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O Outro Lado – II

O silêncio. Aquele que persiste em habitar esta sala, este quarto, esta casa. nullO silêncio abafado do mofo que insiste em perseguir. A casa quieta. Olho para o outro lado das coisas, o infinito de algo, a transposição dos factos e dos objectos de sempre, com a esperança que a visão tenha mais alcance que o coração. Sim, ainda aguardo por ti, que desças imponentemente a escadaria de madeira velha, carcomida pelo bicho, afectada pelo tempo.

E contudo, espero deste lado. Do lado do tempo imóvel, onde nada se move, tudo se estagna e fico a olhar para o outro lado, com ânsias de que surjas com esse sorriso no olhar, com a tua capacidade de argumentação intocável.

– De onde virás?

Fico à espera deste lado do Mundo, à espera das tuas acções implacáveis, das tuas certezas incontornáveis, dos teus pareceres eternos. Eu não sei muitas coisas. Continuo à espera todas as manhãs, a fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo.

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O Outro Lado – I

Levantava-me todas as manhãs para fumar à janela, com a dúvida se me estarias a observar do outro lado do teu universo paralelo. Se tu, por trás dos prédios altaneiros que me vigiam o quarto, me assistes como se eu fosse um filme e a tela estivesse com ruído, como se o projeccionista precisasse de me ajustar.

null

Permaneço com dúvidas, com certeza. Ando de um lado para o outro, a gastar as solas dos sapatos de vela, que me compraste um dia, só porque achaste que me ficavam bem e calculo que tu estejas, do outro lado do mundo, do teu mundo diferente e paralelo, a experimentar os novos sapatos de salto alto, vermelhos.

A casa quieta. A casa silenciosa, no mesmo local de sempre, no cucuruto de um oitavo andar, do lado esquerdo do coração, sempre à espera que chegasses tu e essa tua atitude de sempre, com a mania da perfeição e das limpezas, de salto alto e esfregão em punho, como quem pretende limpar a poeira que se instala numa casa, quando o coração anda a libertar farrapos de algo.

Deitava-me todas as noites, à beirinha do lado esquerdo da cama, com a certeza

quem sabe a dúvida

que chegarias do outro lado da cama e passarias a noite comigo.

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