Category Archives: Sete Sete

Sete, Sete – XII

(…)
O chefe da polícia científica chega ao laboratório, vindo da morgue. Encontra o estagiário num autêntico estado de êxtase, com a respiração sôfrega.
– Chefe! Analisei o fio de cabelo louro e sabe a que conclusão cheguei?
O chefe, habituado a uma já longa carreira de serviço, não se entusiasma muito, afinal já lhe passaram pelas mãos centenas de casos semelhantes e estaca à espera de uma resposta que justifique tanta aceleração.
– Não é louro!
– Não é louro? Como não é louro? – quase abriu a boca de espanto.
– Encontrei uma grande dose de amónia no fio de cabelo. E amónia é sinal de…
Antes sequer de concluir a frase, já o chefe terminava:
– … tinta para o cabelo! E acabado de vir da morgue e ver que a vítima tem o cabelo preto, posso supor que o nosso criminoso pinta o cabelo. Interessante… Mais alguma coisa?
– A vítima tomava anti-depressivos.
– Bom trabalho! Vou interrogar mais alguns vizinhos e colegas da faculdade, para verificar se sabem a razão de ela tomar isso e talvez falar com o médico que lhe receitou o medicamento. O frasco dizia alguma coisa?
– Paulo Meireles. É o nome do médico.
O chefe depois de ouvir isto, saiu disparado da sala, como se uma ideia lhe tivesse atravessado a mente. Talvez tivesse percebido uma ligação entre uma anterior declaração prestada e o médico ou talvez fosse pedir o contacto do tal médico.
O estagiário olha agora para a bancada de trabalho: prova 1C, chegou o momento de a analisar. Um rolo fotográfico permanece dentro de um tubo de plástico preto:
– Humm, tenho de revelar isto. – diz.
Entra então numa sala escura, apenas com uma luz vermelha e começa o moroso trabalho de revelação fotográfica, certo que dali sairá uma grande surpresa para todos.
(…)

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Sete, Sete – XI

(…)
O ambiente parecia calmo e seguro, mas ao mesmo tempo, havia uma sensação que lhe percorria a coluna num arrepio. Talvez fosse o aspecto frio e cinzento da sala, talvez fosse a responsabilidade ou o medo de se trocar entre palavras, mas a verdade é que Carmen sentia-se pouco confiante e amedrontada perante aqueles dois oficiais de justiça.
Observa-os à distância que a muita proximidade exigia e tentava distinguir traços humanos neles, mas apenas conseguia ver dois rostos impenetráveis e isentos de emoções. Pouco depois, entra um rosto familiar na sala: o do inspector da PJ que encabeçava a investigação deste caso.
– Espero que não a tenhamos feito esperar muito, senhora Carmen. Como sabe foi intimada para prestar declarações neste posto, dado que foi a primeira pessoa a encontrar a vítima, Vitória Lima, sem vida.
Carmen começou a tremer e disse:
– Mas sou acusada de alguma coisa? Eu juro-lhe pela minha mãezinha que não fui eu.
– Nesta fase inicial, todos são suspeitos e não há ninguém inocente nem culpado. Se não tem nada a temer, responda-me a algumas perguntas. – afirmou de forma seca.
– Claro, se puder ajudar. – sussurrou Carmen.
– Qual o seu grau de proximidade com a vítima?
Carmen engoliu em seco:
– Ora bem, era vizinha dela há pouco tempo, nem falava muito com ela. A sério, é que ela era uma rapariguinha muito tímida e muito calada. Ainda me lembro do primeiro dia em que chegou à cidade. Muito bonita, muito desenvolta, mas muito seca e pouco conversadora. Levei-a de táxi para casa e desde então, pouco contacto tivemos, excepto quando nos cruzávamos no elevador.
O inspector riu-se maliciosamente, o que deixou Carmen preocupada, mas ele acabou por perguntar naturalmente:
– Ela recebia muitas visitas?
– Eu cá não sou de reparar muito na vida dos outros, mas já que perguntou, bem que ela de vez em quando, às tantas da noite, recebia uns indivíduos estranhos em sua casa, assim vestidos de preto e tudo, cá para mim eram drogados.
E assim se desenrolou Carmen num rol de afirmações fazendo jus à sua fama de vizinha preocupada com o bem-estar geral e que evidenciava que afinal ela até reparava na vida de todos. O inspector, já impaciente, continuava a ouvi-la, como era sua obrigação, mas entremeio a grande tédio, lá ia divagando, pensando nos próximos interrogatórios e ligações futuras à vítima, aguardando também pela chegada dos resultados do laboratório.

(…)

Sete, Sete – X

 (…)

Os interrogatórios haviam começado e no bairro toda a gente participava em burburinhos. As mulheres passavam o dia à janela do prédio cochichando umas com as outras sobre quem seria o culpado pela morte de tão bela moça. Falava-se num caso amoroso com o rapaz da embaixada lomográfica e num crime passional. Havia também quem falasse em drogas, traficantes de bairro e num ajuste de contas. Os homens depois de chegarem do trabalho, faziam apostas no café sobre quem seria o assassino.

– Cá para mim a rapariga suicidou-se, mas foi. Ela andava a ficar louca.

– É o que eu digo: estudar só dá cabo do juízo. Precisamos é de quem trabalhe e não de quem estude.

Outros diziam:

– Acho que foi a vizinha do terceiro esquerdo que encontrou a moça com uma tesoura nas costas.

– Quem? A taxista? É uma jóia de mulher, trabalhadora e honesta.

Mas havia quem contestasse:

– Aposto metade do meu ordenado deste mês em como foi aquele rapaz, o Miguel, que vende máquinas fotográficas!

– Lomográficas.

– O que é isso?

– É o que ele vende. Máquinas lomográficas e não fotográficas, mas eu cá não acredito que tenha sido ele.

Isto dava-se todos os dias, numa plena especulação de presumíveis criminosos e enquanto os falatórios se sucediam em catadupa, a Polícia Judiciária chamava testemunhas e possíveis suspeitos a prestarem declarações na esquadra.

Carmen foi uma deles e apesar da relutância, talvez o seu testemunho fosse mais relevante do que julgava.

(Continua)

Sete, Sete – IX

(…)

O laboratório da Polícia Científica vivia um rebuliço agora. Volvidas algumas horas, o jovem estagiário tremia com a responsabilidade de ser ele a revelar ao chefe os resultados das análises bioquímicas ao fio de cabelo.

– Chefe? – chamou em ligeira dúvida.

Não obteve resposta. «Talvez ainda esteja no departamento de medicina legal», medita.

Olha agora para o papel que o computador lhe devolveu. Análise Bioquímica – Prova 1A/Processo 33870. Tenta observar a lista dos constituintes que poderiam ter provocado a despigmentação do cabelo, em busca de algo específico. Passa com o dedo pela lista. De repente, estaca: 75%. Uma dose elevada.

Desabafa em alta voz:

– É mesmo isto! – Bate com a mão na cabeça – Como é que não pensei nisto antes? Só podia ser. Que estúpido…

Insulta-se por não se ter lembrado do óbvio. Ri-se pelo facto de não se lembrarem de algo simples. Espera agora a chegada do chefe, enquanto analisa a segunda prova. Dentro do saquinho identificado como prova 1B, está contido um frasco de plástico branco. Analisa-o e vê o nome do paciente a que era destinado: Vitória Lima. Médico que prescreveu o medicamento: Paulo Meireles. «Mirtazapina», lê no rótulo. Imediatamente percebe para que foi prescrito: Vitória estava numa situação de depressão profunda. O curso de medicina forense também havia ensinado a este estagiário que mirtazapina é o princípio activo do Prozac, um dos antidepressivos mais vendidos em todo o mundo.

O chefe da Polícia Científica e responsável por este processo-crime está, ao mesmo tempo que isto acontece, na morgue. Fala com o médico legal, observa a vítima e ouve as declarações acerca do óbito e a única certeza que tem é que este caso está longe de ter um fim à vista.

(Continua)

Sete, Sete – VIII

(…)

A vida de Vitória na faculdade não foi fácil. Pela sua atitude introspectiva e calada, praticamente todos a olhavam de lado. Achavam-na uma pessoa estranha, tendo se identificado como anti-praxe e não fez vida de caloira. Ia a todas as aulas, mesmo que mais ninguém fosse. Tirava apontamentos excelentes e parecia que nada a distraía. Contudo, por dentro vivia isolada: do mundo e de si própria. Tinha poucos amigos, porque poucos se aproximavam dela, porque também ela nunca permitia.

Carlos era um dos poucos que se aproximava. Conhecido como o génio do curso, também sabia o que era ser posto de lado, ser olhado como o esquisitinho, o anormal. Carlos era o estereótipo do geek da faculdade: cabelo bem penteado, mocassins, camisa por dentro das calças, óculos graduados. Mas era bonito: de olhos verdes, levemente moreno. A primeira vez que tentou estabelecer contacto com Vitória foi quando a viu passar de novo os apontamentos de biologia humana:

– Precisas de ajuda? Vejo-te com problemas nessa legenda…

Vitória levantou a cabeça, surpreendida. Em seis meses ninguém lhe havia dirigido a palavra e eis que naquele dia aquele rapaz lhe oferece ajuda. Também nunca tinha sequer reparado nele, mas Vitória sorri como que retribuindo a atenção e aceita o esclarecimento. Até o achou simpático e sociável, acabando por ali ficar, descobrindo pontos em comum, químicas latentes, brilhozinhos nos olhos. A verdade é que nasceu daí uma bela amizade, improvável sim, mas pura.

E mesmo não tendo uma vida fácil na cidade, Vitória ganhou um pouco de mundo, um mundo amigo chamado Carlos.

(Continua)

Sete, Sete – VII

(…)

A Polícia Técnica estava encarregue de examinar as pistas cuidadosamente recolhidas no apartamento da vítima. Tudo foi acomodado e identificado como as normas o exigiam.

O laboratório da polícia ficava bem no centro de uma movimentada avenida. Todos os dias esta era palmilhada por centenas de pessoas, centenas de vidas que ali se cruzavam em velozes corridas para o trabalho. Eram vidas de azáfama, mas ao olharem para aquele edifício moderno, branco e envidraçado, estavam longe de perceber a azáfama vivida pelos que afincadamente tentam trazer resposta às dúvidas de muitos.

Os sacos das provas, numerados, estão em cima da bancada de trabalho. A etiqueta 1A dá-lhe conta de ter sido a primeira a ser recolhida. Olha-a atentamente: uma madeixa de cabelo. Louro, parece-lhe. Retira-a cuidadosamente com pinças.

«Podes analisá-la ao microscópio» diz ao seu ajudante. «Procura vestígios de algum produto estranho e faz a recolha do ADN, se possível. Depois faremos o cruzamento com os dados da base».

«Não acha que poderia pertencer à vítima?»

«Não a vi ainda. Não fui eu a recolher o corpo. Daqui a pouco passo pela sala de medicina legal para pedir mais informações. Trata mas é de verificar o que te pedi.»

O ajudante, apesar de estagiário, era um rapaz capaz e consciente da responsabilidade do seu trabalho. Da madeixa retirou um pequeno fio de cabelo e colocou-o entre uma lâmina e uma lamela. Colocou-a no microscópio, ajustou o parafuso macrométrico e à medida que tentava focar a preparação, movimentava também o micrométrico. A visão microscópica não enganava: o fio de cabelo era fino e pela estrutura revelava-se pertencente a uma cabeleira encaracolada. Olhou novamente, mudou a objectiva para uma de 15x e notou uma ligeira despigmentação. Chamou o chefe:

«Há aqui algo que talvez lhe interesse».

«Interessante. Faz uma análise bioquímica para percebermos a origem da despigmentação».

Um borrifo com um produto e colocar o cabelo numa espécie de estufa, foi o suficiente para que se obtivesse, pelo vapor, a identificação da substância. Bastava agora esperar umas horas para a máquina proceder à sua discriminação em constituintes.

«Analisa as outras provas. Vou ver o que me dizem acerca do cadáver».

(Continua)

Sete, Sete – VI

(…)

As dores são naturais a todos. O tempo para a cura é que varia consoante a pessoa. Para Vitória essa cura tardou. Continuou a fotografar e a colocar o fruto desse trabalho online, mas os comentários desejados nunca mais chegaram, o e-mail não continha o remetente pretendido e nem o telemóvel recebia a mensagem ansiada. Vitória continuou a estudar e obteve os louros: a entrada na faculdade de medicina.

Mas Vitória mudou também. Já com dezanove anos, tornou-se amargurada. Sempre fora educada para ser a melhor, mesmo que isso fosse contra a sua vontade. E foi ficando distante e apática, pouco se importando com o mundo à volta.

Fez as malas, levou praticamente tudo. Não tencionava voltar nem aos fins-de-semana. Partiu de comboio e não olhou para trás nem para o que deixara. A cidade parecia-lhe grande demais e isso agradava-lhe.

«Talvez aí me deixem sossegada» repetia para si própria.

Deixou de ser LomoLover e de ter contacto com o Lomo-Shopper. Visitava a sua conta de fotografia e reparava nos comentários simpáticos trocados com uma tal de MissingYou. Foi uma paixoneta virtual que havia desenvolvido e Vitória achou que era a altura certa de esquecer tudo isso. O ruído constante do comboio inebriava-a nesses pensamentos. Um sinal sonoro quebrou-os: havia chegado.

Escolhera aquele apartamento longe da faculdade, por isso mesmo: pela longa distância. Não gostava de ambientes académicos e muito menos tinha o espírito. O facto de ser junto à embaixada lomográfica fora uma benesse, mas era esse mesmo local que acabaria por mudar a sua vida.

Vitória estava agora morta, a cura para a dor finalmente havia chegado. Cabia agora aos inspectores da Polícia saberem quem lha tinha dado.

(Continua)

Sete, Sete – V

(…)

Era um dia igual a tantos outros. Vitória vivia ainda com os pais. Prestes a terminar o secundário, ansiava atingir o seu objectivo: ter uma nota suficientemente alta para se candidatar a medicina. Ia conseguindo, à custa de muito esforço e uma vida social quase nula. A cabeça embrenhava-se completamente em livros e espairecia na fotografia.

Naquele dia, ligara rapidamente o computador e com a ansiedade evidente nas mãos, leu «Lomo-Shopper está online».

«É hoje» pensou. De facto, o encontro estava marcado para aquele mesmo dia. Estava nervosa. Não o conhecia, mas inspirava-lhe confiança, era divertido, diferente dos outros da sua idade e principalmente era também amante de lomografia.

Vestiu-se num compasso ansioso e trémulo. Esteve horas em frente ao armário, a fazer combinações de estilos e cores. Acabou por optar pelo simples vestido verde. Umas gotas de perfume e tudo perfeito. Olhou-se ao espelho e mirou embatucada o seu aspecto. Achava-se bonita. E enquanto o fazia, o tempo galopava até à hora marcada. Aliás, 25 minutos antes, lá estava ela, na esplanada da Baixa. Normalmente, pelas normas sociais, seriam os cavalheiros a esperar, mas Vitória negava-as, Ali estava, Holga pousada na mesa junto com o café e as pernas cruzadas.

15 horas. Vitória olhou para o relógio e pensou que ele estaria prestes a chegar.

15 horas e 15 minutos. Segundo café e uma água com gás e nem vestígio do amigo virtual.

15 horas e meia. Ouve um sinal sonoro, abre a mala e «Mensagem recebida». A medo, lê-a «Desculpa. Surgiu um imprevisto. Fica para a próxima. Lomo-Shopper». Não tem coragem para responder, mas o coração rasteja pela Baixa. Gostaria de o ter conhecido, aliás tantas conversas tiveram já, entre impressões acerca de lentes e rolos, fotografias enviadas e só faltava mesmo um tête-à-tête. Ficou desiludida.

16 horas. Liga o computador: «Lomo-Shopper está offline». Vê também a sua conta  de fotografia: «Zero comentários». E o que a afligia era saber por quanto tempo duraria esta ausência incerta, se até às dezassete, dezoito horas ou por longos meses de dor.

(Continua)

Sete, Sete – IV

(…)

Todos estão chocados. Nada faria prever tal desfecho. Afirmam que Vitória era uma moça que nunca dera problemas no prédio. Levantava-se cedo todos os dias, mas chegava sempre tarde a casa. Não era muito afável com os vizinhos e poucos lhe conheciam a voz. Já haviam convocado uma reunião de condomínio, mas Vitória não compareceu e muito menos abriu a porta quando duas pancadas fortes se fizeram ouvir:

«Vitória, está aí? Não disse nada e eu decidi vir aqui. Precisamos mesmo da sua presença para estabelecer as quotas mensais.» e bate novamente.

Do interior do apartamento apenas se ouve música ruidosa. Mais umas pancadas fortes e o ruído continua, mas Vitória nunca surgiu.

Era estranha, andava sempre com uma Lomo a tiracolo, uma mítica Holga  e com ela fotografava as pessoas que deambulavam, os sinais e os automóveis. Todas as semanas ia à embaixada lomográfica, mesmo ali ao lado. Ao balcão estava um jovem, cuja identificação dava pelo nome Miguel Greno. Vitória já era conhecida ali, tantas eram as vezes que lá se dirigia. Todas as semanas entregava um ou dois rolos para revelar. Apenas os colocava no balcão e dizia:

«Passo por cá mais tarde.»

Para Miguel nem era necessário que lhe dissesse algo. Já lhe conhecia os hábitos. Vitória, todos os sábados, a meio da manhã, saía vestida de forma simples e desportiva, de ténis na moda e dirigia-se à pastelaria em frente. Um bolo de arroz e uma meia de leite, o costume. Depois de largar o dinheiro certo, ia finalmente à embaixada. Regressava horas mais tarde, suada e com o cabelo desgrenhado, mas sempre bonita. Levava as fotos. Mirava-as meticulosamente, sorria para umas, franzia o sobrolho para outras. Chegava a casa e guardava umas religiosamente, rabiscava com um marcador azul as imperfeitas, digitalizava as melhores e disponibilizava-as numa comunidade online.

Miguel conhecera Vitória nessa mesma comunidade; ele, Lomo-Shopper, ela, LomoLover. Dos comentários às fotos, depressa passaram a trocar e-mails e números de telefone. Até que um dia um encontro mudou tudo isso.

(Continua)

Sete, Sete – III

(…)

Carmen relembra tudo isto ao inspector da Polícia Judiciária que está ali de pé.

«A senhora está intimida a prestar declarações no nosso posto.»

Enquanto Carmen titubeia tentando dizer que não sabe mais nada, passam dois médicos legais conversando entre si:

«Um crime passional, certamente.»

«Viste bem a forma como cravaram a tesoura? Ciúmes, de certeza.»

Da casa de banho ouvem-se flashes de máquinas fotográficas, passos miúdos e um burburinho de fundo. Lá dentro vêem-se técnicos com os materiais em riste, procurando pistas e rastos deixados por descuido. E abrem-se saquinhos de plástico, com fechos herméticos, nos quais se colocam individualmente e com o auxílio de pinças, uma madeixa loira de cabelo, um frasco de um medicamento qualquer com um princípio activo de mirtazapina, um rolo fotográfico, um anel de prata e a tesoura. Tudo elementos aparentemente estranhos à cena do crime. Ouve-se um fecho de correr, pegam no corpo lívido e esvaído em sangue e colocam-no num saco. Azul-celeste, ironicamente. Ouve-se novamente o fecho de correr.

A perícia revista o apartamento. Era um T1 simples, numa zona boa da cidade, longe da universidade. Estranho facto, pois como estudante universitária era de todo mais fácil morar perto da faculdade. As divisões eram dotadas de uma organização incomum, poucos tarecos, linhas direitas, cores berrantes. A sala era uma divisão ampla, bastante luminosa, com um laranja forte na parede ao fundo. Duas estantes minimalistas estavam cobertas de pó, detalhe que não correspondia à total arrumação da divisão. Um candeeiro de inox, arrojado, convivia amigavelmente numa mesinha de apoio, instalada junto à poltrona. Os bens eram de luxo, notava-se.

O quarto era um local mais intimista, de chão alcatifado e de cortinas vermelhas translúcidas que davam uma áurea quente ao espaço. Um livro repousa na cama ainda desfeita. Os técnicos quais alienígenas invadem o quarto à procura de indícios. Com luvas de borracha sintética remexem os lençóis, uma gotinha ínfima de sangue detém a sua atenção. Uma espécie de cotonete serve para retirar o fluido, que é colocado num frasquinho, também hermético como os sacos. Mais um flash, o técnico dispara a máquina sobre umas marcas feitas na cabeceira da cama. De unhas, talvez. Na mesinha ao lado encontra-se um pó branco, já meio sumido, um cartão de crédito e um papel de prata. Tudo é recolhido.

Lá em baixo, na rua, já todos se aperceberam que algo se havia passado. Os boatos e os murmúrios aumentam e os cochichos próprios de bairro ressoam. As senhoras bem arrumadas e as donas de casa, domésticas convivem agora em tal coscuvilhice.

O saco desce. Dois homens carregam-no. Mãos tapam as bocas das mulheres sensíveis e muitas viram a cara com medo de serem surpreendidas pela face da falecida.

Um rapaz de mota aproxima-se do local. O capacete tapa-lhe a expressão e a identidade. Parece atento ao que se passa, mas nada pergunta. Apeia-se do veículo, tira o capacete e entre uma melena de caracóis loiros, quase que se vêem os olhos vidrados de tal misteriosa presença.

(Continua)

Sete, Sete – II

 (…)

Depois de meia hora no trânsito intenso, a placa ao cimo grita Rua das Tílias.

Vitória pede para que Carmen estacione o táxi junto ao banco, esta última franze o sobrolho, mas nada comenta. Seria exagero demais perguntar-lhe para onde ia, pensou. Vitória não sai logo, fica dentro da viatura a olhar o prédio que se lhe apresenta imediatamente à esquerda. Mira os prédios vizinhos e casca no verniz; o banco e a embaixada lomográfica são mesmo ali ao lado e mais uma raspadela no verniz. Olha para a entrada e os quatro andares acima e casca no verniz. Um papelinho mal embrulhado, sacado da mala, diz-lhe «3.º direito» e a chave numa mão serve para raspar o verniz que ainda lhe sobra.

«Quanto é a corrida, minha senhora?»

«Carmen, trate-me por Carmen. São doze euros e meio.»

«Mas o taxímetro marca quinze…»

«Ora essa, Vitória. Aqui os vizinhos ajudam-se mutuamente.»

Vitória abre os olhos e fica surpresa. Mas Carmen, na sua desenvoltura conhecida por todos, dispara:

«Não pude deixar de reparar que vem viver para o terceiro direito deste prédio…»

E antes que Vitória proferisse um som monossilábico que lhe daria a resposta, já Carmen continua:

«Eu moro no terceiro esquerdo. Sabe, precisamos de sangue novo por estas bandas. É tudo velho aqui, a vida social resume-se a novelas e reposições de programas antigos e os poucos jovens que aqui moram ressentem-se. Sim, porque no quarto andar vive um rapaz, um pintor, muito bom partido, não lhe conheço nenhuma namorada, se calhar fazia-lhe bem conhecê-la…»

Enquanto Carmen prosseguia neste rol de histórias e descrevia as personagens que ali moravam, já Vitória havia fechado o semblante e antes que a sua nova vizinha continuasse a abrir a boca, já esta lhe havia deixado uma nota de dez e outra de cinco no banco do táxi.

«Não preciso de ajudas» e subiu apressadamente, sem sequer desejar uma boa tarde.

(Continua)

Sete, Sete – I

O corpo jazia exangue no chão de mosaico branco, frio de casa de banho. A sua posição era a de olhos fixos no nada, parecia brutalmente assassinada, uma tesourada fora o seu fim. Quando a encontraram não podiam crer, ela parecia um ser angelical, de imaculada concepção, corpo perfeito, lábios definidos, mãos de dondoca. Foi a vizinha que deu o alarme, a dona Carmen do terceiro esquerdo que estranhou a porta aberta àquela hora da noite. Era taxista, profissão incomum para uma mulher, mas a necessidade o havia determinado. Aventurou-se a entrar na casa, bateu duas vezes na madeira de cerejeira, ninguém respondeu e entre com licenças e vou entrar, passava de divisão em divisão, curiosa e preocupada ao mesmo tempo.

«Vitória, estás aí?», gritava.

Era nova a Vitória, estudava Medicina, mudara-se para a cidade este ano. Era pacata, parecia-lhe e pouco falava com os outros inquilinos do prédio. Carmen conhecera-a em serviço. Chamaram um táxi à estação de comboios e eis que uma mulher com cara de menina lhe aparece.

«Rua das Tílias, por favor.»

O seu longo cabelo preto não passa despercebido, nem a sua pele perfeita, de cor morena uniforme, levemente dourada. Ainda menos lhe passa despercebido o destino «Rua das Tílias», o mesmo onde vive há vinte anos. Enquanto sintoniza o rádio em meio a chuviscos de ruído digital, no centro do trânsito infernal, Carmen mete conversa:

«Alguma preferência?», sorri.

«Diga?»

«Alguma estação de rádio que goste mais?»

A sua mão pára quando ouve uma música pop ao estilo que lhe parecia ser o da cliente. Esta encolhe os ombros como se não lhe interessasse muito a música e a conversa.

«Carmen, prazer.», insiste.

«Vitória Lima»

E assim se cala Carmen, mas acha-a distante. Na sua mente paira a curiosidade de lhe conhecer as origens e o porquê do seu destino, mas não queria parecer coscuvilheira.

Nos setenta à hora a que aquele troço da estrada lhe permite, a rapariga mexia os dedos constantemente, como se afligida pela ansiedade. As unhas eram compridas, de formato rectangular, cor de sangue de boi e com o indicador esquerdo raspava o verniz à medida que o respirar aumentava de frequência.

(Continua)