Monthly Archives: Dezembro 2007

Telefonema

Liga-me amanhã, por favor liga mesmo, liga-me quando estiveres melhor e a fúria te tiver passado. Liga-me logo pela manhã, mal te levantes, fala-me com a voz ainda ensonada e conta-me o que quiseres: que te custou a adormecer, que os lençóis são pequenos demais para a cama, que a noite estava fria
(para a próxima levo-te cobertores).
Não te esqueças, preciso de ficar descansada e ter certeza que não cometeste nenhuma loucura, que tomas o pequeno-almoço em condições, que tratas dessas tuas dores de costas frequentes e que fechas o bico do gás antes de saíres de casa.
Liga-me mesmo que isso te custe, mesmo que tenhas de engolir uns quantos sapos
(toda a gente sabe que é melhor beijá-los),
mas faz esse sacrifício, levanta-te da cama, cura a amargura com uma colher de mel de abelha, vai até ao corredor, pega no telefone
(tens de arranjar um daqueles telefones móveis para teres junto à cabeceira)
o meu número está lá gravado. Não procures no meu nome, tomei a liberdade de te gravar o número em amorzinho, desculpa, eu sei que parece lamechas, mas sabes bem como não gosto do meu nome. Liga para o amorzinho,
– Estou?
e eu pergunto-te se tu estás mesmo, se és igual, se não perdeste nada no caminho para casa, confirma o lugar do fígado, está lá?
– Estou sim,
ainda bem, mas confirma ao fundo das costas se não tens buracos em lugar dos rins,
– Está lá?
estou, estou aqui, já te disse.
– E os rins?,
esses também.
Faz-me esse favor, liga-me logo quando puderes, quando os primeiros raios de sol atravessarem os estores e te acordarem, quando ainda estás meio míope e te custa a encontrar o caminho até ao corredor. Liga-me em jejum, com o cabelo ainda despenteado, com as fraldas do pijama de fora e a luz ainda por acender. Liga-me amanhã cedinho, preciso de saber o que se passou contigo, porque te foste embora assim sem dizer água vai, água vem.

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Separação

Deixa as chaves aí em cima, larga isso na cómoda já te disse, dá-me essa merda por favor
(que acima de tudo sou bem educada)
não voltes mais, não me apetece olhar-te para a cara, não quero ver-te, nem a ti nem a esses olhinhos verdes a rirem-se para mim, de mim às vezes, a essa boquinha que se abre por minha causa, que se chega a mim, que me olha e diz
– Quero-te
a essa boquinha que me dá beijinhos, que me derrete toda, o que digo eu, parece que estou parva, vai-te embora, tu e esses faróis verde-musgo, essa boca grande, desbocada, em que não acredito, cala-te, escusas de me vires com falácias, de dizeres
– Quero-te
isso é mentira, só queres é bola, correcção, só queres é bola e comida, bola e comida é a tua ocupação, não julgues mais que sou tua criada, não penses que não vou resistir a esse corpinho bronzeado, a essas mãos fortes que me apertam contra ti, que me puxam para ti, que me deixam louca, a pedir por mais
– Mais, mais
(duas vezes é mais intenso)
a essas pernas que me envolvem, que me aquecem e confortam, a esse calor que me faz querer-te, mas cá estou eu a esparvoar
(bom verbo este, esparvoar)
estou a esparvoar eu, cala-te mas é, larga as chaves no pratinho das chaves, para isso é que o compraste, deixa-as todas, vê lá se não fizeste cópias, se as fizeste põe-nas também, vai e não voltes, fecha a porta, bate com ela, mostra-me essa força, essas mãos fortes que me apertam contra ti, a baterem com a porta, esse corpo bronzeado a descer as escadas, vai, vai, desaparece, não te quero sequer pôr a vista em cima, nem a ti nem a esses olhinhos verdes a rirem-se para mim, de mim às vezes.

Vinte e Cinco de Dezembro

Diz-me que passas este dia comigo, que os outros dias não interessam nem ao diabo, que o ontem já lá vai, que águas passadas não movem moinhos. Peço-te que esqueças o que de mau se passou todo o ano, que não evoques as crises surgidas entre nós, as discussões em tom alto ouvidas por todos e as pragas que te roguei.
Por favor, apanha o próximo autocarro, veste um trapo qualquer, não precisa ser de gala e vem ter a nossa casa. Toca à campainha que desta vez eu abro-te a porta. Diz-me que passas este dia comigo, não quero ficar sozinho a reparar nos enfeites de Natal, a ver os troncos a arderem lentamente ou a devorar uma caixa de chocolates. Não fales nos motivos da nossa separação, se agi bem ou se agi mal, não comentes as injustiças que nos aconteceram porque hoje é dia de festa. Tenho um presente para ti, ali embrulhado debaixo da árvore de Natal, é o único, foste somente tu que convidei.
Vem passar o Natal comigo e ouvir os cânticos costumeiros, diz-me que ainda gostas de peru, se o queres bem ou mal passado. Hoje é dia de Natal e não tenho mais ninguém, responde-me se ouvires esta mensagem de voz.

Trigésimo Sétimo Natal

É Natal outra vez, é Natal outra vez. Sucedem-se os Natais, todos os anos mais um, cada um chega mais rápido que o outro e eu aqui, sozinha, à média luz de um candeeiro. Todos os anos se sucede o mesmo, em catadupa, como se fosse costume natalício: apaixono-me. E a paixão não é fácil, não, não é fácil, muito menos para mim.
É Natal outra vez e tu não estás, nem tu, nem ninguém, nem este, nem o outro, nem o do ano anterior ou de há dois anos. É Natal outra vez e vesti-me a preceito, vestido preto cintado e decote generoso, com esperança que reparasses
– Fica-me bem o vestido
notasses o penteado cuidado, de tal modo engalanado e que afirmasses
– Fica-te bem assim o cabelo,
mas não estás cá para ver. É Natal outra vez e vesti-me a preceito para fazer companhia à solidão. Esta mesma não me diz
– Fica-te bem o vestido
ou
– Fica-te bem assim o cabelo,
esta mesma não me diz nada, não se desfaz em elogios, não se derrete comigo e permanece impunemente gelada perante mim, sem pronunciar som algum.
É Natal outra vez e sento-me à mesa tradicionalmente composta, sirvo-me a mim própria, em doses pequenas e suspiro
(suspiro ou sonho ou rabanada)
suspiro trinta e sete vezes, cada uma por cada Natal passado. Novo Natal, a vela vermelha ao centro a derreter junto comigo, a verter refugo de mim e eu sozinha já sem vela e só à média luz do candeeiro. É Natal outra vez e sento-me à lareira, esperando o amor e o presente que não chegam. É Natal outra vez e adormeço no sofá, com a lareira apagada, o vestido amarrotado e o cabelo já despenteado num eterno suspiro
(suspiro ou sonho ou rabanada).

Photo by://PrayerForRain

E Tudo Muda Com Um Talvez

Era uma mulher como tantas outras, mas aquela tinha algo de especial. Talvez fosse o vestido preto justo ou a maquilhagem simples, mas que realçava a beleza natural; não sabia bem o porquê de tanto fascínio e do desejo de passar ao balcão e oferecer-lhe uma marguerita. Não sabia também porque a língua me parecia cortiça e porque me engasgava ao pensar em falar-lhe. Talvez fosse do sinal que tinha no canto da boca ou do cabelo amarrado no topo da cabeça, talvez fosse do ar de menina ou do sorriso aberto. Independentemente do que fosse, a verdade é que ela me maravilhava a cada cruzar de pernas que deixava a nu os seus joelhos, a cada movimento das mãos delicadas no cabelo negro.
Eu era um homem como tantos outros, mas sem algo de especial. Talvez fosse dos óculos graduados e da armação fora de moda. Nunca ganhei coragem para lhe falar, porque gaguejava antes sequer de começar a proferir algum som, até ao dia em que chegou ao bar a pingar. Não sei o que me moveu a pagar-lhe um whisky, mas talvez fosse do aspecto desconsolado, dos pingos de chuva que lhe escorriam pelo pescoço ou da gabardina desabotoada que lhe deixava o peito a descoberto. Talvez fosse eu que já tinha bebido mais que o costume, talvez fosse por já ter mudado de óculos ou por já ter começado a ir ao psicólogo, mas a dada altura já falávamos sem obstáculos. A dada altura já bebíamos em conjunto, garrafas a trote, copos a galope; a dada altura já a mão dela me acariciava a perna, já a minha mão acariciava a dela. Talvez fosse da bebida ou talvez fosse do desejo em comum, mas a dada altura já ambos dormíamos na mesma cama, já ambos nem chegávamos a adormecer de tanta paixão.
E durante o resto da vida continuámos, uma mulher como tantas outras, um homem como tantos outros, porque acreditámos que talvez pudéssemos achar o amor ao balcão de um bar.

Solstício de Inverno

Está frio lá fora e estás comigo na cama quente, aquecida por nós. Tanto que passámos juntos, por nevões e tempestades, de mãos e nariz frios, com pernas entorpecidas e agora aquecemo-nos mutuamente. Tocas-me com o pé na perna, em jeito de aviso, à espera que eu corresponda ansiosamente, pondo a minha perna direita sobre ti. Pé no pé, mão na mão, leves roçares de pijamas amarrotados e tu que insistes em tremer monotonamente, pedindo que me chegue a ti, que te esfregue o corpo com a palma da mão, dando-te o calor que necessitas. Acarinho-te suavemente, beijando-te os lábios com precisão milimétrica em movimentos quentes e húmidos.
Está frio lá fora, hoje começou o Inverno e eu encosto-me a ti, pedindo-te conforto do meu jeito naturalmente mimado. Peço-te beijos no meio dos lençóis quentes e da atmosfera húmida do quarto, peço-te toques no corpo ardente enquanto te sussurro ao ouvido que te amo.
Está frio e desconfortável lá fora, mas estás comigo na cama quente. Contigo sinto-me aconchegado e feliz, sinto-me bem, pé no pé, mão na mão, aqui estamos quentes e juntos. Quem dera permanecer aqui contigo neste solstício de Inverno, pena que este seja o dia mais pequeno do ano.

photo by://contos

Sete, Sete – XII

(…)
O chefe da polícia científica chega ao laboratório, vindo da morgue. Encontra o estagiário num autêntico estado de êxtase, com a respiração sôfrega.
– Chefe! Analisei o fio de cabelo louro e sabe a que conclusão cheguei?
O chefe, habituado a uma já longa carreira de serviço, não se entusiasma muito, afinal já lhe passaram pelas mãos centenas de casos semelhantes e estaca à espera de uma resposta que justifique tanta aceleração.
– Não é louro!
– Não é louro? Como não é louro? – quase abriu a boca de espanto.
– Encontrei uma grande dose de amónia no fio de cabelo. E amónia é sinal de…
Antes sequer de concluir a frase, já o chefe terminava:
– … tinta para o cabelo! E acabado de vir da morgue e ver que a vítima tem o cabelo preto, posso supor que o nosso criminoso pinta o cabelo. Interessante… Mais alguma coisa?
– A vítima tomava anti-depressivos.
– Bom trabalho! Vou interrogar mais alguns vizinhos e colegas da faculdade, para verificar se sabem a razão de ela tomar isso e talvez falar com o médico que lhe receitou o medicamento. O frasco dizia alguma coisa?
– Paulo Meireles. É o nome do médico.
O chefe depois de ouvir isto, saiu disparado da sala, como se uma ideia lhe tivesse atravessado a mente. Talvez tivesse percebido uma ligação entre uma anterior declaração prestada e o médico ou talvez fosse pedir o contacto do tal médico.
O estagiário olha agora para a bancada de trabalho: prova 1C, chegou o momento de a analisar. Um rolo fotográfico permanece dentro de um tubo de plástico preto:
– Humm, tenho de revelar isto. – diz.
Entra então numa sala escura, apenas com uma luz vermelha e começa o moroso trabalho de revelação fotográfica, certo que dali sairá uma grande surpresa para todos.
(…)

Sete, Sete – XI

(…)
O ambiente parecia calmo e seguro, mas ao mesmo tempo, havia uma sensação que lhe percorria a coluna num arrepio. Talvez fosse o aspecto frio e cinzento da sala, talvez fosse a responsabilidade ou o medo de se trocar entre palavras, mas a verdade é que Carmen sentia-se pouco confiante e amedrontada perante aqueles dois oficiais de justiça.
Observa-os à distância que a muita proximidade exigia e tentava distinguir traços humanos neles, mas apenas conseguia ver dois rostos impenetráveis e isentos de emoções. Pouco depois, entra um rosto familiar na sala: o do inspector da PJ que encabeçava a investigação deste caso.
– Espero que não a tenhamos feito esperar muito, senhora Carmen. Como sabe foi intimada para prestar declarações neste posto, dado que foi a primeira pessoa a encontrar a vítima, Vitória Lima, sem vida.
Carmen começou a tremer e disse:
– Mas sou acusada de alguma coisa? Eu juro-lhe pela minha mãezinha que não fui eu.
– Nesta fase inicial, todos são suspeitos e não há ninguém inocente nem culpado. Se não tem nada a temer, responda-me a algumas perguntas. – afirmou de forma seca.
– Claro, se puder ajudar. – sussurrou Carmen.
– Qual o seu grau de proximidade com a vítima?
Carmen engoliu em seco:
– Ora bem, era vizinha dela há pouco tempo, nem falava muito com ela. A sério, é que ela era uma rapariguinha muito tímida e muito calada. Ainda me lembro do primeiro dia em que chegou à cidade. Muito bonita, muito desenvolta, mas muito seca e pouco conversadora. Levei-a de táxi para casa e desde então, pouco contacto tivemos, excepto quando nos cruzávamos no elevador.
O inspector riu-se maliciosamente, o que deixou Carmen preocupada, mas ele acabou por perguntar naturalmente:
– Ela recebia muitas visitas?
– Eu cá não sou de reparar muito na vida dos outros, mas já que perguntou, bem que ela de vez em quando, às tantas da noite, recebia uns indivíduos estranhos em sua casa, assim vestidos de preto e tudo, cá para mim eram drogados.
E assim se desenrolou Carmen num rol de afirmações fazendo jus à sua fama de vizinha preocupada com o bem-estar geral e que evidenciava que afinal ela até reparava na vida de todos. O inspector, já impaciente, continuava a ouvi-la, como era sua obrigação, mas entremeio a grande tédio, lá ia divagando, pensando nos próximos interrogatórios e ligações futuras à vítima, aguardando também pela chegada dos resultados do laboratório.

(…)

Mudanças

Olho ao redor da nossa nova casa, vejo os caixotes agrupados a monte, numa espécie de organização ligeiramente desorganizada, de encontro a uma parede de cor quase branca, quase, não totalmente, porque para pálida já basta a minha cara em dias de mau humor. Retornando ao assunto, olho ao redor da nossa nova casa, vejo os candelabros a precisarem de lâmpadas novas, de uma limpeza a fundo, já que não devem ver um pano há uma dúzia de anos. Qual a potência que hei-de escolher? Ora bem, é uma sala, precisa de muita luz, de um ambiente claro e quente, talvez ponha uma de 100W, daquelas economizadoras que isto hoje quer-se é poupar o ambiente. Pois, poupar o ambiente, senão daqui a uns dez anos, já nem temos casinha, nem Terra. E logo a nossa casinha que também trabalho deu a comprar, que tantas horas de sono nos tirou, quantos anúncios percorremos, quantas vezes fomos enganados pelos mesmos, quantas vezes pensámos em nem nos juntar, que esta coisa de juntar os trapinhos dá mais trabalho que se julga. Ah pois dá, não pensem que é pêra doce, porque cheguei a pensar umas poucas de vezes em ficar em casa dos meus pais, que lá tinha quem me fizesse o jantar. E por falar em cozinha, tive de comprar uns quantos livros, porque acho que a minha mulher (ou quase mulher) não ficava contente em comer todos os dias ovos estrelados. Ai tanta coisa que um bife leva! Não se pode pôr na frigideira e pronto? Para quê complicar as coisas com temperos e mariquices? Isso só faz é mal e dá muito trabalho.
Olho ao redor da nossa nova casa e vejo os vidros todos sujos, parece que foram barrados com manteiga, que trabalheira que isto vai dar, se calhar contrata-se uma mulher-a-dias e pronto, não achas? Eu sei que não é propriamente barato, mas não sejas forreta, vá lá. Deixa lá isso, sim sei que gastámos muito dinheiro para comprar a casa, mas acho que ainda nos podemos dar ao luxo de contratar alguém para limpar esta confusão. Vai ser divertido? Vai ser divertido? Repete lá! Vai ser divertido? Pois vai. Muito divertido, já me estou a imaginar com um avental e um espanador cor-de-rosa a limpar isto tudo. Não estou habituado a essas coisas, lá em casa era a mãe que tratava disso. Não, não sou menino da mamã. Não comeces com essas coisas, isso são trabalhos para mulheres, mas antes que digas que sou machista, vamos lá mudar de assunto. Que achas se pintasse esta parede mestra de cor de laranja? Dava assim um tom porreiro, púnhamos aqui umas poltronas todas XPTO que vi naquela loja que abriu do outro lado da rua e voilá! Eis uma sala toda estilizada. Não gostas disso, achas berrante? Pronto tu é que sabes, decide-te lá então. Escolhe lá a cor das paredes, muda as lâmpadas, limpa os candeeiros, os vidros e tudo o mais e já agora aproveita e faz o jantar, que estou cheio de fome, enquanto vou ali comemorar com uns amigos o facto de termos comprado uma casa nova. Venho já.

Esta noite esquece que me viste nascer – III

Enquanto as lágrimas silenciosas teimavam em afagar o ar, aproximava-me dela. O coração batia ritmado, ao mesmo ritmo do esfregão e a respiração era cada vez mais ofegante, à medida que me aproximava do seu pescoço. Eu aproximo-me, ela esfrega a panela. Ela esfrega a panela e eu aproximo-me, tudo isto numa cadência contínua, aproximação, esfregão, aproximação, esfregão. E quando já não havia mais panela para esfregar, quando os dedos se começaram a gastar e já não havia mais caminho para palmilhar, já não havia mais distância, já só havia eu e ela, na mesma cozinha, em frente ao mesmo balcão, ao mesmo lava-louças, ao mesmo esfregão, vigiados pela máquina de lavar silenciosa, parei. E a diferença entre nós não era nenhuma, eram somente dois corpos, duas peles, duas almas, duas bocas que se aproximavam ao ritmo de um coração que teimava em não se entregar. Sinto-lhe a respiração, aquece-me a face,
– Pára
diz-me, sem se afastar sequer.
– Se é mesmo o que queres, resiste
tratando-a subitamente por tu, sussurrei-lhe ao ouvido e a respiração aumentou ainda mais. Ela não respondeu, talvez porque se achou fraca demais para atender à minha ordem. Principiei em beijar-lhe o pescoço, em tocar-lhe com as mãos nas costas, em definir-lhe todo o corpo ao ritmo de um só toque, enquanto que ela se entregou aos meus beijos de volúpia. Despiu-me a camisola, beijava-me cada vez com mais intensidade, a sua face era agora a da loucura
(afinal a loucura precipita-se sempre)
e eu peguei-a ao colo, da mesma forma que faria se portasse um tesouro precioso. Pus o seu delicado corpo de encontro à mesa da cozinha, a mesma em que tantas vezes ela me havia ensinado a cozinhar,
– Tens de fazer-te um homem, Joãozinho
e aqui estava eu, a fazer-me um homem, a fazê-la uma mulher. Dispo-lhe a camisola, abro-lhe os colchetes
– Para o lado esquerdo,
murmurou. Mas ao mesmo tempo que dizia
– Para o lado esquerdo
disse também
– Pára.
E eu não parei, não parei porque o corpo já não me obedecia mais, porque já não tinhas forças para impedir que a amasse, que suasse junto dela, como um homem, como poucos.
– Se é mesmo o que queres, resiste
e o
– Resiste
ecoou pelos azulejos da cozinha, como um estímulo para que ela me parasse o crescimento, para que eu não me fizesse um homem, para que continuasse a ser o mesmo afilhado, o mesmo miúdo, como poucos. E não conseguiu resistir, não resistiu à maciez do corpo do miúdo, não resistiu às mãos que a despiam de preconceitos, não resistiu simplesmente. Fomo-nos deixando levar pela loucura
(afinal a loucura precipita-se sempre)
e agora estávamos junto à máquina, ela parada e nós avançávamos, e a máquina parada, sem se mover, sem se inundar, sem centrifugar, sem lavar e nós sem parar, a inundarmo-nos, a centrifugarmo-nos, a lavarmo-nos de preconceitos. E quando um encontrão mais forte, pôs a máquina a lavar de novo, ela gritou
– Pára, eu conheço-te desde sempre.
Eu não parei, invadi-a precipitadamente
(afinal a loucura precipita-se sempre),
deixei-a louca, deixei que ela caísse nos meus braços, braços que já não eram de miúdo, eram braços de homem que a tomavam como mulher. E mesmo sabendo que não passaria daquela noite, que amanhã estaria eu sozinho, encostado à máquina e ela de esfregão em punho, a lavar a louça em silêncio, deixei-me levar pelo momento, beijando-a e tomando-a como minha. Fundimo-nos num só, eu um homem, ela uma mulher, deixando de nos diferenciar durante minutos e, num último gemido, dirigi-me ao seu ouvido de mansinho e disse
– Esta noite esquece que me viste nascer
e caímos ambos num estado de paixão temporário, o mesmo tempo que demora uma máquina de lavar em funcionamento.

Toma Conta de Mim

Toma conta de mim. É só o que te peço. Protege-me todas as noites, quando tenho medo do papão e do escuro e diz-me que estás aqui ao pé de mim. Aperta-me, aconchega-me, abraça-me e guarda-me dos medos. Acorda-me numa manhã enevoada e pede-me para ficar na cama à tua espera. Pedes e eu fico. Eternamente. Fico porque sei que cuidas de mim, como cuidarias de ti própria, como cuidarias do teu bem mais precioso. Dá-me a mão esta noite, a luz está apagada e acho que vejo sombras na escuridão. Aperta-me com força, diz-me que está tudo bem e que estás aqui ao pé de mim. Sussurra-me ao ouvido e conta-me o que fazes por mim, como me salvas do mundo, diz-me que tomas conta de mim. Confio a minha vida nas tuas mãos, confio que cuidas de mim.

Esta noite esquece que me viste nascer – II

Não me recordo bem a primeira vez que pensei que era ela a tal, uma mulher bonita e interessante, que a queria comigo sempre. Recordo-me dela frequentemente em nossa casa, a melhor amiga da minha mãe, a minha madrinha. Ria-se muito, a bandeiras despregadas, com as minhas brincadeiras de criança e despenteava-me os cabelos em jeito de troça. Tornou-se a minha confidente, contava-lhe as conquistas da adolescência, os amores e desamores, mas lá para os dezanove anos, tornou-se alvo das minhas próprias conquistas. Acho que a princípio ela não reparou ou não quis notar, porque isso lhe seria demais incómodo, porque lhe seria prejudicial em tudo na vida e eu também nunca tive coragem de ser directo, achando que era uma idiotice da minha parte. A verdade é que isto me foi crescendo, tipo cancro que vai ratando o corpo, assim era ela, crescendo e dominando o meu. Pensei em escrever-lhe uma carta, mas acho que nunca fui muito dado às letras e talvez ela pensasse que eu era imaturo demais para assumir aquilo que sentia. Afinal uma carta é sempre demasiado infantil, sempre à espera que seja a outra pessoa a incumbir-se das responsabilidades, quase esperando que ela assine de cruz, um sim ou um não vincado no papel branco. Depois decidi-me por lhe falar cara a cara, mesmo que a dela estivesse tão próxima que desse para sentir o seu perfume ou a sua respiração trémula. E foi hoje.
– Tenho uma coisa para lhe dizer
disse de forma despreocupada, como que minimizando os factos. E ela também despreocupadamente, continuou o que tinha a fazer, à espera de uma resposta de esfregão em punho. Gerou-se um silêncio, o meu de timidez, o dela de espera,
– Então? Diz lá que não tenho a tarde toda
ripostou de forma despreocupada, como sempre.
– Acho que me esqueci…
– Não me venhas com tangas, João! Diz lá o que queres de uma vez por todas,

perdendo a paciência, que anteriormente sempre fora muita. Não estava nos seus melhores dias, pareceu-me incomodada comigo, não percebi porquê, como se fosse costume eu perceber alguma coisa sequer da vida e de mulheres.
E numa súbita dose de loucura precipitada
(afinal a loucura precipita-se sempre),
quase que gritei
– Quero-a a si.
– Queres o quê? Agora a sério, tenho pouco tempo, tenho de acabar esta louça e fazer um bolo que a tua mãe me pediu para os anos do teu primo.

Achei que era altura de me calar, perdi a coragem repentinamente, tive vontade de me enfiar dentro da máquina de lavar e andar ali à roda, a ser espremido, a ser enxaguado, ainda em pré-lavagem. Mas não querendo perder a minha masculinidade, disse de novo, desta vez baixinho
– Quero-a si, quero-a comigo, sempre
Mas nem sei se ela percebeu à primeira, se fui abafado pelo barulho da máquina ou se era o afinco com que esfregava a panela da sopa que a impedia ou se quis nem perceber. Não sei, não faço ideia alguma, como é costume algum. Senti-me a fraquejar, de aperto no coração, cheio de dúvidas, sem saber se havia de repetir ou calar-me para sempre, de atirar as palavras ao rio dentro de um saco e afogá-las como se faz com os gatos.
– És um miúdo como poucos
respondeu-me algum tempo depois. E, ao ouvi-la, caiu-me uma lágrima no silêncio, de tal modo que ressoou como se o vácuo fosse aqui.

Esta noite esquece que me viste nascer – I

– És um miúdo como poucos
disse-me. E, ao ouvi-la, caiu-me uma lágrima no silêncio, de tal modo que ressoou como se o vácuo fosse aqui. Olhei-a, como poucos, e senti que era esta a mulher que queria para me acompanhar durante toda a vida. Observava-lhe os traços perfeitos, digno de um projecto artístico, e o ar maduro e culto, enquanto o seu semblante se adensava num profundo lamento. Quase que me senti tentado a beijar-lhe os lábios como num sopro invisível, como se fosse inaudível para simples humanos e, no mesmo instante, contive-me. Contive-me porque lhe detectei uma intensa relutância, qualquer coisa que a detivesse, como uma barreira que a impedia de saltar, dada a sua altura.
– És um miúdo como poucos
repetiu-me. E eu, sem perceber o que isto era, o que isto significava, se isto significava algo sequer, desfazia-me em lágrimas não visíveis, daquelas que escorrem por debaixo da pele, como sangue grosso, escorrendo a grosso modo.
– És um miúdo como poucos
intensificou. E parecia que queria dizer mais, que as veias lhe gritavam palavras que não se ouviam, nem se diziam. Olhei-a de novo, finquei-lhe a vista, não a larguei mais e ela completou:
– Mas és apenas isso, um miúdo.
E eu, sem perceber, sem permitir que as palavras ficassem conscientes, abri muito os olhos,
– Como?
interrogando da mesma forma que quem tivesse ouvido um som que afinal não se ouvia.
– És um miúdo, tens mais de metade da minha idade.
Não consegui perceber se era não interesse dela, se era medo, se era inexactidão de palavras, um não redondo ou um talvez bicudo demais para se resolver aqui, em frente a uma máquina de lavar em funcionamento. A máquina parou e eu também. Ela continuou em silêncio, a lavar a louça afincadamente, de palha de aço em riste, de detergente apontado a um prato e quase que fazia pontaria como se quisesse matar um fantasma que a perseguia. E num relance mais aberto quase julguei ver-lhe uma lágrima cair-lhe também, silenciosamente.

O Sifão do Coração

Magoaste-me Carlos, não precisavas de mentir, de me enganar, de vires com falinhas mansas a dizer
– Foi sem querer
falinhas mansas não, por favor, mas selvagens de tão falsas que são. Escusavas de fazer de conta que não me vias quando entrava na livraria, de te esconderes por detrás dos livros de economia, daqueles calhamaços de cinco quilos, quando eu sabia muito bem que não percebias nada de gestão, que nem a tua vida soubeste gerir nunca, que a tua mãe é que te fazia a cama e o almoço, que jantavas sempre fora em botequins de segunda categoria ou de terceira ou quarta. Não precisavas de virar a cara à saída da tua rua, de te fazeres importante, de pensares que tinha ido ali por tua causa. Não te enobreças, não fui por tua causa, fui apanhar o metro na outra ponta da cidade só porque me apeteceu, não penses que fui de propósito passear pela tua rua, só para sentir o teu cheiro, não te julgues especial, não te aches grande, que nem mediano és, és medíocre, um canastrão dos piores.
Fizeste doer, não julgues que sais assim impune, já há muito tempo que o coração não me doía tanto
(sim, o meu é daqueles que doem)
já há alguns anos que não sofria assim, que não chorava como se tivesse rebentado o sifão do lava-louças e o canalizador
(outro canastrão dos grandes)
não o conseguisse consertar e ele ali a jorrar, a jorrar lágrimas, como se fosse água mineral. Não tinhas necessidade de me enganares, sem me avisar, sem antes me dizeres
– Olha, vou-te enganar
que eu assim ficava de prevenção, à espera que a dor chegasse, à espera de lhe dar uma traulitada na cabeça, de lhe dar cabo do canastro. És um merdas, Carlos. Não vales nem o que pesas, não tinhas nada de me fazer parecer uma parva, à tua espera no restaurante, uma parva com cara de parva, à espera de uma surpresa e chegar e dizer ao senhor do restaurante
– Espere só mais um bocadinho
e ele a dizer
Se não chegar ninguém para a acompanhar, terei de ceder a mesa a outro.
E eu a pensar que isto é uma conspiração, que quase me obrigam a ser casada, a ter marido, namorado, amante, a não ser solteira, que isto é um restaurante para casais, que as mesas são para dois e não para um. E eu mais uns minutos já estava na rua, enxotada como um cão, um rafeirozeco qualquer com pulgas e tu não apareceste. Para quê isto, Carlos? Era preciso fazeres-me de parva com um sorriso parvo, à tua espera? Não tinhas necessidade de depois fazeres-me ver-te do outro lado da rua com uma gaja qualquer, com um vestido mais curto que as minhas cuecas, um ar de galdéria, uma leviana de certeza.
Magoaste-me Carlos, não hás-de ficar sem levar o troco, não julgues que sou boazinha, nunca o fui, já a minha avó dizia
– Esta miúda é ruim
e até o sou, pisaste-me os calcanhares Carlos, sou ruim Carlos, tem noção disso, hei-de fazer-te sofrer o resto da tua vida, não me venhas dizer
– Foi sem querer
porque não caio em mais tangas, isso são tretas de quem levou com os pés, também te dói não é? Agora sabes o que me fizeste sofrer, o quanto me dói, mas vais sofrer mais, disso podes ter a certeza, hei-de rebentar-te o sifão do coração e hás de jorrar lágrimas como se fosses uma boca de incêndio, põe-te a pau, ficas já avisado Carlos.

Ausência

Não suporto estar aqui, longe de ti e não sentir o teu abraço em cada fresta de luz que atravessa os estores da nossa janela rabiscada. Custa-me tentar sentir o nosso cheiro por entre os lençóis, só obter frieza e o calor a sumir-se por entre os dedos. Gostava que o tempo se repetisse em multiplicidades constantes, num dejà vu frequente onde sempre terás presença, onde partilharemos tudo o que se fará por debaixo do sol. Olha-me nos olhos mesmo assim, porque te não vejo e não sei querer sentir o que é não amar e não partilharmos o mesmo local. O nó na garganta avoluma-se, adensa-se e só te queria ter aqui comigo ou ter-me aí contigo. Não queria ficar triste por todas as coisas estranhas que aconteceram, nem me preocupar tanto contigo ou como te sentes sem mim, mas apetece-me correr para os teus braços. Correr e sentir que somos só nós e que o mundo é pequeno demais para nos conter a nós e ao nosso sentimento. Queria sobretudo que pudéssemos suportar sequer um instante de ausência, porque o nosso mundo sem o outro, já não é o mesmo.

Agarrar

Quero agarrar-me a ti. Agarrar-me a ti e não me sentar mais. Fincar-me a cada puxão, a cada contratempo, fazer birra como um miúdo mimado, berrar e não te largar. Quero tornar-me raiz, firmar-me em ti e beber das tuas certezas, curando as dúvidas que nunca existiram. Quero garantir-te a segurança, quero prender-te aqui, a nós. Quero não te perder, que não me fujas, que não me largues. Hoje pretendo fazer-me firme, firmeza eu e agarrar-me ao teu eu, que não passa do nosso. Faz-me forte, faz-me força para que não me puxem para longe de ti. Faz-nos um só para que sejamos maiores, para que não nos levem para longe. Quero tornar-me tronco, ramo hirto, quero agarrar-me no nosso eu e ficar-me por cá, por nós, por todo o sempre.

O Amor

Então é isto também, o Amor: a complacência no olhar como conforto numa manhã mais fria, num medo mais profundo ou num desvio da vida. Não há descanso aqui, ao pé de ti, há mais que isso: há plenitude e tranquilidade. Circulamo-nos nas veias e artérias, complementamo-nos no nosso ser, fundimo-nos num só. Amor, amor. És Tu. É certo.