acho que ainda não percebi a lição. Dá-me a conhecer o teu corpo, que amanhã tenho aula de anatomia, a sério, vá deixa lá. Deixa-me louco, mais uma vez e outra e ainda mais uma.

– Amo-te.

Sim, eu também. Acho que isso diz tudo. Amo-te.