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Vermute – III

Acho que é a isto que se chama começar de novo. Partir do princípio que nada se passou, que nunca antes te conheci, que não te conheço, fingir que tenho amnésia, que me esqueci do teu nome, dos teus vícios, pecados e erros.

– Como é mesmo o seu nome?

e fazer-me de tolo, como se nada se tivesse passado, como se nem sequer me tivesses chamado à atenção, como se nem tivesse reparado nesse teu vestido, no teu trejeito com a boca, da forma como bebes o teu vermute, como se ali estivesse o teu destino, como se alguém te falasse do fundo do copo, com voz melosa e te dissesse qualquer coisa, numa língua desconhecida.

– Luísa,

dirias. Um nome assim, dito de um modo simples, seco, repetitivo, morto, como se fizesses um frete, como se o teu nome fosse apenas um acessório do teu corpo. Acho que é isto, pôr uma pedra no assunto. Perguntar-te o teu nome, fazer uma pergunta, sem saber sequer a resposta, é esquecer-me de como é o teu acordar, de como escovas os dentes pela manhã, de como gostas do café, curto, comprido, com ou sem açúcar.

– Parece-me que a conheço,

sinto-me tentado a dizer. E depressa reparo que descuido o esquecimento, que me faço de amnésico, que a pedra já cá canta, que o passado já lá vai, águas passadas não movem moinhos. Calo-me, silencio os lábios com mais um cigarro no canto da boca, sinto-me tentado a desviar o olhar, a não ligar, a esquecer o que já disse, a bloquear as palavras que teimam sair em catadupa.

– Posso oferecer-lhe outra bebida?

– Já ofereceu…

– Sabe, sofro de amnésia.

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Vermute – II

Levanto-me com aquela cara de sono a que já te acostumaste. Olhos miudinhos, raciocínio fraco.

– Fazes-me um café?,

sinto-me tentado a perguntar. Mas antes que o pergunte, já sei que não o fazes.  Ris-te daquela forma descarada a que já me acostumei.

És desleixada, eu sei. Sempre o foste. Raras vezes te vi de vestido ou maquilhada. Raras vezes te vi aperaltada, raras vezes te vi bonita. No entanto, continuei a gostar de ti. Ris-te de forma descarada e isso agrada-me.

Não sei quantas noites já passámos juntos, mas sei que ocupas sempre o melhor lado da cama, que me roubas os lençóis, que passo toda a noite acordado e cheio de frio. Gosto de ti, sabes? Gosto de ti egoísta, gosto de ti quando só pensas nos teus desejos, gosto de ti quando me ignoras dias a fio.

Acho que precisas de alguém que cuide de ti. Alguém que te aperte o tubo da pasta de dentes, alguém que apanhe as migalhas da cama, quando resolves comer bolachas a meio da noite.

Não percebo como voltámos ao mesmo, estás diferente agora. Nunca imaginei ver-te de vestido vermelho, a traçar a perna, copo de vermute na mão, a rires-te ainda mais descaradamente. Mulher estonteante, eu de cigarro na boca, a pender, a enlouquecer e tu ali a beber o teu vermute.

– Não, não. Não nos conhecemos. Nunca te vi. Mas sim, estaria disposto a conhecer-te. Paulo, muito prazer.

e rio-me de forma descarada.

Vermute – I

Foi bom. A sério, acredita que foi realmente extasiante. Nunca julguei que te fosse encontrar no café, precisamente àquela hora, numa tarde soalheira, de vestido vermelho, perna traçada, a saborear um vermute seco.

Eu chego, de cigarro no canto da boca, distraído com a cadência da rua, de casaco ao ombro, a admirar-te, mulher vistosa. Distraio-me, não percebo que és tu, que és a mesma Luísa de antigamente, aquela que se vestia de forma desportiva, a que fumava cigarros de manhã, em jejum, a desleixada.

Piscas-me o olho de forma descarada, não sei se me conheceste ou se pensavas em engatar mais um homem bem-parecido. Pisco-te de volta, com um sorriso entre dentes, como um garoto envergonhado.

– Outro vermute para aquela menina.

E tu convidas-me a sentar naquela mesa, sorris-me descarada, piscas-me o olho descarada e apresentas-te descarada:

– Luísa. Não nos conhecemos já de algum lado?

E o meu sorriso é envergonhado, não sei o que te hei-de responder, não sei se te lembras que vivemos juntos cinco anos, que partilhámos a mesma casa-de-banho, a pasta de dentes também

(a escova de dentes, não.)

e que cozinhámos no mesmo espaço.

– Paulo.

E esqueço-me de dizer mais algumas palavras, basta-te o meu nome a ver se me conheces, a ver se tens reacção, se levantas o sobrolho ao menos, em jeito de espanto.

– Parece-me que te conheço…

E ris-te de forma descarada à espera de uma resposta minha.