Quanto.

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Quanto de mim pode estar aqui, contido nesta caixa? Quanto de nós pode caber na palma da minha mão? Quantas lembranças podem coexistir simultaneamente na nossa mente? Sim, quanto? O que se pode medir?

Diz-me. As lembranças são mensuráveis? O Amor é medido de que forma? Quanto centímetros de mim habitam no teu coração? Quanto de mim te atravessa, quanto de nós se cruza no mesmo caminho?

Quanto de nós existirá para sempre?

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Limite

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Tenho pouco para dizer. Dizem que a boca fala daquilo que o coração está cheio. Mas e quando o coração está tão cheio que impede a boca de dizer tudo aquilo que o coração sente? E se o friozinho na barriga não deixa a língua articular as palavras como deve ser?

Devemos chamar a isso falta de inspiração? Talvez apenas um lusco-fusco mental, que não deixa a boca e o coração dizerem pouco mais que isto. Talvez seja um coração limitado a menos de 100 caracteres.

Silêncio.

O que é o silêncio que talvez pouco mais que ter demais para dizer? O que é o silêncio que pouco mais que a ausência? O que é o silêncio que pouco mais que o branco? O que é o silêncio que pouco mais do que cheio?

O que é o silêncio?

Não te tenho escrito.

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Não te tenho escrito. Tenho deixado a caneta parada, com medo de não conseguir exprimir aquilo que sinto. Sequei, todos sabem o que isso é. Mirrei a escrita, o poder da produção, a imaginação decaiu, a paciência decresceu. Sinto vontade de voltar ao mesmo espaço e de me perder em palavras, sílabas, consoantes e vogais. Todos nós mirramos um dia na vida.

Não te tenho escrito, com medo de me enrolar no caderno, de me atropelar no processador de texto, de tropeçar nas vírgulas, de criar pontos finais. Não te tenho escrito, porque a escrita às vezes mirra dentro de nós e precisa de ser regada. Não te tenho escrito, pois preciso de ser regado. Preciso de temperar as palavras, todos nós mirramos às vezes. Por isso é que não te tenho escrito.

As Putas

nullA penumbra premeditada, o ambiente enevoado, as colunas extravagantes, tudo era estudado ao máximo, no espaço que carregava o peso das putas. O batom vermelho esborratado, o tom carmim das faces, os trajes andrajosos, a pose, o fumar à entrada, as peles sintéticas sobre os ombros. Tudo na sua atitude, fazia entender que eram putas. Como se isso as fizesse sentir melhores, como se fosse a sua pequena vingaçazinha, o seu gosto. As putas não sorriam. Detinham aquele ar de desprezo, aquele típico aspecto de quem desdenha, de quem é puta.

E os homens a surgir em carreiras, homens de negócios, negócios deixavam-nos lá fora, trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Homens de fato, a desapertar as gravatas, a beber uísques, a sonhar que elas o desejavam. E queriam acreditar nisso, que aquelas mulheres os queriam, que não era do dinheiro. Sobretudo quando gemiam. Os homens queriam acreditar que sim, que elas gostaram deles, que lhes iam pedir para voltar sempre, que pensavam, quem sabe, fugir, que nada era fingido, que o fingimento ali não entrava. Sim, eles gostavam quando elas gemiam. E acreditavam que sim. É melhor sonhar, que viver a realidade.

Sobretudo, porque aquelas mulheres não sorriam. As putas não sorriam. Não, vivem do ar de desdém, como quem não precisa de oxigénio, vivem do desdém dos outros, emanam o seu próprio. Nunca viram o sorriso no rosto de uma puta. Há quem diga que as putas não têm rosto, quanto mais sorriso. E gemiam. Sim, gemiam e acreditavam que sim.

Desculpa

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Desculpa-me todas as manhãs, se saio de casa e te dou menos beijos que na manhã anterior. Desculpa se não respondo às tuas mensagens, desculpa se, por vezes, não te digo tantas vezes como merecias, que te amo. Desculpa, se te amo tanto, com afinco e vigor e por vezes, me esqueço de demonstrá-lo. Desculpa se me consumo demasiado perante a minha vida e me esqueço, mesmo que temporariamente, da nossa. Desculpa, de vez em quando, não aceitar os teus mimos, desculpa se me falta o ar quando me abraças, desculpa se me irrito quando me tocas no nariz.

A sério, desculpa-me meu amor. Desculpa se já estamos juntos há um ano e eu te amo cada vez mais. Desculpa, mas eu acho que este amor não vai parar de crescer. Desculpa de não poder estar sempre ao pé de ti, de chegar a casa tarde e cansado, desculpa se sou calado, desculpa quando tens de me arrancar as palavras da boca, desculpa se por vezes me sinto frágil e não te dou segurança a ti. Desculpa se deixei de te escrever textos, desculpa se deixei de gritar na rua que te amo, desculpa.

Desculpa, às vezes o amor cresce tanto, que as palavras não chegam.

O Casamento a Três – II

Imagina como será quando tivermos um filho. Tu grávida, eu grávido também e a tua mãe, que já não é nova, de barriga arrebitada, grávida também. Grávida como nós, sim, grávida neste casamento a três, duas mães, um pai.

Imagina, o bebé a aprender as primeiras palavras a imitar tudo o que vê e ouve. Ele a dizer

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Mãe

ele a dizer

Pai

ele a imitar os olhos de carneiro mal-morto da tua mãe. Não quero um filho com olhos de carneiro, muito menos mal-morto. E a tua mãe a ensinar o bebé a dizer

Podias ajudar mais em casa, pai

e tu, sem ligares muito, cansada, esgotada de cuidares de uma criança, cuidares de mim, cuidares da casa e cuidares da tua mãe. Havemos de falar os dois, explanar a necessidade de a tua mãe estar aqui em casa todos os dias, a mandar palpites, como quem anda à pesca, a provocar-me, a sorrir-me com desdém, cada vez que passa pelo corredor, aqueles olhinhos de carneiro mal-morto, a dizerem

Um dia destes levo a minha filha

e eu cheio de medo que o olhar se transformasse em feitos e tu desaparecesses da minha vida, a tua mãe te levasse, com medo que eu não cuidasse de ti, com a certeza dela que eu não sou homem para ti, que não te trarei um futuro bom.

Havíamos de falar. Não aguento mais a tua mãe, nem os olhos de carneiro mal-morto. Não aguento mais um casamento a três.

O Casamento a Três – I

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No fim de contas, há coisas que devíamos pôr em pratos limpos, há arestas por limar e coisas por mudar. Por exemplo, aquele quadro ali à entrada. Aquilo não é um quadro, é um quadrado, nem arte é, talvez um mamarracho que me ocupa a parede do hall, nunca tiveste grande sentido estético, é verdade. Eu sei que foi a tua mãe que to deu. Já estou a imaginar a cara dela, da sogrinha, com ar de quem sabe tudo

– Ficava tão bem

com olhinhos de carneiro mal-morto, lágrimas de crocodilo e tu, como quem não quer deixar triste a mãe que te cuida dos filhos, lá cedeste.

Essa é outra coisa, que havíamos de mudar. As idas da tua mãe cá a casa, o ar dela de quem sabe tudo, a dizer

– Podias ajudar mais em casa, João

e a mandar levantar os pés, enquanto aspira a alcatifa da sala, mesmo durante os jogos do mundial e os jogos do euro e os jogos olímpicos e os jogos do campeonato nacional e os jogos do campeonato distrital e os jogos da liga de honra e os jogos da taça. Estou farto dos jogos da tua mãe. Sempre a dizer-te

– Deixa-o, minha filha

e tu, lá a tentares explicar que até gostas de mim assim, que é esse o teu conceito de lar, que gostas de ser dona de casa, cansada da vida de empresária que já levaste e ela a rosnar

– Ele não te traz futuro nenhum, filha

e ela com ar de sabe tudo, com olhinhos de carneiro mal-morto, lágrimas de crocodilo e tu quase a ceder.

O Outro Lado – II

O silêncio. Aquele que persiste em habitar esta sala, este quarto, esta casa. nullO silêncio abafado do mofo que insiste em perseguir. A casa quieta. Olho para o outro lado das coisas, o infinito de algo, a transposição dos factos e dos objectos de sempre, com a esperança que a visão tenha mais alcance que o coração. Sim, ainda aguardo por ti, que desças imponentemente a escadaria de madeira velha, carcomida pelo bicho, afectada pelo tempo.

E contudo, espero deste lado. Do lado do tempo imóvel, onde nada se move, tudo se estagna e fico a olhar para o outro lado, com ânsias de que surjas com esse sorriso no olhar, com a tua capacidade de argumentação intocável.

– De onde virás?

Fico à espera deste lado do Mundo, à espera das tuas acções implacáveis, das tuas certezas incontornáveis, dos teus pareceres eternos. Eu não sei muitas coisas. Continuo à espera todas as manhãs, a fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo.

O Outro Lado – I

Levantava-me todas as manhãs para fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo. Se tu, por trás dos prédios altaneiros que me vigiam o quarto, me assistes como se eu fosse um filme e a tela estivesse com ruído, como se o projeccionista precisasse de me ajustar.

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Permaneço com dúvidas, com certeza. Ando de um lado para o outro, a gastar as solas dos sapatos de vela, que me compraste um dia, só porque achaste que me ficavam bem e calculo que tu estejas, do outro lado do mundo, do teu mundo diferente e paralelo, a experimentar os novos sapatos de salto alto, vermelhos.

A casa quieta. A casa silenciosa, no mesmo local de sempre, no cucuruto de um oitavo andar, do lado esquerdo do coração, sempre à espera que chegasses tu e essa tua atitude de sempre, com a mania da perfeição e das limpezas, de salto alto e esfregão em punho, como quem pretende limpar a poeira que se instala numa casa, quando o coração anda a libertar farrapos de algo.

Deitava-me todas as noites, à beirinha do lado esquerdo da cama, com a certeza

quem sabe a dúvida

que chegarias do outro lado da cama e passarias a noite comigo.

Photo://MyLittleWorld

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Será a inspiração mais que um vazio?

O amor é a solidão das multidões

– O amor é a solidão das multidões

disse-me ela, como se soubesse a verdade por detrás das coisas. E eu, convencido disso, amei-a como se fosse o homem mais solitário do mundo, como se fosse a única pessoa que teria forças para conseguir conter toda a sua energia.

Cansei-me. Sinto solidão, não sinto amor. Dizes-me que são a mesma coisa. Repetes

– O amor é a solidão das multidões

e eu não sei se hei-de acreditar, se devo consultar um dicionário, um prontuário, uma enciclopédia e folheá-los até encontrar a resposta, nem que para isso tenha de gastar as suas páginas.

Consomes-me. Consomes-me por dentro, as energias, uma espécie de turbilhão, de buraco negro que suga. Tornas-te uma espécie de predador de sentimentos, do amor…

(ou devo dizer solidão?)

Não. Já não sei o que é o amor, se devo saber, se é uma espécie de Santo Graal, se nele existe o sentido da vida, se existe vida além do amor (solidão, talvez).

Poderíamos fazer uma dissociação das palavras. Sim, porque a literatura é uma ciência. Dissociarmos o amor da solidão, não ter necessariamente de viver as duas conjuntamente, organizar as duas por estados ou géneros, multiplicarmos a intensidade da primeira e dividirmos a intensidade da segunda.

Meu amor, porque temos de viver em solidão? Não podemos apenas viver em amor? Talvez as multidões não devessem existir. Acho que é melhor dispersar.

photo://eXcer

Vermute – III

Acho que é a isto que se chama começar de novo. Partir do princípio que nada se passou, que nunca antes te conheci, que não te conheço, fingir que tenho amnésia, que me esqueci do teu nome, dos teus vícios, pecados e erros.

– Como é mesmo o seu nome?

e fazer-me de tolo, como se nada se tivesse passado, como se nem sequer me tivesses chamado à atenção, como se nem tivesse reparado nesse teu vestido, no teu trejeito com a boca, da forma como bebes o teu vermute, como se ali estivesse o teu destino, como se alguém te falasse do fundo do copo, com voz melosa e te dissesse qualquer coisa, numa língua desconhecida.

– Luísa,

dirias. Um nome assim, dito de um modo simples, seco, repetitivo, morto, como se fizesses um frete, como se o teu nome fosse apenas um acessório do teu corpo. Acho que é isto, pôr uma pedra no assunto. Perguntar-te o teu nome, fazer uma pergunta, sem saber sequer a resposta, é esquecer-me de como é o teu acordar, de como escovas os dentes pela manhã, de como gostas do café, curto, comprido, com ou sem açúcar.

– Parece-me que a conheço,

sinto-me tentado a dizer. E depressa reparo que descuido o esquecimento, que me faço de amnésico, que a pedra já cá canta, que o passado já lá vai, águas passadas não movem moinhos. Calo-me, silencio os lábios com mais um cigarro no canto da boca, sinto-me tentado a desviar o olhar, a não ligar, a esquecer o que já disse, a bloquear as palavras que teimam sair em catadupa.

– Posso oferecer-lhe outra bebida?

– Já ofereceu…

– Sabe, sofro de amnésia.

photo://bomdia

Vermute – II

Levanto-me com aquela cara de sono a que já te acostumaste. Olhos miudinhos, raciocínio fraco.

– Fazes-me um café?,

sinto-me tentado a perguntar. Mas antes que o pergunte, já sei que não o fazes.  Ris-te daquela forma descarada a que já me acostumei.

És desleixada, eu sei. Sempre o foste. Raras vezes te vi de vestido ou maquilhada. Raras vezes te vi aperaltada, raras vezes te vi bonita. No entanto, continuei a gostar de ti. Ris-te de forma descarada e isso agrada-me.

Não sei quantas noites já passámos juntos, mas sei que ocupas sempre o melhor lado da cama, que me roubas os lençóis, que passo toda a noite acordado e cheio de frio. Gosto de ti, sabes? Gosto de ti egoísta, gosto de ti quando só pensas nos teus desejos, gosto de ti quando me ignoras dias a fio.

Acho que precisas de alguém que cuide de ti. Alguém que te aperte o tubo da pasta de dentes, alguém que apanhe as migalhas da cama, quando resolves comer bolachas a meio da noite.

Não percebo como voltámos ao mesmo, estás diferente agora. Nunca imaginei ver-te de vestido vermelho, a traçar a perna, copo de vermute na mão, a rires-te ainda mais descaradamente. Mulher estonteante, eu de cigarro na boca, a pender, a enlouquecer e tu ali a beber o teu vermute.

– Não, não. Não nos conhecemos. Nunca te vi. Mas sim, estaria disposto a conhecer-te. Paulo, muito prazer.

e rio-me de forma descarada.

Vermute – I

Foi bom. A sério, acredita que foi realmente extasiante. Nunca julguei que te fosse encontrar no café, precisamente àquela hora, numa tarde soalheira, de vestido vermelho, perna traçada, a saborear um vermute seco.

Eu chego, de cigarro no canto da boca, distraído com a cadência da rua, de casaco ao ombro, a admirar-te, mulher vistosa. Distraio-me, não percebo que és tu, que és a mesma Luísa de antigamente, aquela que se vestia de forma desportiva, a que fumava cigarros de manhã, em jejum, a desleixada.

Piscas-me o olho de forma descarada, não sei se me conheceste ou se pensavas em engatar mais um homem bem-parecido. Pisco-te de volta, com um sorriso entre dentes, como um garoto envergonhado.

– Outro vermute para aquela menina.

E tu convidas-me a sentar naquela mesa, sorris-me descarada, piscas-me o olho descarada e apresentas-te descarada:

– Luísa. Não nos conhecemos já de algum lado?

E o meu sorriso é envergonhado, não sei o que te hei-de responder, não sei se te lembras que vivemos juntos cinco anos, que partilhámos a mesma casa-de-banho, a pasta de dentes também

(a escova de dentes, não.)

e que cozinhámos no mesmo espaço.

– Paulo.

E esqueço-me de dizer mais algumas palavras, basta-te o meu nome a ver se me conheces, a ver se tens reacção, se levantas o sobrolho ao menos, em jeito de espanto.

– Parece-me que te conheço…

E ris-te de forma descarada à espera de uma resposta minha.

Ligação

Tenho medo do dia em que me ligares, que me apanhes desprevenida, de cabelos no ar, pijama vestido, roupa interior e cara por lavar. Não vou acreditar que me estás a ligar, calculo que é uma alucinação, que o sol me anda a fazer mal, começo a procurar a lista de médicos da zona metropolitana do Porto, a ver se me tratam. Talvez devesse procurar um psicólogo, um psicanalista talvez, sentar-me no divã e confessar o meu medo do telemóvel, que ele toque, que veja no ecrã o teu nome. Arrepia-me pensar que o telefone vibre, se acenda a luzinha do ecrã, que o ouça ao longe na mesa do café e eu a forçar-me a não o atender. Eu a lutar com os meus dedos, os dedos a lutar contra mim, a ansiedade de carregar na tecla verde já gasta, a atropelar-me pelo corredor, a ver se fujo, a ver se corro, a ver se fico, a ver se parto e sem saber se devo atender.

Tenho medo do motivo porque me ligas, não sei se vais casar, se te esqueceste de alguma coisa cá em casa, talvez seja o quadro que compramos juntos na galeria em Barcelona, talvez tenhas levado um livro meu por acaso, se calhar estás doente ou a precisar de dinheiro, vais ter filhos?

Ligas-me e eu a tremer, com medo que seja para me humilhar, para ralhar comigo, para me chamares psicótica, para que a tua namorada me chame puta. Mas no fim de contas, espero e desejo que me ligues, e admitas os teus erros, que digas que me amas, que me queres, nem que seja no gravador de chamadas.

Falsidade

Julgas que me consegues distrair com esses beijos, com essas palavras suaves sussurradas ao ouvido? Não acredito que não me conheças, sou mais atenta do que podes julgar. Não te fixes na minha memória aparentemente fraca ou nas minhas distracções comuns, sou mais esperta do que imaginas.

– Gosto tanto de ti.

Sim, sim, também eu de ti, meu amor. Gosto tanto de ti e dessa mulher com quem te vi a passear na avenida há dois dias atrás, sim gosto tanto. Por acaso vi-vos, por acaso ia a passar na rua na hora errada certa e encontrei-te com ela. Nada de mais, pouco peito, muito rabo. Mas reparei foi em ti, reparei no sorriso embevecido com que a olhavas, com a intensidade com que lhe apertavas a mão, como se fosse ela fugir, com a delicadeza com que a guiavas por entre as pedras da calçada, com medo que os pés lhe tropeçassem.

– Sabes, acho que podíamos aproveitar o facto de estarmos aqui sozinhos…

Pois, eu também acho. Aproveitavas e contavas-me o que viste nela que eu não tenha. Talvez não tenha tanto rabo, mas tenho mais peito. Neste mesmo peito onde agora estás mergulhado e onde tocas. Anda diz-me lá, como consegues uma coisa dessas? Na rua, és um senhor que, delicadamente, transporta senhoras pelas pedras da calçada. Em casa, és um sedutor nato, que sabe acariciar uma mulher. Não julgues que me deixo levar assim, hei-de fazer-te ver que quero uma resposta. Talvez levantar-te o sobrolho, desta forma… assim. Que achas? Intimida-te?

– Passa-se alguma coisa?

Não, não se passa nada. Não desisto com facilidade, tenho de treinar mais a prática do sobrolho, ando fraca dos tendões, hei-de arranjar outra forma, hei-de ter coragem de te perguntar o que quero, de te pedir o nome da mulher (só por curiosidade), talvez pedir o contacto também (só por uma mera casualidade) e quem sabe a morada (que gosto muito de tocar às campainhas, coisas da juventude). Hei-de arranjar coragem de te resistir, de te pedir (levantando o sobrolho), que afastes essas manápulas do meu corpo, que não me toques dessa forma intensa, que por favor (fazendo talvez olhinhos) da próxima vez que andes comigo na rua (quando não estiveres ocupado com ela), possas guiar-me pelo passeio, de mão dada, apertando-me a mão, como se fosse fugir, tu com o olhar embevecido, com delicadeza nos gestos.

É que sabes, os sapatos que me compraste a semana passada não são o meu número. A princípio julguei que fosse um engano, mas depois vi-a na rua (não julgues que a vigiei), de sapatos iguais, vermelhos, de salto alto, mas esta sem o pé apertado, sem se trocar toda ao andar, sem tropeçar nas pedras da calçada e percebi que afinal, sabes bem aquilo que fazes. És um sedutor nato, já te disse? Sabes enrolar, sabes fazer esquecer as coisas mais importantes, sabes ocultar as verdades, sabes camuflar as mentiras….

Não sei se já te disse, mas acho que era capaz de me apaixonar por ti.

photo:// Lia Carvalho © 2008