Monthly Archives: Abril 2010

O Silêncio (I)

Perguntei-te, assim como quem não quer a coisa e como que não consegue ficar mais calada:

Ainda me amas?

e o silêncio apoderou-se de ti, como a vontade de falar se apoderou de mim:

Diz-me o que ainda sentes por mim, preciso de ouvir da tua boca.

E o silêncio interpôs-se entre nós. Porque provavelmente desististe de nós, como quem desiste de usar camisolas de gola alta porque incomodam, porque sufocam e ai que calor! e porque eras obrigado a usá-las em crianças e criaste uma resistência. Eu sei que as minhas palavras não são as melhores, a minha rima ainda não é suficientemente boa, a minha língua e o meu cérebro ainda agora se conheceram e não são muito amigos. Mas eu insisti e pergunto

Ainda me amas?

O silêncio é sempre o que ouço.

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Im(perfeito)

Se as imperfeições não se amassem, o amor soaria tão mais falso. Se o Amor não fosse também ele falho e imperfeito, nada faria sentido. Os defeitos também se amam, as falhas também se gostam. Porque tudo, assim de repente, parece tão mais verdadeiro, tão mais único. E real, acima de tudo real. Porque o Amor não é aquilo que os livros e os filmes nos fazem crer, o Amor não é aquilo que nos parecem forçar a acreditar desde pequeninos. O Amor é isto. O Amor é a realidade e nunca a fantasia. E por isso que o Amor nos vale tanto, porque nos completa. E mesmo essas falhas são completas. O Amor é completo apenas nas imperfeições.

Pare, Escute e Olhe.

Olha para ti e vê o que és. O que te tornaste. Descobre

O que tens dentro de ti?

e apercebe-te realmente a tua forma mais primitiva de ser, o teu âmago, tu mesmo. Encontra a verdadeira acepção de personalidade e percebe, por favor, essa tua necessidade instintiva de seres aquilo que não és – talvez o sejas – ou de pareceres aquilo que nunca foste – mas que queres ser, aparentemente o queres, ai as aparências. Olha mesmo a fundo e compreende essa tua necessidade de ódio, não gostas de o sentir, mas gostas que o sintam por ti. Que necessidade é essa? Cala-te não digas baboseiras, palavras estúpidas, intrincados e complexos argumentos dentro de ti mesmo – as dualidades, as vozes. Vozes, duas vozes e sempre uma se sobrepõe à outra. Sempre sentes necessidade de veres os dois lados, sentes os dois lados como teus, nunca te sentas do esquerdo ou do direito – a corda bamba, sempre a corda bamba. Queres que o teu lado seja sempre o negro – negro, não – o dúbio – o cinzento, esse sim. Sim queres, mas o que é isso. Auto-comiseração? Não o é. Sabes que não o é. Porque não há ninguém que sinta tão menos pena de si. Porque

lá está, sempre o mesmo

o ódio, a nulidade, a ignorância é o que geras, é o que queres. Mas depois não aceitas, não o queres, não o gostas. Olha-te, vê-te. Vai e encontra-te depois dessa tua mortificação. Essa barbaridade estúpida. Porque o és. Bárbaro, não. Nunca. Estúpido, sim. Sempre. Muitas vezes. Algumas. Poucas. É o veres sempre os dois lados.

Rolleiflex

– Não sei de que mundo venho

disse ela. E tornou num desfiar de vida, no seu olhar vivo do mundo, na sua intenção de olhar o constante de uma outra forma que não com olhos de ver. Porque os olhos não servem apenas para ver. Para ela os olhos servem para sentir, para observar para além do que o cristalino permite, para penetrar profundamente na verdadeira constituição das coisas. E tornou em olhar pela janela e observar os prédios como quem fotografa. E pega na sua Rolleiflex e fotografa de dia com flash.

– O sujeito é mais importante que a fotografia

disse ela. E para ela assim o era, não lhe importava o exterior. As pessoas deviam andar despidas, porque assim ficamos mais perto de lhes ler o interior. Olhava o mundo como se não lhe pertencesse e conseguia ver beleza onde os outros não viam. Vê beleza na destruição, na miséria e na pobreza. Porque ela sabe que a sua máquina vê o que os outros não querem ver.

– Não sou deste mundo,

disse ela. E não o quer ser, porque este mundo não é dela, mas sim dos outros. E com olhos de alienígena, sim porque ela é estranha a este mundo, a este olhar humano e fraco, sim com olhos de alienígena ela vê o interior. E mesmo o mais negro, é bonito.

Medo de seres nada.

– Sabes lá tu o que é estar sozinho.

Nem tampouco sabes o que é a solidão. Mas sabes o que é o medo, sabes o que é sentires-te na escuridão, preso ao temor do nada, preso às falhas, preso ao que não tens. E por isso tens medo, de seres menos, de seres pouco, inadequado. Medo de não servires, de não prestares, de te enganares – e oh! o quanto já te enganaste – de falhares, de fazeres merda – és um merdas – de voltares a sê-lo e de falhares. Sim, de falhares. Isso sabes tu o que é. Não sabes o que é a solidão porque tens medo dela. Não aguentas estar sozinho, porque és fraco, porque amas. Mas sabes que és podre. A merda que tens dentro de ti e sabes que não podes falhar mais. Até sabes que não queres falhar mais. Mas sabes que dentro de ti não prestas e que por isso vais ser menos do que querem. E sabes que vais chegar um dia e não seres suficiente, porque falhaste em seres o que devias, o que podias, o que tinhas. E tens medo. Medo de seres tu só, de perderes quem amas, medo de seres só porque és mais, és muito e adequado apenas quando estás junto.

A solidão é um estado de nada ou um estado de tudo?